Mylena decidiu dar um passo à frente
ROBERTA GONTIJO TEIXEIRA – Em março, quando o Editor me sugeriu contar a história de uma mulher em celebração ao 8 de março, eu ainda estava imersa na história da Metástase do Amor e as muitas mulheres que a compõem.
Mas há datas que nos convocam e histórias que insistem em ser contadas.
Foi então que, dias depois, caminhando pelos corredores da APAE, a história me encontrou. E como todos os dias é tempo de celebrar o dia das mulheres – e também o dia das mães -, conta a jornada de luta de Mylena Alves Xavier para, através dela, prestar minha homenagem às mulheres.
Nascida em 17/10/1999, em Dores do Indaiá, Mylena era, como tantas jovens, feita de planos largos: estudar, viajar, crescer, ganhar o mundo. Ao lado de Rafael, seu namorado desde os 15 anos, tinha planos de futuro que pareciam não caber nas mãos. Mas a vida, por vezes, redesenha destinos sem pedir licença.
No dia 07/10/2017, veio a gravidez inesperada e nasceu Nicolly, que mudou completamente o plano de juventude do casal e suas trajetórias.
Ainda no ventre, o diagnóstico: encefalocele occipital. Um nome difícil para uma realidade ainda mais dura. Os médicos não garantiam a sobrevivência durante a gestação, nem após o parto, tampouco depois da cirurgia que precisaria ser feita. Mas o aborto nunca foi cogitado. Mylena escolheu lutar.
Aos 19 anos, trocou as salas de aula, as festas, o trabalho, por corredores de hospitais. Abandonou os próprios planos para sustentar, com coragem, o direito da filha de viver. Apenas três hospitais em todo o estado estavam preparados para o desafio que Nicolly representava. E foi em um deles que, contra estatísticas e incertezas, a menina veio ao mundo e resistiu.
Resistiu ao parto, aos primeiros dias e à delicada cirurgia que durou longas horas e, simbolicamente, aconteceu no mesmo dia do aniversário da mãe Mylena. Como se a vida, em sua estranha poesia, decidisse entrelaçar ainda mais profundamente a história daquelas duas mulheres. E elas venceram. Vinte e dois dias após a cirurgia, estavam juntas e de volta a Bom Despacho.
A vida já não era a mesma. Nunca mais seria.
Nicolly, hoje com 7 anos, cresceu entre limites e descobertas. Ainda hoje, há perguntas sem resposta sobre sua capacidade de visão. Sabe-se que ela escuta com restrições, sente, reage. Depende de cuidados integrais: não anda, se alimenta através de sonda e não consegue falar. Exige presença constante. E foi exatamente isso que Mylena fez, abriu mão da própria vida e ofereceu presença absoluta. Siga @jornaldenegocios no Instagram e veja mais conteúdos.
Os primeiros anos foram de uma dedicação que beirava o esgotamento. 24 horas por dia. Enquanto Rafael, o pai, seguia trabalhando e estudando. O mundo ao redor continuava seu curso natural, mas Mylena vivia uma rotina silenciosa e solitária. Às vezes, faltava tempo até para comer ou tomar banho.
Vieram os especialistas, os protocolos, os tratamentos. E, junto deles, a solidão e a exaustão. Mas também veio a força.
Quando Nicolly completou quatro anos, em meio a rupturas pessoais e recomeços inevitáveis em virtude, inclusive, do término do relacionamento com Rafael, pai da menina, Mylena entendeu que havia perdido a autoestima, os projetos e se distanciado de si mesma. Precisava se reencontrar. E foi nesse momento que a APAE entrou em sua vida. Não apenas como apoio, mas como ponto de virada. Ali, encontrou acolhimento, outras histórias, espelhos e alguém a quem confiar os cuidados da filha, ainda que por um lapso de tempo durante o dia.
Com a filha segura e assistida, pôde voltar a respirar. Trabalhar. Existir para além do cuidado.
Aprendeu muito nessa trajetória, foram muitas escutas, trocas e caminhos trilhados, agora, de novo, com Rafael, pai da menina, com quem reatou o relacionamento e que hoje procura, cada dia mais dividir o peso da mochila com a companheira.
Nesse período de construção aprendeu muito, em reuniões, encontros, conversas de corredor, antessalas de consultórios, espaços de fisioterapias. Conheceu histórias e fez muitas e ricas trocas. Ouvir tornou-se hábito. Escrever, consequência. Criou até uma página para Nicolly (nicollyvitoria2019), um espaço de partilha, memória e resistência. E então veio mais um chamado.
Diante da dificuldade de encontrar quem assumisse a presidência da APAE, uma função exigente, sem remuneração e repleta de responsabilidades, surgiu o risco de fechamento da instituição. Um vazio iminente.
Mylena olhou para trás. Lembrou da própria caminhada. Da solidão que já sentiu, das tantas mães que, como ela, enfrentam batalhas invisíveis todos os dias. Decidiu dar um passo à frente. Contra conselhos, medos e contra a própria insegurança, assumiu a Presidência da APAE em janeiro de 2026. Aos 26 anos, com uma filha de 7, aceitou um desafio gigantesco.
A jovem Presidente quer construir uma nova página na história da instituição e conhece, como poucas, as necessidades das mães, familiares e alunos da escola. Afinal foram anos de escuta, troca e experiências pessoais. Mas ainda é inexperiente em gestão.
De braços dados com Juliana Carla Freitas Carvalho, a nossa querida Ju, profissional da escola há alguns anos e hoje assessora de Mylena, convocaram Guilherme que, reza a história, fez milagres pelo asilo, tirando a instituição do vermelho e colocando-a em um outro patamar. Elas esperam o mesmo e, quem sabe, muito mais para a APAE.
Não é de se estranhar que nossa jovem guerreira venha sofrendo muita resistência. Não é segredo pra ninguém que pra uma mulher, ainda mais jovem, não é fácil se impor a estruturas antigas e novas ordens de funcionamento. Mudar exige coragem e tirar pessoas e coisas da zona de conforto não é tarefa fácil.
Mas ela segue firme, altiva movida por uma fé que mistura destino e escolha. Acredita que tudo o que viveu com a filha a preparou e que esta nova etapa é apenas um novo capítulo de um processo de transformação e superação.
Assim, com esse texto, não saúdo apenas Mylena Alves Xavier, saúdo todas as mulheres que, em silêncio ou em luta aberta, reinventam o mundo todos os dias. Em suas dores e belezas, renúncias e conquistas e em suas infinitas capacidades de recomeçar.
Usando a voz de usuária convido toda a comunidade a abraçar a nova diretoria da APAE, os projetos traçados pela nova gestão e peço um olhar generoso à nossa jovem e promissora presidente, Mylena Alves Xavier, e sua fiel escudeira Juliana. (Portal iBOM / Roberta Gontijo Teixeira é bacharel em Direito e servidora pública federal / Foto: Arquivo Mylena Xavier).

