Bom Despacho 114 anos: coisas boas & coisas ruins
ALEXANDRE MAGALHÃES – Sempre que o aniversário de Bom Despacho se aproxima, quase que automaticamente começo a comparar a cidade com outras que conheço, especialmente São Paulo, minha cidade de nascimento. E sempre me dou conta da sorte que tive ao conhecê-la. Inicialmente passando alguns dias aqui e vários dias em São Paulo. Depois, já na pandemia, de passar um ano e meio sem sair de Bom Despacho, e, finalmente, morando aqui desde novembro de 2023, após a morte de minha mãe.
Lembro-me que chamou minha atenção, logo que iniciei minhas visitas à cidade, há oito anos e meio, o custo de vida relativamente mais baixo. Em relação a São Paulo, muito mais acessível.
Na época, em São Paulo eu morava em frente a um bar charmoso, em que tive a oportunidade de levar minha namorada bom-despachense para comer uma feijoada e tomar umas caipirinhas e cervejas. Tenho em minha memória a cara de desespero de minha namorada bom-despachense quando viu o preço da feijoada (R$ 90,00 por pessoa) e da cerveja (R$ 30,00 por uma Heineken). Isso há oito anos e meio, sem incluir a inflação deste período. Por isso, sempre achei o preço da bebida muito barato por aqui, especialmente nos bares e restaurantes, já que no supermercado os preços de São Paulo e Bom Despacho são mais parecidos.
Também me lembro de ter ficado chocado, e a palavra é chocado, mesmo, quando descobri que o medicamento que meu pai tomava, que em São Paulo eu pagava R$ 168,00 e que em Bom Despacho custava R$ 6,00. Pedi ao balconista da Drogaria Santa Maria que me mostrasse o remédio (eu havia ouvido ele dizer o preço a um cliente) e era o mesmo produto que meu pai consumia. Contei sobre a diferença dos preços entre as cidades e ele informou que já haviam comentado dessa brutal diferença de valores dos medicamentos entre as cidades. Incrível! Siga @jornaldenegocios no Instagram e veja mais conteúdos sobre Bom Despacho.
Trânsito melhor
Outro ponto de muita diferença entre minhas duas cidades de coração é o trânsito. Eu parei de dirigir meu carro em São Paulo há treze anos. Não aguentava mais gastar horas nos deslocamentos na cidade, ficar estressado diariamente com o tráfego, com o preço dos estacionamentos (na região da Avenida Paulista uma hora em um estacionamento custa entre R$ 25,00 e R$ 40,00. Uma única hora!), possibilidade enorme de ser assaltado, enquanto estamos parados no trânsito, entre outras coisas que me matava. Já em Bom Despacho, tudo anda melhor, com grande respeito de todos ou quase todos nas rotatórias. Um único semáforo na cidade é uma benção… segundo dados da prefeitura de São Paulo, a cidade tem 6.137 semáforos para carros. UFA!
Sensação de segurança
Ontem, 25 de maio, foi aniversário de meu irmão Eduardo, que mora em São Paulo. Liguei para ele no final da tarde. Ele atendeu e rapidamente me disse: “não posso falar agora, pois estou na rua…”. Quando chegou em casa, me ligou e explicou que sempre fica com medo de ser assaltado quando atende ao celular na rua. Que situação!
Em Bom Despacho, nunca tenho sensação de insegurança. Nunca! Ando a pé para todos os lugares, saco dinheiro nos caixas eletrônicos dos bancos, levo dinheiro para a lotérica, enfim, faço tudo que não tenho coragem de fazer em São Paulo. Essa sensação de segurança não tem preço…
Ritmo de vida tranquilo
A vida tem outro ritmo em Bom Despacho. Vejo as pessoas conversando com os amigos e conhecidos, tanto nos bairros, como na região da Praça da Matriz. Quando encontro conhecidos, sempre param alguns minutos para bater um papo. Em São Paulo, não conversamos, não paramos para conversar com ninguém e atravessamos a rua quando vemos alguém que conhecemos. É uma mistura de falta de tempo, com estresse armazenado por horas de trânsito, de deslocamentos entre a casa e o trabalho, do perigo de estar na rua e ser assaltado.
Esse ritmo desacelerado de Bom Despacho não tem preço. Isso é muito fruto das relações sociais mais próximas, da facilidade de conhecer as famílias das outras pessoas, a famosa pergunta que aqui funciona muito bem: “cê é fidiquem?”.
Muita gente em Bom Despacho consegue resolver praticamente tudo em poucos minutos, algo raro em cidades maiores brasileiras.
As festas locais
Duas festas bom-despachenses me deleitam e me emocionam: a Festa do Reinado de Nossa Senhora do Rosário e a Folia de Reis.
Adoro como Bom Despacho se organiza para estas duas festas e como milhares de pessoas mudam suas rotinas para poderem participar destas manifestações religiosas. Apesar deste caráter emocional/religioso, eu que sou zero crente, me emociono demais sempre que assisto aos cortes nas ruas da cidade. A música, a fé, a dedicação das pessoas para que estas tradições não morram, como aconteceu com quase tudo parecido em São Paulo.
Claro, sempre há pontos para melhorias.
Central Park em Bom Despacho
Apesar dos pontos comentados, que fazem de Bom Despacho uma cidade maravilhosa para vivermos, penso que há melhoras possíveis para o município.
A primeira coisa, que sempre repito, que me preocupa é evitar que Bom Despacho vire uma São Paulo, que acabou com sua natureza em geral. Não há mais rios em São Paulo, nem matas, nem animais silvestres. Por isso, recomendo que a cidade eleja várias matas ao redor da cidade e transforme estas áreas em “Central Parks” para o futuro
O Central Park de Nova Iorque foi pensado há quase duzentos anos. Com a rápida urbanização da cidade, Frederick Law Olmsted e Calvert Vaux tiveram a brilhante ideia de manter uma enorme área no centro da cidade verde para sempre. Hoje, é um ponto turístico para gente do mundo todo. Por que não pensar em algo similar em Bom Despacho? Além da Mata do Batalhão, sugiro criar outras dez áreas ao redor da cidade e transformá-las em bastiões de natureza para as futuras gerações.
Lixo na cidade
O Alexandre Coelho, editor do Jornal de Negócios, já está cansado de receber fotos minhas de lixo espalhado pela cidade, especialmente nas estradas de terra. Cuidar do lixo da cidade é uma tarefa crucial para os administradores de Bom Despacho.
Fiscalizar, evitar e multar quem põe fogo no lixo na cidade são tarefas importantes da prefeitura. Especialmente em áreas mais afastadas da Praça da Matriz, o ar se torna irrespirável com tantos focos de fogo. Sei que é um costume local, mas isso é anticivilizado, piora a saúde das pessoas e da natureza.
Passeios em péssimas condições
As calçadas ou passeios da cidade são inexistentes ou malcuidadas. Eu, que tenho de conduzir a cadeira de rodas de meu irmão Rafael, sofro demais por ter de dividir as ruas com carros, motos, ônibus e caminhões. Em São Paulo, a calçada é responsabilidade do morador. Se ele não cuidar, será multado. Não sei como funciona aqui, mas não é possível ter passeios tão deteriorados como aqui em Bom Despacho.
Animais soltos na rua
Os animais em situação de rua, especialmente, gatos e cachorros, causam muito problema para os moradores. São vários animais atropelados diariamente, vários que morrem de fome ou destroem os sacos de lixo na cidade. Vários que atacam os motoqueiros, os que fazem suas corridas ou pedalam pela cidade ou pelas estradas de terra do município. Muitos que morrem de doença do carrapato (erliquiose e babesiose), leishmaniose, cinomose, parvovirose, entre outras. Sei que a Bicho Amigo faz um trabalho nessa área, mas é necessário que a Prefeitura instrua, fiscalize e multe os que soltam animais na cidade.
Outros problemas
Claro, há problemas estruturais na cidade, como menos oportunidades profissionais muito especializadas fora do ramo da agroindústria. Também não há livrarias, cinemas e teatros em Bom Despacho, o que indica menos opções culturais sofisticadas. Por fim, me incomoda demais que muitas lojas usem música sertaneja universitária em alto volume em suas portas. Em algumas, nem consigo dialogar com os vendedores, dado o volume da música que, na minha opinião, é de péssima qualidade. Mas, esse é um assunto para os moradores debaterem…
Parabéns, Bom Despacho!
Parabéns, minha querida cidade por adoção! 114 lindos anos e que sejam sempre preservados sua cultura, seu lindo povo e sua natureza! (Portal iBOM / Alexandre Magalhães / Foto: iBOM).

