Bom Despacho 114 anos: velha, mas nem tanto!

 

VANDER ANDRÉ ARAÚJO – Não sou bom em futurologia, nem sei fazer adivinhações. Sou pisciano e dizem que, por isso, tenho algo de místico. Às vezes, até recorro ao horóscopo, ao tarô e a outras formas mundanas de tentar descobrir, de um jeito fácil, “o que será o amanhã”.
Mas sou mais curioso acerca do que já aconteceu. Procuro compreender as razões dos eventos ocorridos em nossa terra, aprender com os erros do passado e compartilhar isso com os meus leitores.

Vivo o presente como uma dádiva, um agrado de seja lá quem for, seguindo um pouco a lógica do carpe diem, esteja onde estiver. Gosto dos versos de Fernando Pessoa, quando escreveu, categórico: “Sou um evadido. Logo que nasci fecharam-me em mim. Ah, mas eu fugi. Se a gente se cansa do mesmo lugar, do mesmo ser, por que não se cansar?”

Costumo escrever sobre acontecimentos da história de Bom Despacho, sobre pessoas que ali viveram e que, por alguma razão especial, contribuíram para seu desenvolvimento e para a formação do nosso povo, transformando-a no que ela é hoje: uma velha cidade, mas nem tanto, que comemora 114 anos de emancipação política e elevação à categoria de cidade com ares de quem ainda quer crescer e aparecer.

É claro que ainda não consegui escrever sobre todos aqueles e aquelas que conheci, com quem convivi ou sobre os quais tomei conhecimento. São milhares de conterrâneos. Nem sei se algum dia conseguirei revelar, ainda que minimamente, histórias e momentos da vida de tantas pessoas bom-despachenses invisibilizadas, mas igualmente importantes, porque constroem, cada uma a seu modo, o cotidiano da cidade e ocupam seu espaço coletivo no exercício da cidadania.

Hoje deixarei um pouco de lado as pessoas, o que é quase impossível para alguém como eu, que gosta tanto delas. De maneira ufanista, escreverei sobre o lugar onde elas habitam ou habitaram: essa cidade mais que centenária, privilegiada por permanecer viva após mais de um século, despontando como uma menina-moça que, vez ou outra, é chamada de cidade sorriso; que ostenta o título de protegida pela Senhora do Sol e que, talvez por isso, exiba simpatia em seu sorriso juvenil.

E como ela vem crescendo?

Seja por meio da construção civil, que a cada dia ergue mais prédios altos (que um dia chamei, nesta coluna, de arranha-céus e, por isso, fui criticado). Ora bolas: tudo o que arranha meu olhar sobre um horizonte que descortinava minha infância merece esse nome, tenha cinco, dez ou quinze andares. Sou avesso à padronização vernacular. Siga @jornaldenegocios no Instagram e veja mais conteúdos.

Seja por meio das indústrias que vêm e vão, oferecendo oportunidades de trabalho e sustento às famílias, mas também deixando dúvidas quanto à preocupação ambiental e aos princípios da sustentabilidade.

Seja pela inauguração de um Instituto Federal, com o propósito de possibilitar educação pública, gratuita e de qualidade, ampliando as condições de capacitação das pessoas da cidade e da região.

Seja pela fé religiosa tradicional do seu povo, expressa em múltiplas crenças e em eventos reconhecidos nacionalmente, como a Festa do Reinado, a Folia de Reis e os encontros evangélicos. Seja pelo Memorial N. Sra. do Bom Despacho, que revitaliza a área da Cruz do Monte e guarda um acervo sacro de extrema relevância para a cidade que se vangloria com tantos tempos religiosos não somente católicos, uma Igreja Matriz de estilo neogótico, com sua Praça, que é o nosso maior cartão postal!

Seja pelas festas populares: o Carnaval popular e pra pular, a Festa do Polvilho, o Rodeio, a Expobom, a Virada Cultural, a Feira Literária, o Festival Especiarias, as festas juninas nas roças, os encontros de Dia das Mães, dos Namorados, dos Pais, o Natal… tantos momentos bons em que nos reunimos com a família em Bom Despacho, os amigos e os colegas para celebrar a vida que passa por nós em ciclos repetitivos, mas nem por isso monótonos e enchem a cidade de bom-despachenses “ausentes”.

Tenho certeza de que me esqueci de alguns eventos. Mas o objetivo aqui é justamente lembrar a quantidade de acontecimentos que movimentam a cidade ao longo do ano e nos oferecem oportunidades de convivência e diversão, ainda que, para alguns deles, seja preciso gastar um dinheiro que quase sempre já tem destino certo.

Bom Despacho também parece querer crescer culturalmente. A cada dia são novos livros escritos e lançados por bom-despachenses, acadêmicos ou não, inclusive em uma Biblioteca Pública cada vez mais movimentada, em plena Praça da Matriz. São músicos e cantores que se apresentam para um público presente e participativo. É o Coral Voz e Vida que canta e encanta. É a Banda da Polícia Militar que passa, “cantando coisas de amor”. São fotógrafos talentosíssimos, artistas visuais, pintores, palhaça, gente das mais variadas expressões artísticas que movimenta a cena cultural e nos oferece respiro nos dias em que a arte nos salva. Pena que ainda não conseguimos construir a Casa da Cultura, nem mesmo um teatro, ou um cinema. Tomara que logo o Museu da Cidade seja reaberto, para completar o circuito museológico com o Museu do Ferroviário e o Memorial Machado de Prata, do Batalhão.

A cidade cresce também na prestação de serviços, no comércio que ganha fôlego a cada período de pagamento. Claro que ainda falta muita coisa. Mas tenhamos calma: ela nem é tão velha assim.

Faça como eu: prepare seu desejo e aproveite o soprar das velas do dia 1º de junho para expressar suas expectativas para o futuro dessa aniversariante emancipada. Se você deseja mais saúde, educação de qualidade, empregos com jornadas que permitam convivência familiar e social, mais cultura e turismo para todos; se deseja que ela siga um rumo progressista sem perder os ares de cidade do interior, então que possamos lembrar sempre que Bom Despacho é feita de pessoas com histórias que merecem respeito e merecem ser contadas para que tenhamos memória, histórias que se encontram, se complementam e constroem, juntas, a vida desse lugar que chamamos de terra natal. (Portal iBOM / Vander André Araújo é advogado, filósofo, escritor e aposentado / Foto: arquivo).

 

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