Mamãe, você é uma máquina!
VANDER ANDRÉ ARAÚJO – E ela vinha correndo, era uma supermãe em velocidade invejável naquela manhã de domingo, na 40ª Maratona de Hamburgo, na Alemanha, uma mulher, que maravilha!
Já a criança, tão pequenina, abrigada naquele cantinho de sol que escapava por entre os edifícios na manhã fria, erguia um cartaz feito de papelão de caixa com os dizeres “Mama, du bist eine Maschine!”, traduzidos por: Mamãe, você é uma máquina! Ao lado dela, a irmã mais velha, o pai e os avós também aguardavam, entre ansiosos e orgulhosos, a passagem da mãe, uma entre mais de 20 mil corredores que cruzariam a avenida à beira do lago Alster.
A cena me imobilizou por alguns minutos. Fiquei ali, tentando adivinhar diálogos, traduzir, imaginar gritinhos de expectativa, decifrar ansiedades. Era uma espera invertida: não aquela dos nove meses no ventre materno, mas a da criança que, confiante, aguarda a conquista da sua heroína, desafiando os próprios limites enquanto desempenha tantos outros importantes papéis na vida de tantas pessoas.
Como já disse Charlie Chaplin: “Não sois máquinas, homens é que sois, e com o amor da humanidade em vossas almas”. Ainda assim, neste tempo moderno, aquela frase no cartaz me fez refletir mais ainda. Afinal, o que poderia significar chamar uma mãe de máquina?
Sabemos que a máquina é um engenho humano, um artifício que combina inteligência e técnica para resolver problemas. Associar uma mãe a essa ideia, no contexto de alguém que supera limites, que é veloz, que vence desafios como uma maratonista, pode parecer elogio. Mas também pode reduzir sua grandeza a uma função utilitária, a um desempenho mecânico.
A verdadeira (ou mais próxima do real) maratona de uma mãe exige muito mais do que isso: a maternidade é uma das experiências mais complexas e, talvez por isso mesmo, uma das essenciais para a continuidade da vida humana, sendo uma dimensão exclusiva da condição feminina.
Comecemos pelas mães solo: aquelas que, a duras penas, enfrentam o preconceito, a estigmatização e a solidão para desempenhar, sozinhas, papéis que a sociedade insiste em dividir mediante o gênero. Só para termos uma ideia, segundo dados do IBGE, nos sete primeiros meses de 2024, Minas Gerais somou mais de 7.249 bebês que nasceram sem o registro do nome do pai na certidão de nascimento.
Mães que trabalham, que lutam por direitos básicos, como gestação digna, com pré-natal no sistema de saúde público, licença, respeito e que ainda hoje encaram olhares enviesados em ambientes de trabalho que historicamente não lhes pertenciam, pois eram reservados aos homens. Siga @jornaldenegocios no Instagram para ver mais conteúdos.
Mães que lavam, passam, cozinham. Sozinhas? Muitas vezes, sim. Inseridas em estruturas ainda patriarcais, onde se insiste em atribuir ao homem o que está fora de casa, e à mulher o que nunca termina dentro dela. Até quando?
Mas mãe é mais que função. É também uma mulher, com desejos, vontades, vaidades ou ausência delas. É menina e jovem que também quer brincar, praticar esportes, se cuidar ou simplesmente descansar. Às vezes, tudo o que ela quer é deitar no sofá, exausta, assistir à TV ou zapear no celular, sem maquiagem, reunindo forças para o dia seguinte.
Mãe acorda de madrugada para cuidar do filho doente, mede febre, oferece remédio e, sobretudo, colo. Mãe acompanha tarefas escolares, como se já não tivesse tarefas suficientes para cumprir. Mãe prepara café, almoço e jantar. Mãe assa bolo, frita biscoito, tempera o frango.
Mãe costura e não apenas tecidos, mas também nossas falhas, nossos erros, nossas dores. Mãe também ralha. Mãe reza, canta, faz promessas, sustenta a fé da família inteira.
Mãe trabalha, sustenta, organiza, decide, participa, vota, representa porque tem o direito e a força de fazê-lo, embora conquistado tão recentemente…
E, ainda assim, chamá-la de máquina parece pouco. Porque mãe não é máquina.
Mãe é gente, com todas as suas grandezas e fragilidades. Mãe é presença, é resistência, é reinvenção diária. Mãe é milagre em forma de vida.
Sorte a nossa, imensa, de termos, ou termos tido, uma mãe. De ter começado a vida no abrigo do seu corpo, por nove meses. Um privilégio simples, essencial, que nos acompanha para sempre. Nas palavras cantadas por Zeca Veloso: “todo homem precisa de uma mãe”. (iBOM / Vander André Araújo / Foto: Vander André).

