O Reino de Águas Claras da Vila Militar

 

VANDER ANDRÉ ARAÚJO – Quando se fala em batalhão de polícia em Minas Gerais, muita gente logo se lembra do marrom do uniforme bem passado, marcado pelos vincos impecáveis, contrastando com o amarelo-ocre daquele prédio de arquitetura moderna.

Eu, porém, guardo um olhar e uma memória um pouco diferentes, peculiares e infantis sobre ele. O que me vem à lembrança é o azul-turquesa daquela piscina enorme que, enfim, eu poderia frequentar nas comemorações que nossa escola primária promovia no Dia das Crianças, na Vila Militar.

Talvez porque, nos anos 1980, – quando havia piscina em apenas uma ou duas casas no Arraial dos Lobos, ainda não se falava em Ipê Campestre Clube e possuir cota na Praça de Esportes era privilégio de poucos e “bons” -, o grande presente para um estudante da escola pública de Bom Despacho era dar um tibum e levar alguns caldinhos dos colegas mais velhos naquela piscina imensa do Batalhão.

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Piscina que até hoje continua ali, exuberante e muito bem cuidada, como poucas da cidade que, à época, ainda ensaiava seus primeiros sorrisos.

A aventura vinha como um presente dos militares para as crianças naquela tarde quente de 12 de outubro, quando os fogos homenageavam Nossa Senhora Aparecida e nossas professoras, antes requerentes da visita programada, agora eram só sorrisos, agradecidas aos moços que, vigilantes à distância, zelavam por nossa segurança e salvavam nossas vidas…

E a cor da piscina, – justamente a minha favorita, o verde-água, embora ela não existisse na minha caixinha de doze lápis de cor da Faber-Castell -, era, e continua sendo, vibrante. Tratada com cloro especial e revestida de azulejos azuis, refletia intensamente a luz do sol que, com seus raios “ultra-violentos” castigava sem dó nem piedade os meninos que chegavam desprotegidos, sem passar um Sundown nas costas, até porque nem fazíamos ideia do que aquilo significava.

Sombra havia de sobra ali ao lado, na Mata do Batalhão. Mas, naquele dia, queríamos era ficar longe do mato e nos esbaldar naquelas águas límpidas, como as do riacho do livro O Barquinho Amarelo, que líamos na sala de aula e que faziam chuá chuá, de forma tão poética e ritmada.

No dia da aguardada visita, nossa turma entrava afoita pela guarita, admirando o portal que anunciava a Vila Militar. Era como se estivéssemos diante do Arco do Triunfo parisiense: uma cancela que finalmente se abria para nós.

Estávamos acostumados a correr soltos pelas ruas Capivari e Cruz do Monte, ou pelo campinho do Martinho Fidélis. Ali, porém, depois do psiu repressor da professora, era hora de mostrar nosso lado disciplinado: a ordem na fila, a obediência aos sinais sonoros, aos deveres de casa, o medo da bomba e do castigo, e o silêncio respeitoso diante das autoridades que ali se concentravam para garantir nossa sensação de segurança.

Vivíamos numa cidade ainda pequena, com pouco mais de 30 mil habitantes, segundo o IBGE. Crimes hediondos eram raridade por aquelas bandas. O que escutávamos, escondidos das conversas dos adultos, eram cochichos sobre brigas de boteco, cachaça, disputas por mulheres, dívidas não pagas e, olhe lá, esses já pareciam os motivos mais vis.

Sabíamos que sempre poderíamos contar com os homens do batalhão (ainda não havia mulheres servindo na unidade de Bom Despacho, embora a PMMG já tivesse aberto seus quadros femininos em 1981) para apartar as brigas e levar os desordeiros para ver o sol nascer quadrado. Logo chegava a rapa, barulhenta, riscando a rua com seu uónnuónuón, acompanhado pela luz estroboscópica.

Poucos minutos depois, a paz social estava restabelecida. “Graças a Deus”, diziam muitos, sem perceber que também havia ali o resultado da ação humana, firme e coercitiva, daqueles policiais.

Ultrapassado o portal, passeávamos em fila, triunfantes, apreciando o Colégio Tiradentes por detrás do muro. Na sequência, avistávamos o Rancho, onde, pouco tempo antes, eu estivera no casamento de uma tia com um militar. Depois da cerimônia na Santa Casa, a festa aconteceu ali. Na Capela, os militares, de fardamento branco, cruzavam espadas para o desfile nupcial e eu ficava admirado com tanta ordem! Eu contava aos colegas todos os detalhes daquela cerimônia e também sobre a festa: os pratinhos de salgados, o churrasco no espeto, o guaraná Brahma.

Tudo parecia delicioso e inesquecível naquele dia no Rancho, mas hoje teríamos, como lanche, apenas o pão molhado com massa de tomate e carne moída, já sabíamos.

Logo surgia o prédio do Batalhão, imponente, cercado por policiais em ronda, fardados, cumprindo sua jornada em dia santo. Ao fundo, o coreto, o chafariz e a sequência de casas em estilo inglês. Parávamos em frente à casa do Comandante, e eu ficava observando os detalhes da grade, do jardim e do acesso à Mata. Mais ao fundo, a Igreja de Santa Efigênia convidava os fiéis para a missa do fim da tarde.

Mas, naquele dia, nosso olhar estava voltado para a piscina, para suas águas refrescantes, para as brincadeiras que viveríamos ali, para a alegria simples de ser criança realizando o sonho de nadar em águas claras, como as do reino mágico e encantado de Monteiro Lobato, em Reinações de Narizinho.

Naquele espaço, toda criança, com seu narizinho em pé, se sentia um pouco como o Príncipe Escamado. Com a pele calejada, coberta de macucos e ainda mal lavada pelos banhos apressados do dia a dia, mergulhava feliz sob o olhar atento do Major Agarra-e-Não-Larga-Mais, o oficial do Reino das Águas Claras. Para nós, ele parecia representar a força, a disciplina e a organização da Vila Militar e do seu Batalhão, que permanecem, ainda hoje, ao completar 95 anos, motivo de orgulho para todos os bom-despachenses. (Portal iBOM / Vander André Araújo é advogado, filósofo e escritor).

 

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