Bom Despacho olhando para cima: que mudança, hein!

 

ÍTALO COUTINHO – Quem caminha hoje pelo centro de Bom Despacho e resolve levantar um pouco os olhos percebe uma cidade diferente. Aquela cidade mais baixa, de casas antigas, muros pequenos, janelas na calçada e gente conversando na porta, foi aos poucos ficando para trás. Não foi de uma vez. Foi prédio por prédio. Lote por lote. Esquina por esquina.

Há pouco mais de 20 anos, olhar para a região da Praça da Matriz era enxergar o céu quase inteiro. A torre da igreja mandava na paisagem. As árvores, os telhados, os casarões e as casas de família formavam uma espécie de moldura urbana. Hoje, a paisagem mudou. O céu ficou mais recortado. A cidade ganhou uma nova linha no horizonte. Bonito? Moderno? Inevitável? Talvez. Mas também é preciso perguntar: planejado?

O desejo de morar perto da Matriz não nasceu ontem. Todo mundo queria estar no centro. Perto da igreja, dos bancos, das lojas, das escolas, da farmácia, do médico, do cartório, da vida acontecendo. Morar ali sempre teve um certo valor simbólico. Era prático, era nobre, era conveniente. A cidade foi crescendo e o centro virou objeto de desejo. Aí entra a matemática simples do terreno: se muita gente quer morar no mesmo lugar, o chão começa a subir. Quando o chão fica caro, a construção sobe junto.

Assim, o entorno da Praça da Matriz começou a ganhar edifícios. Da Rua São Paulo, passando pela Praça do Larguinho, seguindo pela Avenida São Vicente, chegando à Praça Antônio Leite, os prédios foram aparecendo. Um aqui, outro ali. Depois mais um. Depois outro maior. Quando assustamos, o centro já estava cheio de novas fachadas, garagens, portões eletrônicos, sacadas e carros procurando vaga.

A cidade mudou, mas parece que não conversamos direito sobre essa mudança.

Prédio não é problema por si só. Cidade viva cresce mesmo. Gente precisa morar, comércio precisa funcionar, investimento precisa acontecer. O problema é quando a cidade cresce como quem vai empilhando caixas dentro de um quarto pequeno. Uma hora não dá mais para abrir a porta direito. Uma hora falta luz, falta ventilação, falta calçada, falta vaga, falta memória. E principalmente: falta critério.

O centro de Bom Despacho perdeu muitos de seus casarios antigos. Algumas casas talvez não tivessem valor arquitetônico excepcional, mas tinham valor afetivo, valor urbano, valor de paisagem. Eram parte da identidade da cidade. A gente só percebe isso quando elas somem. Primeiro achamos normal. Depois sentimos falta. Depois vem uma fotografia antiga e alguém comenta: “Nossa, ali era bonito demais!”. Pois é. Era.

Não se trata de transformar a cidade em museu. Ninguém quer uma Bom Despacho congelada no tempo, vivendo de saudade e pintura descascada. Mas também não precisamos aceitar que toda memória urbana vire entulho. Entre conservar tudo e derrubar tudo existe um caminho inteligente. Esse caminho se chama planejamento. Plano diretor, regra clara, estudo de impacto, preservação de fachadas, cuidado com gabarito, trânsito, sombra, ventilação, calçada, drenagem, estacionamento. Parece assunto técnico demais, mas no fim é assunto da vida diária.

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Quem mora em prédio quer conforto. Quem passa na rua quer calçada boa. Quem tem comércio quer cliente chegando. Quem dirige quer estacionar. Quem mora em casa antiga quer sossego. Quem olha a cidade quer beleza. Quem administra precisa equilibrar tudo isso. Não é simples. Nunca foi. Mas é exatamente por não ser simples que precisa ser discutido antes, não depois.

O trânsito no centro mostra isso. Mais prédios significam mais moradores. Mais moradores significam mais carros. Mais carros significam mais disputa por espaço. A rua que antes recebia o movimento de algumas casas agora recebe dezenas de apartamentos. A garagem resolve parte do problema, mas não resolve tudo. Tem visitante, prestador de serviço, entrega, escola, comércio, igreja, banco, consultório. E aí a cidade vai ficando nervosa. Buzina aqui, fila ali, caminhão parado, moto espremida, pedestre se virando como pode. Modernidade, modernidade, modernidade… mas cadê o planejamento?

Análise da linha do horizonte (skyline) feita por mim no ChatGPT

A skyline de Bom Despacho mudou. Antes a palavra nem combinava muito com a cidade. Parecia coisa de cidade grande, de cartão-postal, de filme americano. Agora temos uma linha de prédios que marca o centro. Ela conta uma história de crescimento, investimento e valorização imobiliária. Mas também conta uma história de ausência. Ausência de debate público. Ausência de preservação. Ausência de uma visão mais carinhosa com a cidade que recebemos dos nossos pais e vamos entregar aos nossos filhos.

A arquitetura de uma cidade é como o rosto de uma pessoa. Com o tempo muda, amadurece, ganha marcas. Isso é natural. O que não pode é perder completamente a expressão. Bom Despacho precisa crescer, claro que precisa. Mas precisa crescer sem deixar de se reconhecer no espelho.

Talvez ainda dê tempo de olhar com mais cuidado para o que resta. Talvez ainda dê tempo de discutir altura, densidade, trânsito, memória, arborização e qualidade urbana sem transformar tudo em briga. Talvez ainda dê tempo de entender que desenvolvimento não é apenas construir mais. É construir melhor.

No fim, morar perto da Praça da Matriz continua sendo um desejo bonito. O centro continua tendo alma. Mas alma também precisa de espaço para respirar.

Pense nisso e bons projetos! (iBOM / Ítalo Coutinho, engenheiro e escritor / Foto do alto: Skyline de BD à noite fotografada pelo turismólogo Sérgio Guimarães a partir do bairro São José).

 

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