Vida (triste) de cachorro

 

De um carrão com vidros escuros, abrindo a porta um criminoso (maltratar os animais é crime) jogou certa criaturinha na calçada, e arrancou cantando pneus…

DILERMANDO CARDOSO – A cada dia, eles são mais numerosos pelas ruas e praças de Bom Despacho. Falo dos cachorros abandonados! Mas nem sempre deve ter sido assim. É possível que, no passado, foram adotados com festa no jardim. Ganharam nomes de pessoas ou apelidos engraçados. Tiveram um lar. Receberam alimento e proteção. Penso até que eram bem tratados: com banho, tosa, ida ao veterinário…

Também não me é difícil imaginar que, por algum tempo, chegaram a ser considerados — “alguém da família”.

Toda atenção recebida, como é da sua natureza, eles retribuíram com amizade e amor incondicionais. Fizeram a alegria da casa. Serviram de babás para as crianças.

Cuidaram para que nenhum desconhecido, sem ser convidado, entrasse porta adentro da sua morada. Os adultos divertiram-se com as brincadeiras e travessuras aprontadas por eles: escondendo chinelos no quintal; roendo os pés das mesas e sofás…

Porém, um dia, nada tendo feito para merecer, tornam-se “descartáveis”. Sem a menor consideração por seus sentimentos, sim, eles são amigáveis, fiéis, afetuosos… E, reconheçamos: mais verdadeiros e gratos do que nós, os chamados seres humanos.

Não lhes sendo dito qualquer coisa, nem coisa alguma perguntada, descobrem que já não são mais úteis. É chegado o trágico dia em que os sonhos viram pesadelos.

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Ingênuos, ainda fazendo festa, sem resistência os cães entram no carro, não desconfiando que seja o último passeio. Como “coisas” acabam por ser abandonados numa praça, ou numa rua, do outro lado da cidade, para que assim não consigam voltar para a antiga moradia. A maldade é maior do que se possa imaginar!

Aqui, uma perguntinha para estes cidadãos perversos — mais de bens, do que de bem —: os senhores fariam a mesma barbaridade com um filho ou uma filha? Saibam, cachorros são inocentes como crianças. A diferença é que têm quatro patas!

Então, eles que tinham a segurança de um lar, a companhia dos familiares, de uma hora para outra, vêm-se jogados neste mundo injusto e insano. Chega-se à parte mais dolorosa do seu calvário: famintos, sedentos, doentes, perambulam pela cidade…

Ainda ontem, fui testemunha de uma cena revoltante, destas somente protagonizadas por alguém infeliz consigo mesmo; que nunca soube coisa alguma sobre amizade; que esqueceu o que sejam boas ações; que não encontra mais sentido na palavra amor!

De um carrão com vidros escuros — dos que só os ricos podem comprar —, abrindo a porta um criminoso (maltratar os animais é crime) jogou certa criaturinha na calçada, e arrancou cantando pneus… Foi tão rápido, que não consegui anotar a placa. Tentei me aproximar: era um cachorrinho! Porém, assustado, ele fugiu ganindo. Decerto, por se recordar dos muitos gritos e xingos ouvidos; dos tantos pontapés recebidos, até que chegasse o dia da sentença definitiva: o abandono!

Frágil, dificilmente ele vai escapar das maldades do mundo. E da maneira mais cruel, em breve, aquele serzinho inofensivo e indefeso descobrirá que viver é muito perigoso! (Portal iBOM / Dilermando Cardoso é bancário aposentado e escritor / Imagem ilustrativa criada com IA).

 

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