Daiane e Tatiana: duas faces das nossas heroínas

 

Heroínas estão por aí. Mulheres de verdade, com coragem, competência, dedicação. Mulheres de pulso e de ação. Se sabemos menos delas, não é por falta de atributos, mas porque o mundo ainda é por demais machista para lhes dar todo o reconhecimento que merecem. Quando se destacam, é porque fizeram dez vezes mais do que um homem de talento semelhante. Neste mês dedicado à mulher, celebro duas mulheres cujas ações são relevantes para a humanidade: Tatiana e Daiane.

Tatiana

Tatiana inventou a polilaminina, uma proteína sintética que oferece esperança às vítimas de traumatismo com rompimento da medula espinhal. É fruto de um trabalho longo, sistemático e minucioso que consumiu quase trinta anos. Uma persistência incrível, que só espíritos fortes e determinados conseguem manter.

A esperança contida na descoberta de Tatiana tirou-a do cenário quase monástico de um laboratório universitário e a lançou sob os holofotes da TV dos microfones das rádios e da visibilidade das redes sociais. Sua descoberta científica colocou-a até mesmo no meio de disputas políticas que nada têm a ver com ciências. Todos a querem como troféu.

Mas, Tatiana — forjada no ambiente de pesquisa científica a que dedicou sua vida profissional — não parece se deixar distrair por picuinhas. Cautelosa, avisa que não há milagres. A esperança é grande, os resultados são alvissareiros, mas ainda há caminho a percorrer, antes de a polilaminina se tornar o que todos querem que se torne: uma cura para as paralisias provocadas pelo rompimento da medula espinhal.

Pesquisa básica

Pesquisar no Brasil não é tarefa fácil. Especialmente, quando se trata de pesquisa básica. Ou pré-clínica, no caso de medicamentos. Nossos governos nunca foram pródigos em investimentos na área. Mas, de tempos em tempos, piora. Em momentos cruciais do seu trabalho, Tatiana viu os recursos minguarem, como aconteceu alguns anos atrás. Mas, ela não desistiu. Seguiu trabalhando, a despeito das limitações, dificuldades e carências.

Nos últimos dois ou três anos, o dinheiro voltou, ainda que de forma muito limitada e incerta.

No lado positivo, Tatiana sempre teve apoio de equipes e colaboradores de outras universidades públicas. Estas são instituições que contam com talentos, laboratórios e ambiente propício à inovação. São pessoas que querem ver o Brasil na liderança.

Mas, com talento, persistência e coragem, Tatiana venceu as dificuldades e terminou com sucesso a primeira fase da pesquisa, que lhe consumiu um quarto de século. A síntese da polilaminina e os resultados promissores dos testes iniciais, finalmente fizeram justiça ao seu esforço. Agora, entra a segunda fase: a confirmação de que a proteína sintetizada pode tratar pessoas.

Pesquisa clínica

A repentina publicidade dada à polilaminina colocou Tatiana numa situação complicada. Muita gente espera que ela saia por aí aplicando uma injeção nas costas das pessoas que sofrem traumatismo na coluna. No entanto, ela não pode fazer isto. A droga não tem aprovação para ser aplicada em humanos. Isto não acontece por uma falha do sistema, ou por um cuidado exagerado. Pelo contrário: é a forma certa de fazer. A droga passou apenas pela fase conhecida como pré-clínica.

A liberação de qualquer produto como medicamento exige muitas comprovações. Após o potencial do medicamento ser demonstrado na fase pré-clínica, ele precisa passar à próxima fase, chamada clínica. Em testes sucessivos, precisa mostrar que é seguro e eficaz, qual sua dosagem ideal, e como se comporta após seu uso ser liberado.

A fase de segurança, recentemente autorizada pela ANVISA, permitirá que a polilaminina seja testada em cinco pacientes, sob condições hospitalares controladas.

Se aprovada, o teste seguinte, evolvendo um grupo bem maior (idealmente, centenas de pessoas), avaliará se o produto é realmente eficaz. Ou seja, se realmente cura as paralisias decorrentes do traumatismo da medula. De forma mais ou menos simultânea, se define a dosagem ideal, ou seja, que quantidade tomar, quantas vezes, como aplicar. Só quando aprovada nesta última etapa é que a polilaminina pode ser considerada um medicamento e ter seu uso autorizado.

É curioso que, após vinte e cinco anos de trabalho para desenvolver a droga e mostrar que pode ser útil, Tatiana tenha agora que resistir à pressão daqueles que acreditam que ela poderia fazer milagres e sair por aí, curando os tetraplégicos.

Talvez possa. Há esperança de que possa. Todos desejam que possa. Tatiana trabalhou 25 anos para que isto seja possível. Mas, com a mesma paciência que teve para desenvolver e fazer os testes pré-clínicos da droga, ela terá agora que seguir as próximas fases, antes de explodirmos todos de alegria.

Mas, aconteça o que acontecer, leve o tempo que levar, Tatiana representa o espírito da mulher indômita, incansável, dedicada, corajosa, que não se detém diante de dificuldades. Por isto, ela simboliza o nosso reconhecimento às lutas e ao sucesso de todas as mulheres.

Daiane

Daiane é ex-servidora municipal em Bom Despacho. Recentemente, ela contou em vídeo como foi assediada por um colega de trabalho. As palavras dela são fortes, e a mensagem é cristalina. Não preciso reforçá-las. Elas falam por si mesmas:]

O silêncio protege o agressor, não as vítimas.

Oi, meu nome é Daiane. Hoje eu vim compartilhar com vocês uma situação que aconteceu comigo e que infelizmente acontece com milhares de mulheres todos os dias. Eu trabalhei numa prefeitura e lá eu fui vítima de assédio verbal de um colega de trabalho. Falas de cunho sexual.

Eu denunciei e solicitei que fosse aberto um processo administrativo para que investigasse a conduta do mesmo. O processo foi concluído. Na conclusão, a própria comissão reconheceu que as falas foram ofensivas e aplicou uma ação disciplinar ao mesmo. E mesmo assim, essa pessoa continua no serviço público e continua importunando outras mulheres.

Recentemente, uma dessas mulheres fez o que eu deveria ter feito na época: procurou a delegacia da mulher, denunciou, fez um boletim de ocorrência.

Quando eu fiquei sabendo, eu me prontifiquei na hora pra ajudar tanto essa mulher quanto as autoridades. Enquanto mulheres precisam lidar com o medo, com a exposição e com o desgaste emocional, ele continua trabalhando e levando a vida normalmente, como se nada tivesse acontecido.

Até quando as instituições públicas vão tolerar esse tipo de conduta? Ele trabalha com atendimento direto ao público, por isso a responsabilidade da instituição é ainda maior.

Assédio não é brincadeira. Se você for vítima de assédio, denuncie, procure a Delegacia da Mulher. Não se cale.

Para ouvir a mensagem de Daiane em sua própria voz, clique AQUI. Quero apenas registrar que, a despeito destes crimes terem acontecido na prefeitura de Bom Despacho, o único vereador que se pronunciou a respeito foi João Eduardo (Veja AQUI). Os demais estão em silêncio. Talvez não tenham filhas, irmãs? Talvez não tenham mãe?

Parabéns às mulheres

A disposição de Daiane em mostrar seu rosto e transmitir uma mensagem forte em defesa das mulheres, é prova de coragem que merece ser enaltecida.

O talento e a persistência de Tatiana mostra que a mulher pode. O que ela quiser, ela pode.

Com estes dois exemplos, reverencio e presto minhas homenagens a todas as mulheres de Bom Despacho neste mês dedicado a elas. (iBOM / Fernando Cabral / Imagens do alto: arquivo pessoal).

 

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