Quem era João Piraquara na Bom Despacho dos anos 60?

 

LÚCIO EMÍLIO JÚNIOR – Nos primeiros anos da década de 60, nossa cidade tinha um jornal local chamado “O Bom Despacho”. Nesse tempo de rivalidade da UDN e do PSD, a equipe do jornal era formada por Nicolau Leite, Nicomedes Campos, ligado a UDN, tendo também luminares como Paulo Campos, escritor de quem já falamos aqui e reproduzimos crônicas.

Desse círculo de amizades participava o professor Magela. Esse período foi, sem dúvida, um marco do jornalismo local e de nossas letras. E dentre os colunistas havia um especialmente crítico, tendo denunciado as más condições dos açougues locais, causando comoção: João Piraquara.

“Quem é João Piraquara?”, perguntou toda a cidade. A identidade do personagem nunca foi revelada publicamente. Siga @jornaldenegocios no Instagram e veja outros conteúdos.

Meu avô, Mário Morais, nunca nos mostrou essas crônicas, não as reuniu posteriormente. Somente uma sobre João Sapato parece ter tido ressonância em sua obra posterior. Nunca revelou, mesmo a nós familiares, a história do pseudônimo João Piraquara e suas crônicas polêmicas que eletrizaram a cidade.

No entanto, a verdade venho agora revelar: João Piraquara era Mário Morais, meu avô. Graças à minha querida tia Marlene, obtive acesso a essas crônicas de vovô Mário, das quais tive notícia da parte do amigo Júlio, filho do Paulo, mas nunca, anteriormente, tinha conseguido vê-las reunidas. Pretendo ir republicando-as aqui e em outros meios digitais, se possível. Escolhi, então, a crônica “O Grande Obstáculo” para ilustrar o quanto são interessantes esses textos ainda. (iBOM / Lúcio Emílio Júnior / Foto acima: Mário Morais em arquivo da família).

O Grande Obstáculo

“A direção deste jornal empenha-se, com interesse, no sentido de que ele mantenha um cunho regionalista, que retrate a vida do município, zele pelas suas tradições, bem como cultue o amor aos seus grandes filhos do passado, ensine a sua história às gerações presentes, estimule e ampare todas as boas iniciativas atuais, seja o porta-voz das reivindicações nobres e elevadas e dos anseios desta comunidade que aqui desenvolve e progride, apesar de esquecida e desamparada pelos governos do Estado e da União.

Nossa meta (permitam-nos usar a palavra) é bem servir. Nenhum interesse de ordem econômica, pois o pequeno jornal do interior é sempre deficitário. Os que com ele colaboram, o fazem por simples diletantismo, e o seu número é reduzido, dadas as nossas fracas vocações literárias.

Como conservar, porém, esse espírito regionalista proposto pela direção do jornal? Como respirar de suas páginas apenas o cheiro agreste dessa terra generosa? É tarefa difícil porque as pequenas comunidades do interior têm vida rotineira e os dias, meses e anos se sucedem, quase iguais uns aos outros, sem nada acontecer que desperte maior interesse.

Mais uma semana findou-se. Qual o fato local que oferece assunto para uma crônica? Nada ou quase nada, e esse pouco mesmo, quando chega o domingo já é um assunto batido, na expressão comum.

Dizer que continua a falta de água e as ruas estão empoeiradas? Que a cidade está quase em escuridão, que as indústrias reduzem sua produção por falta de eletricidade? Mas isto é uma constância a que o povo já se acostumou. Não! Não se acostumou mas se submeteu com paciência fatalística, própria dos fatos irremediáveis.

Comentar a nomeação do Nicolau Leite (foi ou não foi nomeado) para o Ginásio Estadual? Mas esta notícia até que vale a pena ser registrada. Nossos parabéns, não a ele, pois quem os merecem são os alunos do Ginásio e os pais de família de Bom Despacho. Parabéns também ao Governo pelo ato. Há, porém, uma consequência lamentável: a perda do Dr. Dirceu Amorim. Cidadão íntegro, capaz, justo e honesto, fez no Ginásio uma administração profícua, impessoal. Sua saída deixará pesar em nosso meio.

‘Aconteceu’ também o aniversário da cidade: 48 anos no dia primeiro de junho, idade madura que já obriga a ser um pouco séria. Seus ‘netos’ comemoraram a data. Desfilaram a mocidade estudantil, o Tiro de Guerra, a Escola de Reforma e o Sétimo Batalhão diante do palanque onde se encontravam as autoridades do Município. Belo espetáculo, este, de moças bonitas e rapazes fortes, ao som da banda de música, exibindo os caracteres de uma raça que marcha em demanda do futuro.

Outro fato, aparentemente sem nenhuma importância, mas que feriu a sensibilidade emotiva daqueles cuja mocidade está ficando ao longo da demolição do velho coreto da Praça da Matriz. Presenciamos o desabamento do teto, a queda das colunas que se partiram ruidosamente, o amontoado de alvenaria e madeira partida. O espetáculo de destruição do velho coreto aflorou-nos reminiscências e saudades de um passado que começa a diluir-se lentamente nas brumas das distâncias. Aquele amontoado de destroços afigurou-se-nos escombros de muitas ilusões que se foram, e o nosso coração se confrangeu de mágoa e dor.

Mas, como ia dizendo no início, como fazer uma crônica nos moldes pretendidos pelo nosso jornalzinho? Nada acontece que desperte interesse e, quando na manhã de cada domingo, sai a nossa folha, tudo que aconteceu durante a semana já é velho para toda a cidade. Impossível satisfazer a direção do jornal”.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *