O amor nos tempos dos “Negócios do Coração”
VANDER ANDRÉ´ARAÚJO – Era uma vez uma coluna do jornal chamada “Negócios do Coração”. Assim poderia começar a nossa história, como naquele tempo em que eu ouvia essa expressão instigante e já ficava de ouvidos e olhos bem atentos para acompanhar a narrativa mágica e ficcional dos contos de fada, que começaria a partir de então.
Assim também acontecia em Bom Despacho, há mais de 30 anos, quando ainda não existiam Whatsapp, aplicativos de relacionamento, nem Internet! O que causava em nós aquela onda de encantamento eram os recadinhos de amor (ou desentendimentos, ou relações rompidas, ou simples especulações…) que semanalmente vinham impressos no Jornal de Negócios. Às vezes davam match, outras vezes mera confusão ou assunto para vários dias na comunidade.
Entre anúncios de compra e venda, propagandas do comércio local, comunicados e notícias, lá na última página vinham os tão aguardados recadinhos.
Anônimos ou não, assinados por pseudônimos ou identificados por características físicas do(a) destinatário(a), o jornal era o mensageiro daqueles códigos cifrados, daqueles textos românticos que geravam encantamento, revolta, vergonha gratuita ou, como chamamos atualmente, mico.
Na escola, no trabalho, na rua, todo mundo comentava sobre aqueles negócios que apareciam ali de forma tão explícita, sem filtro algum. Era um tal de “corre lá para ler o que saiu com o seu nome no jornal”; “ah, mas essa aí não sou eu”; “imagina se eu vou responder”. E por aí afora. As reações eram as mais diversas possíveis e as brincadeiras, ou as zoeiras como chamamos hoje, também eram impagáveis.
Eu mesmo escrevi vários recadinhos em pedaços de papel e os depositava naquela caixa escondida no Xuá Lanches. Só não vou contar aqui para quem! Depois, ficava esperando o fim de semana, quando o jornal impresso chegava às ruas. Siga @jornaldenegocios no Instagram e veja outros conteúdos.
Anos depois de viver essa experiência tão divertida em Bom Despacho, visitei o Museu dos Corações Partidos (ou dos Relacionamentos Terminados – Museum of Broken Relationships) em Zagreb, capital da Croácia. Ao percorrer suas salas, lembrei-me do nosso jeito mineiro das antigas, um tanto ingênuo, de declarar amor.
A comparação surgiu naturalmente diante daquele instigante acervo, composto por objetos reais doados por pessoas do mundo todo após o fim de seus relacionamentos, cada um acompanhado de uma história anônima. Havia cartas de amor e bilhetes (o que me deu vontade de levar para lá alguns recortes do Jornal de Negócios), fotografias, presentes e tantos outros vestígios de afetos interrompidos. O foco do museu está justamente nas histórias e emoções que esses objetos carregam: algumas divertidas, outras melancólicas, mas, sobretudo, profundamente comoventes.
Mas eis que chega mais um Dia dos Namorados em Bom Despacho, e eu fico daqui do meu canto imaginando como os casais românticos trocam mensagens atualmente. Será que aderem aos vídeos instantâneos de visualização única? Será que gravam áudios que serão transcritos ou ouvidos na velocidade acelerada de 2x para “ganhar tempo”? Mandam figurinhas, memes, fotos, flores, ou simplesmente nada mais?
Tento comparar tudo isso com a magia dos recadinhos daquele tempo, que chegavam de forma surpreendente e tinham o poder de provocar um negócio doido no coração da gente. Causavam um misto de emoções estranhas: medo do ridículo, paixão, curiosidade, fantasia.
E não, não quero mais uma vez cair na nostalgia cansativa de quem repete aquele velho bordão: “ah, mas no meu tempo era melhor”. Trago apenas este registro histórico para lembrar que o jornal, que circula há mais de 37 anos na cidade, também carrega essa memória. Um legado de amor misturado aos negócios, um paradoxo curioso, mas bonito de ver e de comunicar.
É a mesma eterna nostalgia dos telefones fixos, dos orelhões espalhados pelas esquinas e das cartas confiadas ao correio, nossas formas quase artesanais de vencer a distância, quando o amor ainda precisava percorrer caminhos mais longos para encontrar o seu destino e aliviar a saudade de quem ficava à espera.
Hoje está tudo tão instantâneo, tão fácil de comunicar, de demonstrar o interesse ou desinteresse, por outras pessoas. Seja por meio das redes sociais, dos algoritmos espertos ou das mensagens no celular, cifradas e com siglas, próprias de cada comunidade e idade, tudo agora cabe na palma da mão.
Onde ficaram o mistério, a expectativa e a magia, que faziam o coração acelerar, gerando um negócio doido no coração das gentes? Não sei. Como escreveram Lulu Santos, Sérgio Souza e Antônio Cícero, naquela canção boa para essa época, “talvez eu seja o último romântico dos litorais desse Oceano Atlântico…” Ou talvez agora ficaremos apenas com o “era uma vez”. (Portal iBOM / Vander André Araújo / Imagem gerada por IA).

