Paulininho decidiu inventar a felicidade dentro do possível
ROBERTA GONTIJO TEIXEIRA – Quando se vive numa cidade do interior, como Bom Despacho, os vínculos humanos adquirem uma textura muito própria. Há neles uma beleza rara: a sensação de pertencimento, de família ampliada, de gente que conhece o nome, a história e até os silêncios uns dos outros.
Mas existe também o outro lado, o da vigilância, dos julgamentos rápidos, das opiniões que atravessam a vida alheia como se fossem assunto coletivo. Nessas glebas, ninguém passa despercebido. As figuras públicas então, nem se fala! Vivem sob a delicada condição de serem admiradas, observadas e comentadas ao mesmo tempo.
E nesse vai e vem, algumas pessoas acabam se tornando patrimônio de uma cidade inteira.
Paulininho Queiroz era uma dessas pessoas.
[ASSISTA AQUI AO VÍDEO DE ROBERTA GONTIJO TEIXEIRA]
Um personagem luminoso, desses que parece ter nascido para ocupar o centro da cena sem jamais precisar pedir. Até sua despedida foi carregada de uma marca pessoal: escolheu partir justamente no dia do aniversário, transformando o adeus num gesto simbólico.
Era vaidoso, no melhor sentido da palavra. Gostava do belo, do refinado, da elegância, das boas festas, dos encontros memoráveis. E sabia viver tudo isso com autenticidade. Tinha gosto pela sofisticação, mas, sobretudo, pelo prazer de compartilhar. Era anfitrião nato. Daqueles que faziam da celebração uma arte.
Estava sempre atento aos detalhes e às memórias afetivas de seu interlocutor. Procurava, via de regra, uma abordagem pessoal, uma singularidade no trato com cada um que cruzava seu caminho: “e o seu pai, continua escrevendo? O Léo tem ido a Caratinga?” Procurava lembrar nomes, dar importância a histórias. Conversava de forma entusiasmada e gentil como quem passa pela vida colecionando pessoas e não apenas contatos.
Lembro-me dele nos tempos do Fórum, do baile de debutantes, quando foi nosso paraninfo, das conversas, das festas fartas, do olhar sensível, dos papos sobre os filhos e a beleza do olhar que lhes dispensava. Ainda hoje consigo lembrar da doçura e do orgulho na fala, quando falávamos sobre o Virgílio.
Sua beleza e trajetória estão muito além do brilho social. E olha que ele não fez pouco.
Formado em Direito pela UFMG, construiu sólida atuação na advocacia e abriu portas para inúmeros jovens profissionais, transformando o escritório numa verdadeira escola e também numa extensão da própria família.
Participou intensamente da vida pública e associativa de Bom Despacho: presidiu o Rotary Club local, tornou-se governador do Rotary Internacional, esteve à frente do Clube Bom Despacho, idealizou e fundou o Ipê Campestre Clube, presidiu a liga esportiva e a Praça de Esportes.
Transitava com naturalidade entre a política, o esporte, a cultura, as atividades rurais e a realização de alguns carnavais na cidade. Em seu escritório, exibia com orgulho fotografias ao lado de artistas, celebridades e, sobretudo, pessoas queridas.
Comigo, sempre foi gentil. Trazia uma palavra carinhosa, uma pergunta afetuosa, um gesto generoso, sem esperar qualquer retribuição.
Sempre admirei muitas coisas no Paulininho, mas nunca, em nenhuma de nossas trocas, deixei de sentir uma vontade imensa de acolhê-lo, rezar por ele e ansiar minimizar de forma silenciosa e respeitosa a batalha travada dentro de casa na luta pela vida dos seus filhos.
Talvez por isso, a despeito de diferenças, sempre respeitei sua trajetoria.
Havia nele resistência, escolha, batalha. Enquanto muitos sucumbiriam à amargura, Paulininho decidiu viver, viajar, buscar cura, promover festas, espalhar leveza e inventar a felicidade dentro do possível. Acredito que era uma forma de suavizar o peso da existência.
Não convivemos intimamente, mas a vida nos proporcionou encontros preciosos, conversas que passeavam entre trivialidades e profundezas. Um dos últimos, aconteceu durante a produção do documentário sobre o Cine Regina. O filme já estava concluído quando nos encontramos, casualmente, em um velório.
Como sempre, começamos a prosear. E então ele me contou uma história tão bonita, tão delicada, que se tornou impossível deixá-la de fora da montagem. Insisti com equipe, editor, patrocinadores e conseguimos incluir a emocionante história de Dona Alma no documentário. Ele colaborou, compareceu ao lançamento, prestigiou, incentivou e celebrou o projeto comigo. Sem saber, encerrávamos ali, com beleza e afeto, nossos encontros terrenos.
Infelizmente, no dia de sua despedida, eu não estava na cidade. Não consegui chegar a tempo de abraçar sua esposa, seus filhos e seus familiares, nem de oferecer pessoalmente minhas condolências. Por isso deixo aqui este registro.
Um tributo de admiração, respeito e gratidão a Paulino Gontijo Queiroz Cançado e sua história. Um homem de presença marcante, espírito agregador e trajetória importante na nossa comunidade. Permanecerão suas obras, suas histórias, suas festas, seus gestos generosos, suas sementes.
Vá em paz, Paulininho. E que os anjos da alegria o acompanhem nessa nova travessia. (Portal iBOM / Roberta Gontijo Teixeira é bacharel em Direito e servidora pública federal / FOTO DO ALTO: Arquivo Jornal de Negócios – Paulininho com a esposa Sílvia na festa da Edição 1.000 do Jornal de Negócios, em Julho de 2008).

