Clodomiro Anaya Rojas: a obra da vida
Faleceu dia 18/8, em Belo Horizonte, o médico Segundo Clodomiro Anaya Rojas. Nascido no Peru, ele era casado com a bom-despachense Ângela Maria Cançado Anaya. Formou-se em Medicina na UFMG e trabalhou como pediatra em Bom Despacho, onde era muito querido. Recebeu inclusive o título de Cidadão Honorário da cidade. Simpático e atencioso, Clodomiro foi sempre uma pessoa progressista. O casal teve cinco filhos: Rodrigo, Tânia, Rogério, Cláudia e Felisa.
O corpo de Clodomiro foi velado e cremado no cemitério Parque da Colina, em Belo Horizonte, dia 19 de agosto.
Na fotografia acima, Clodomiro está com um copo na mão. Não parece exatamente um homem prestes a morrer. Parece um homem prestes a conversar. Talvez sobre Cuba, sobre o Peru, sobre política, sobre música latino-americana, sobre alguma questão da geopolítica mundial que, para ele, certamente deveria ser discutida enquanto se tomava alguma coisa. Ou simplesmente sobre a vida, essa coisa complicada que ele levou tão a sério e, ao mesmo tempo, soube viver com extraordinário bom humor.
No cartaz da despedida, ao lado da fotografia, uma frase em espanhol: “Cuando se cumplió bien la obra de la vida nunca se muere.” E, abaixo, as datas: 09/07/1933 – 18/08/2026.
Noventa e três anos. Uma vida inteira. E, como escreveu Rodrigo, seu filho, quando Clodomiro já se esvaía no hospital: “Uma vida muito rica. Inenarrável em um espaço limitado.”
Talvez seja mesmo impossível narrar uma vida assim. Pode-se, no máximo, recolher alguns fragmentos, como quem junta fotografias antigas sobre uma mesa. O médico peruano que chegou ao Brasil, o homem de esquerda, o admirador da Revolução Cubana, o leitor de literatura latino-americana, o interessado em geopolítica, o sujeito que gostava de música, que dançava cumbias e que tinha uma risada inimitável. E também o homem que, em algum momento, passou pelo Lions e pela Maçonaria sem que isso o impedisse de continuar sendo, até o fim, um homem de esquerda.
Clodomiro era dessas pessoas que não cabem inteiramente numa classificação. Médico, peruano, brasileiro por adoção, latino-americano por convicção. A sua pátria parecia ser maior que qualquer fronteira. Talvez por isso a ideia de América Latina lhe fosse tão natural. Ele não apenas veio de outro país: trouxe outro continente consigo.
Eu já havia escrito sobre Clodomiro. Naquela ocasião, a história era a de sua vida: o menino peruano, o médico, Bom Despacho, a família, a música, a América Latina. Era uma crônica sobre um homem ainda presente. Agora, depois de sua morte, aquela história ganhou outra camada. A morte tem essa mania de alterar o sentido das coisas.
Uma biografia pode registrar datas, profissões, lugares, nomes. Mas não consegue registrar uma gargalhada. Não consegue explicar a graça de uma história contada pela terceira vez. Não consegue medir o entusiasmo de alguém diante de uma discussão política, nem a alegria de uma cumbia, nem aquele jeito particular de olhar para o mundo como se ainda houvesse alguma coisa a descobrir.

É aí que entram os depoimentos dos filhos. Rodrigo, diante do pai que piorava, tentou fazer aquilo que talvez seja uma das tarefas mais difíceis diante da morte: resumir uma existência que não cabe em resumo. Falou do homem que nunca perdeu a alegria, o otimismo e a autoestima. Mesmo vivendo, nos últimos tempos, “em um mundo paralelo”, como escreveu, Clodomiro continuava de alguma maneira sendo Clodomiro.
Felisa escreveu depois da morte. E talvez tenha encontrado uma definição ainda mais precisa: “A vida da gente é feita de bons encontros. Meu pai foi um dos meus melhores encontros na vida.” É difícil melhorar isso. Porque um pai pode ser muitas coisas: autoridade, memória, origem, conflito, presença, ausência. Mas ser um dos melhores encontros da vida talvez seja uma das maiores homenagens que alguém possa receber.
Felisa conta que o pai os contaminou com a curiosidade de conhecer e acolher o outro. Trouxe para a família o orgulho de ser latino-americano. Ensinou o gosto pela leitura, pela dança, pela música e pela vontade de mudar o mundo. Mesmo quando o mundo estivesse contra eles.
Essa talvez seja a verdadeira herança de Clodomiro. Não uma propriedade, não uma conta bancária, não um cargo. Uma curiosidade. A curiosidade de atravessar fronteiras. De saber de onde vem o outro. De ler uma literatura que não é a nossa. De ouvir uma música que vem de longe. De discutir política até o último minuto. De acreditar, apesar de tudo, que a transformação do mundo ainda pudesse vir da esquerda.
E há alguma coisa de profundamente latino-americana na maneira como Felisa descreve o pai: suas histórias pareciam saídas do realismo fantástico. Um mundo de Macondo.
É compreensível. A vida de um peruano que atravessa a América, vem estudar medicina no Brasil, constitui família, mergulha na cultura latino-americana, acompanha a política mundial, discute Cuba, dança cumbia e acaba se tornando uma figura tão profundamente incorporada à vida de uma cidade mineira chamada Bom Despacho, já parece, por si só, um capítulo perdido de García Márquez.
Mas então vem Denise, sua nora, para contar o último capítulo. E o último capítulo não é triste. Ou melhor: é triste, evidentemente. Há a morte, a saudade, a ausência. Mas o velório não foi exatamente um velório no sentido convencional da palavra. Foi uma despedida conforme o personagem. Os filhos fizeram de tudo para respeitar o desejo de que fosse uma celebração da vida. Havia música. Havia bebidas. Cuba Libre, pisco, Amarula. Havia histórias. Havia saudade. E havia, sobretudo, a tentativa de fazer aquilo que Clodomiro provavelmente teria feito: continuar vivendo. No final, Rodrigo falou algumas palavras sobre o pai. E depois os filhos cantaram juntos “Cariñito”. Essa imagem talvez seja a melhor conclusão possível para a história.
Na fotografia da despedida, Clodomiro segura um copo. No velório, seus filhos colocam sobre a mesa as bebidas que ele gostava. Na fotografia, há o homem. No velório, estão suas lembranças. E, no meio de tudo, toca a música. Cariñito. A música que antes aparecia apenas como uma das preferidas de Clodomiro agora se transforma em uma espécie de senha para atravessar a morte. Depois eles aplaudiram. E Clodomiro saiu para ser cremado. É difícil imaginar uma despedida mais coerente.
A morte, afinal, não conseguiu transformar Clodomiro em um homem solene. Talvez porque ele nunca tenha sido solene. Era afirmativo em suas convicções, mas engraçado. Tinha posições políticas arraigadas, mas sabia rir de chorar. Tinha uma visão de mundo, mas também tinha cumbias. Gostava de Cuba, do Peru, da América Latina, da literatura e da geopolítica, mas gostava também de beber e conversar.
Era um homem de ideias e de prazeres. Um homem que parece ter compreendido uma coisa que a nossa civilização costuma esquecer: a vida não é apenas aquilo que fazemos com o mundo, mas também aquilo que conseguimos desfrutar enquanto tentamos transformá-lo.
No cartaz, a frase continua: “Cuando se cumplió bien la obra de la vida nunca se muere.” Talvez seja isso. A obra da vida de Clodomiro não terminou no dia 18 de agosto de 2026. Ela continua e Rodrigo, em Felisa, nos outros filhos, nos netos, na família, nos amigos, nas histórias contadas, nas músicas ouvidas, nas discussões políticas, nas cumbias dançadas, nos livros lidos e nessa curiosidade pelo outro que ele ensinou sem precisar dar aula.
E continua também naquela fotografia. Um velho peruano de camisa branca, segurando seu copo, olhando para a câmera com a tranquilidade de quem ainda tem alguma coisa para dizer. A fotografia não diz o que ele está pensando. Mas talvez nem seja necessário. Ele já disse muita coisa durante noventa e três anos. Agora cabe aos outros continuar contando. E, de preferência, contando entre uma música e outra. Porque algumas pessoas morrem. Outras deixam uma festa. (iBOM / Lúcio Emílio Jùnior é filósofo, professor e escritor / Fotos: arquivo da família).

