O melhor da festa é antes dela chegar
LÚCIO EMÍLIO JÚNIOR – Quando o editor me pediu um texto sobre a exposição agropecuária de Bom Despacho, achei que seria simples: bois, leilões, ferrugem bonita de trator, essas coisas todas que a gente reconhece de longe. Mas a memória não se organiza por categorias. Ela tem outro tipo de física. Ela mede radiação.
Eu tenho certeza de ter visto a banda Hanoi Hanoi numa exposição em Bom Despacho. Isso não é vacilo. Não é hipótese, não é invenção tardia, não é colagem de lembranças. Eu vi. Mas o que importa não é só o que vi. É o que aquilo emitia — e o que aquele dia já emitia antes mesmo do show começar.
[Siga @jornaldenegocios no Instagram e veja outros conteúdos].
Durante o a dia, fui com a família chupar jabuticaba numa fazenda na Garça, ao lado de um açude. Havia outros adolescentes ali, tão ávidos pela fruta quanto pela noite que viria. E isso é o ponto: nada começava à noite. Tudo já começava antes. A tarde era uma forma de espera que ainda não sabia o próprio nome.
Cada jabuticaba tinha um peso próprio, quase cósmico. Redonda, escura, intensa, ela parecia conter mais mundo do que tamanho. Não era só fruta: era um pequeno núcleo de gravidade doce.
Um sol negro da alegria.
Não no sentido da perda, mas da concentração máxima do tempo. Um ponto onde tudo ainda está por acontecer e, por isso, brilha mais.
Hoje percebo que talvez essa tenha sido a verdadeira experiência daquele dia: não o show, mas o estado em que o futuro já estava presente.
Algo como um coração Geiger da adolescência — um corpo sensível demais ao que ainda não chegou, vibrando antes da causa.
A música não era só música. A cidade não era só cidade. A espera já era o acontecimento.
Murilo Mendes via o comum como excesso: o tomate virava quase Marte, quase planeta, quase desvio do próprio nome. Mas a mesma lente que amplia também desfaz, até que o objeto começa a se dissolver no próprio ato de ser visto.
Esse poema de Murilo Mendes eu li na capa do disco Tomate, do Kid Abelha — como se o pop, por um instante, abrisse uma fresta para outra escala do real.
E há ainda outra forma de expansão, mais sonora e noturna, nas canções cósmicas de Zé Ramalho — como Avohai — e na lembrança de que ele também passou por aqui, em Bom Despacho, nos anos 90, como se o sertão e o cosmos compartilhassem o mesmo palco. O Kid Abelha também teria vindo, por essa mesma época, como um rumor de rádio atravessando a exposição, embora hoje já não se saiba mais se foi show, presença ou continuidade da mesma noite.
Mas há outro movimento, mais recente, que atravessa a memória como sombra.
Como se todos os caminhos conduzissem, inevitavelmente, a esse lugar chamado melancolia — não como privilégio de quem chega lá, mas como destino partilhado. O que se pensa e o que se sente vai se desfazendo aos poucos, como linguagem que perde sustentação, como palavras que já não conseguem segurar o mundo, como um disco arranhado que insiste em repetir o mesmo desgaste até perder o sentido do que dizia.
Entre a expansão e a dissolução, a memória oscila.
E é nesse intervalo que ela insiste em permanecer.
E então reaparece o episódio da Paula Toller — não como fato, mas como rumor que nunca se estabilizou. Diziam que naquela mesma exposição o show teria sido interrompido antes da hora. Objetos teriam sido lançados ao palco. Nada nunca ficou claro. Mas naquela época o claro não era necessário: o rumor tinha a mesma densidade do acontecimento.
Naquele ano, a banda Hanoi Hanoi subia ao palco com o que então era apenas mais um disco — mas que hoje sabemos ter sido o último: Coração Geiger. Nós não sabíamos disso. Não havia fim inscrito em nada. Havia apenas continuidade, a sensação de que tudo ainda seguia aberto, em curso, em expansão.
Só depois se entende que aquilo já era encerramento.
Naquele momento, porém, era apenas som.
E talvez seja isso o mais definitivo.
Com o tempo, não lembramos do evento em si. Lembramos do tipo de mundo que ele permitia.
Hoje, ao tentar organizar isso, percebo que há dois modos de lembrar. Um em que tudo cresce até virar Marte. Outro em que tudo já começa a se apagar antes de chegar ao nome.
Entre esses dois modos, resta algo mais instável: uma vibração persistente, como se o passado ainda emitisse sinais que atravessam o presente sem se completar.
E então entendo o que ficou.
O mundo não cabe na experiência porque ele ora transborda, ora se apaga.
E a memória vive exatamente nessa oscilação.
Por isso, tantos anos depois: tatibitate. O melhor da festa não é ela. É o antes dela chegar. (Portal iBOM / Lúcio Emílio Júnior é filósofo, professor e escritor).

