Alex Moreira Rocha: o homem que tipurava Adélia

 

LÚCIO EMÍLIO JÚNIOR – Conheci poucos homens tão interioranamente literários quanto Alex Moreira Rocha. E digo interioranamente não em sentido provinciano, mas espiritual. Há homens que pertencem às capitais. Outros pertencem às universidades. Alex sempre me pareceu pertencer às tardes. Às tardes mineiras de conversa longa, de café esfriando devagar, de livros acumulados sobre mesas antigas e dessa melancolia silenciosa que algumas cidades carregam sem perceber.

Quando conheci Alex, ele ainda era um jovem de cabelos mais negros do que a asa da graúna. Havia nele alguma coisa de Zé Carioca. Um charme interiorano. Um talento fácil. Uma elegância boêmia que certas cidades pequenas às vezes produzem como quem produz personagens. As moças olhavam. Os livros também.

Depois virou médico. E a vida, como faz com todos nós, foi depositando ferrugens delicadas sobre o corpo, os cabelos, os entusiasmos e as noites. Hoje Alex me lembra um pouco aqueles velhos Opalas sobreviventes do interior mineiro. Já foram belíssimos. Já atravessaram avenidas como promessa de futuro. Já despertaram desejo. Hoje carregam riscos, fumaças leves, pequenas fadigas mecânicas e certa dignidade melancólica das coisas que resistiram ao tempo. Mas ainda possuem motor. Alex também.

[Siga @jornaldenegocios no Instagram e veja muito mais conteúdos].

Agora bebe com moderação, como convém aos homens que aprenderam cedo demais que o excesso costuma cobrar pedágio na alma. Os cabelos ficaram cor de prata. Mas o velho poeta permaneceu.

Foi Alex quem um dia me convidou para a Academia Bom-Despachense de Letras. Jamais esquecerei a delicadeza do gesto.

Também jamais esquecerei a homenagem que fez a meu avô, Mário, naquela obra em azulejos promovida na Câmara Municipal. Havia ali alguma coisa profundamente rara em nosso tempo: gratidão pela memória alheia. Alex sempre pareceu compreender intuitivamente que cidades sobrevivem menos por suas avenidas do que por seus mortos queridos.

Mas nunca consegui entrar na Academia. Não por desprezo. Muito menos por Alex. Talvez por temperamento. Há em mim alguma desconfiança antiga diante dos fardões, das liturgias literárias excessivas e dessa tentativa meio tropical de transformar escritores em nobreza simbólica.

Sempre me lembro daquela anedota sobre um dos imortais da Academia Brasileira de Letras que entrou num táxi vestindo o uniforme solene, bordado de ouro. O motorista olhou pelo retrovisor e perguntou:

— Sois rei?

A pergunta talvez valha mais do que muitos tratados sobre a vida intelectual brasileira. Porque existe sempre um risco de a literatura endurecer em cerimônia. De virar mármore antes do tempo. E lembro então de Vladimir Mayakovsky dizendo que os clássicos eram importantes, “mas que não viessem trazer diante de nós seus traseiros de mármore”.

Alex compreenderia perfeitamente. Porque jamais teve alma de burocrata literário.

Sua passagem pela presidência da Academia Bom-Despachense de Letras talvez diga mais sobre a cidade do que sobre ele próprio. Porque academias interioranas nunca foram apenas instituições literárias. Eram espécies de trincheiras frágeis contra o esquecimento. Pequenos mosteiros civis onde alguns homens ainda acreditavam que palavras podiam salvar alguma coisa da erosão do tempo.

Hoje isso parece antiquado. Talvez seja. Mas também há algo profundamente trágico numa época que desaprendeu a conservar seus velhos poetas.

A velha Tipura nasceu um pouco dessa insistência. E manter revista literária no interior mineiro nunca foi empreendimento comercial. Era quase um ato de teimosia espiritual. Um grupo pequeno de homens tentando impedir que a cidade se transformasse apenas em trânsito, concreto e burocracia.

Alex insistiu. E conseguiu trazer Adélia Prado a Bom Despacho. Isso talvez pareça pequeno para o país das metrópoles. Não é. Porque Adélia pertence justamente àquela Minas invisível onde cozinha, religiosidade, culpa, erotismo e transcendência convivem naturalmente. Quando escreveu: “De vez em quando Deus me tira a poesia. Olho pedra, vejo pedra mesmo.” Talvez tenha revelado o medo secreto de toda literatura verdadeira: o instante em que o mundo perde mistério.

Alex sempre me pareceu lutar contra esse apagamento. Mesmo em seus textos mais simples. Em “Divagações Crônicas”, por exemplo, existe uma atenção profundamente humana aos personagens pequenos das cidades interioranas. Em “O vendedor de pirulitos”, ele escreve: “A simplicidade daquele homem contrastava com a correria das pessoas que passavam sem ao menos notar sua existência.”

Essa frase talvez explique mais sobre Alex do que qualquer currículo acadêmico. Ele pertence à linhagem dos homens que ainda enxergam os invisíveis. Os ambulantes. Os velhos esquecidos. As figuras gastas pelo tempo. Os personagens laterais que sustentam silenciosamente a alma de uma cidade.

Mas há outra coisa nele que talvez explique ainda melhor sua ligação visceral com Bom Despacho: Alex parece enxergar memória onde o restante de nós vê apenas lugar. A Biquinha, por exemplo. Quantos passaram por aquela água vendo somente água?

Alex viu tempo. Viu índios com tacapes. Viu padres. Viu animais. Viu gerações inteiras atravessando o mesmo fio d’água rumo ao oceano que, como escreveu Aguinaldo Olímpio Rocha, “é o céu de todas as águas”.

Seu pai talvez tenha entendido profundamente o que existia naquele poema. Disse que Alex “retrocedeu no tempo para dar visão ao movimento que ali existiu”. E há algo de definitivo nessa frase. Porque talvez seja exatamente isso que certos escritores fazem. Devolvem movimento ao que parecia imóvel. Transformam pedra em duração. Água em memória. Cidade em linguagem.

Aguinaldo ainda chamou aquele poema de “caleidoscópio mágico”. E acho difícil encontrar definição melhor para a literatura de Alex. Seus textos parecem mover imagens antigas dentro de alguma água subterrânea da memória mineira.

Outro comentário dizia que a Biquinha “saciou tantas vidas e outras tantas irá saciar”. Talvez sem perceber, falavam também do próprio Alex. Homens assim saciam discretamente a sede espiritual de uma cidade. E isso também aparece em “Essência”: “Eu sempre quero ser, E quando sou, já não mais quero.”

Há uma tristeza mineira nisso. Não a tristeza teatral dos intelectuais metropolitanos, mas a melancolia baixa dos homens que observam lentamente o tempo corroendo pessoas, ruas e atmosferas humanas.

Mesmo presidindo a Academia, Alex parecia mais interessado na literatura viva do que na reverência empalhada aos mortos ilustres. Gostava da palavra circulando entre pessoas, da conversa, da pequena revista artesanal, da inteligência sobrevivendo em cidades que o Brasil já não olha.

Talvez seja isso que mais me impressione nele.

Enquanto o país produz comentaristas instantâneos e celebridades de algoritmo, homens como Alex continuam pertencendo a uma civilização anterior. Uma civilização de cronistas, poetas municipais, revistas pequenas, encontros literários improvisados e amizades construídas entre livros.

E talvez cidades morram exatamente quando deixam de produzir figuras assim. Morrem primeiro por dentro. Perdem suas conversas. Perdem seus velhos narradores. Perdem seus homens de memória.

Alex Moreira Rocha talvez tenha passado a vida inteira tentando impedir exatamente isso em Bom Despacho.

E talvez alguns homens venham ao mundo apenas para proteger, discretamente, a alma de uma cidade. (Portal iBOM / Lúcio Emílio Júnior é filósofo, professor e escritor / Foto: arquivo pessoal Alex Moreira Rocha).

 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *