A mãe das mães

 

ALEXANDRE MAGALHÃES – “Quando, seu moço, nasceu meu rebento / Não era o momento dele rebentar / Já foi nascendo com cara de fome / E eu não tinha nem nome pra lhe dar / Como fui levando, não sei explicar / Fui assim levando e ele a me levar / E na sua meninice ele um dia me disse / Que chegava lá / Olha aí / Olha aí / Olha aí, ai é o meu guri, olha aí / Olha aí, é o meu guri / E ele chega / Chega suado e veloz do batente / E traz sempre um presente pra me encabular / Tanta corrente de ouro, seu moço / Que haja pescoço pra enfiar / Me trouxe uma bolsa já com tudo dentro / Chave, caderneta, terço e patuá / Um lenço e uma penca de documentos / Pra finalmente eu me identificar, olha aí / Olha aí, ai é o meu guri / Olha aí, é o meu guri /E ele chega / Chega no morro com o carregamento / Pulseira, cimento, relógio, pneu, gravador / Rezo pra ele chegar cá no alto / Essa onda de assalto está um horror / Eu consolo ele, ele me consola / Boto ele no colo pra ele me ninar / De repente acordo, olho pro lado / E o danado já foi trabalhar, olha aí / Olha aí, ai é o meu guri, olha aí / Olha aí, é o meu guri / Meu guri / Chega estampado, manchete, retrato / Com venda nos olhos, legenda e as iniciais / Eu não entendo essa gente, seu moço / Fazendo alvoroço demais / O guri no mato, acho que ‘tá rindo / Acho que ‘tá lindo de papo pro ar / Desde o começo, eu não disse, seu moço / Ele disse que chegava lá / Olha aí / olha aí / Olha aí, ai o meu guri, olha aí / Olha aí, é o meu guri / Olha ai / Olha aí, ai o meu guri, olha aí / Olha aí, é o meu guri / Olha aí / Olha aí, ai o meu guri, olha aí / Olha aí, é o meu guri / Olha aí”.

A letra acima é da canção “Meu guri” do grande Chico Buarque de Holanda.

Desde a primeira vez que ouvi esta obra do Chico fiquei pensando nesta mãe, sua aceitação da situação de seu filho, sua ignorância de grande parte da vida dele, sua felicidade com a “fama” de seu filho…

Cada mãe é diferente da outra

Quando vemos uma propaganda que mostra mães, parecem todas iguais: são sorridentes, com todos os dentes na boca, dentes absolutamente brancos, mostram uma felicidade infinita. Todos os filhos são educados, lindos, também sorridentes…

Mas, a vida é muito diferente disso.

Cada mãe carrega uma história diferente. Algumas, planejaram ser mães. Outras, descobriram que estavam grávidas e ficaram felizes com isso. Outras ainda, entraram em pânico e tristeza ao saberem de sua gravidez indesejada. Há também as que foram abusadas por parentes ou desconhecidos e carregaram esses filhos frutos de violência para sempre.

Calcula-se que entre 25% e 30% dos lares brasileiros tenham uma mulher como chefe de família, ou seja, sem a presença do pai ou pais de seus filhos. Este número é maior do que nos Estados Unidos, onde 20% a 23% são mães solteiras, ou no Reino Unido (20%) e menor do que na África Subsaariana (África negra basicamente, ou seja, excluindo-se os países muçulmanos do norte do continente), onde 30% estão nesta situação. Cada vez é mais comum mães de lares com duas mães.

Mães deixam de ser senhorinhas invisíveis

Quando eu era criança, a ideia que tínhamos de uma mãe era de alguém que ficava em casa cuidando dos filhos. Geralmente, muitos filhos, limpava a casa, fazia a comida, cuidava do marido e geralmente não trabalhava fora, tarefa que era quase exclusiva do marido há cinco ou seis décadas atrás.

Essa situação, felizmente, mudou muito. Estimativas recentes indicam que 45% a 55% das mulheres casadas trabalham fora. Aliás, essa maneira de falarmos sobre a mulher que trabalha, já indica que a mulher trabalha dentro e fora de casa, pois continua a exercer as tarefas domésticas, quase sempre sem a ajuda de seus companheiros, maridos e filhos homens.

Além disso, as mulheres passaram a ter vida fora de casa. Atualmente, estima-se que entre 30% e 40% das mulheres fazem alguma atividade física, sendo que ir à academia de ginástica é normal para entre 10% e 20% das mulheres adultas. Muitas delas são mães.

Essa busca pela saúde, condição física e beleza corporal está relacionada ao momento que vivemos, no qual as mulheres ganharam a liberdade de separar-se de seus maridos e companheiros quando o casamento não está mais satisfatório. Para conquistarem novos amores, cuidam-se bem, trabalham a beleza física e mental. Antes, na época de minha avó e mãe, era comum a mulher permanecer casada e morando com o marido, mesmo quando estava muito infeliz. Recordo que minha mãe e avó se recusavam a receber em casa as amigas que se desquitavam (não havia divórcio no Brasil há cinco ou seis décadas atrás). Era considerado um ato horroroso para uma mulher. Ainda bem que isso mudou… Siga @jornaldenegocios no Instagram e veja mais conteúdos.

Mães duras, avós moles

Quando eu era pequeno, minha mãe era dura como uma pedra. A qualquer falha, batia em mim e em meu irmão Eduardo, menos de dois anos mais novo do que eu. Na minha memória, apanhávamos diariamente. Os motivos eram os mais diversos: quebrar um vaso jogando bola no quintal, sujar a sala com restos de pão ou bolacha, brigar com o irmão, se sujar todo brincando na rua, entre outros milhares de motivos. Com minha irmã, dezesseis anos mais nova do eu, já foi uma mãe menos brava. Bater em criança já era feio… quando nasceram meus irmãos gêmeos deficientes, era virou uma mãe muito carinhosa.

Quando nasceram as netas e o neto, era virou uma marionete das crianças. Os netos deitavam e rolavam, faziam muita bagunça, sujeira e todos os desrespeitos possíveis e ela não reclamava nada.

Essa trajetória de minha mãe é muito similar à de quase todas as mães, que passam de duronas com os filhos, a gelatinas com os netos… Muitas dizem que são boazinhas com os netos porque não têm responsabilidades na criação dos netos…

Gaia, Pachamama e outras mães

Para os gregos antigos, Gaia era a deusa mãe de tudo. Gaia é o próprio Planeta Terra, onde tudo nasce, cresce, floresce, enfim, a mãe. Como ainda não descobrimos outros planetas similares ao nosso, Gaia continua sendo a mãe de tudo e todos. Maltratada pelos filhos, Gaia continua resistindo, mas começa a dar sinais de doenças da velhice, como alteração da temperatura corporal, mudanças climáticas ou de humor…

Para nossos vizinhos andinos, aqueles que habitavam os Andes, essa incrível cadeia de montanhas que vai da Argentina e Chile até a Venezuela, a mãe de tudo e de todos chama-se Pachamama e, assim como Gaia, é a deusa do Planeta Terra. Para tudo nascer, nós humanos, os animais, as plantas, os insetos e tudo mais que existe por aqui, depende da boa vontade dessa mãe maravilhosa.

Para mim, que já não tenho minha querida mãe presente, a mãe é a APAE, que cuida, amamenta e acaricia meu irmão Rafael. A APAE é “quem” mantém meu irmão feliz, vivo, cheio de energia. A frase é engraçada, mas a APAE é uma mãe para dezenas de crianças, jovens e idosos com alguma deficiência. Obrigado a cada profissional da APAE. Vocês tornam minha viva muito mais gostosa. Assim como não deixamos nossa mãe passar necessidade, convoco a todos para doarem parte de seus impostos de renda para esta incrível instituição. Fica a dica.

Parabéns às mães

Parabéns a todas as mães. Seja você uma mãe em uma família mais tradicional, seja você uma mãe solo, uma mãe casada com outra mãe, seja você jovem ou mais velha, seja uma mãe durona ou fácil de lidar, seja uma mãe da música do Chico Buarque, seja você uma mãe que sabe tudo dos filhos, parabéns!

Não é fácil ser mãe! Ao contrário, as preocupações com a vida dos filhos cansam, maltratam, tiram o sono. Mas, vocês são únicas e insubstituíveis! Parabéns! (Portal iBOM / Alexandre Sanches Magalhães é empresário, consultor e professor de marketing, mestre e doutor pela USP e apaixonado por BD e SP / Imagem criada com IA).

 

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