“Tudo que move é sagrado”
VANDER ANDRÉ ARAÚJO – Beto Guedes, famoso compositor mineiro de Montes Claros, escreveu: “Tudo que move é sagrado”. Eu fico de cá a pensar na sorte daquilo que se automove, no que é capaz de ir de um lugar a outro apenas com a força de um motor, vai lá saber de quantos cavalos.
Mas, amplio o sentido da palavra “sagrado” no verso dessa música para além do religioso, para aquilo que faz o mundo seguir adiante. E assim chego em nós, os humanos, que não precisamos de um habeas corpus para ter a liberdade de ir e vi
E olha que há tanta coisa e tanta gente que nos dá vida, que nos estimula a prosseguir na caminhada, na peregrinação! Nossos pais, amigos, familiares, nossos professores, colegas de trabalho e todo mundo que, um dia, deseja que a gente chegue lá: no topo, no ápice da carreira e na estabilidade de um doce lar, para quem tem uma jornada de trabalho menor que 6×1.
Mas o movimento anda cada vez mais restrito e impossível de realizar. O preço do combustível, o preço da passagem (nem vou falar da aérea), a falta de um serviço público confiável de mobilidade urbana, a ausência de um ponto de ônibus perto de casa, a malha viária sem planejamento.
São muitos os fatores que, cada vez mais, nos imobilizam, nos fazem pensar duas vezes antes de sair de casa, de optar por comprar pela internet em detrimento do comércio local, de trabalhar remotamente, de fazer como os antigos de Bom Despacho: o rolê na Praça da Matriz, que se chamava footing. Parar, apenas no único semáforo da cidade, seja para apreciar uma manifestação política que, vez por outra, decide aproveitar os segundos do sinal vermelho para convencer alguém a fazer ou deixar de fazer alguma coisa.
E, por falar em movimentos sagrados em frente à Igreja Matriz, li o instigante texto de Saulo Leles, que me trouxe notícias da terra natal. Ele relata a dificuldade de estacionar carros no centro de Bom Despacho – quem diria! -, o verdadeiro caos provocado pelo estacionamento e conclui com a sugestão de medidas para a modernização da mobilidade urbana.
[Confira AQUI o texto de Saulo Leles]
Como seres nômades que somos, percebo que, cada vez mais, precisamos refletir sobre o nosso modo de viajar, de fazer novas descobertas, de transitar, de andar pelo mundo e, é claro, de ocupar o espaço público, respeitando também os direitos das outras pessoas.
Muitos desejam ter a certeza de sair e poder retornar para casa em segurança, livres de acidentes ou de crimes à luz do dia. Outros se satisfazem com a vaga no estacionamento rotativo e torcem pela automatização do processo.
É necessário pensar sobre essas ações que realizamos quando decidimos sair do conforto de nossos domicílios, consolidado, inclusive, pelo pagamento em dia do IPTU, para não entrar na dívida ativa do Município. Lembrando que, logo, logo, o boleto do IPTU chegará à nossa porta. Não sei ainda se virá com o reajuste aprovado no final do ano passado. Espero que não.
Precisamos também refletir sobre a possibilidade de exercermos a cidadania e requerermos melhorias para a nossa cidade, em diversas áreas, não somente no trânsito. Melhorias como simples retorno aos tributos que já pagamos, de modo que eles se convertam em benefícios cada vez maiores para toda a coletividade, incluindo aqueles que, infelizmente, não têm condições de pagar. [Veja mais conteúdos seguindo @jornaldenegocios no Instagram].
E, para concluir ainda com os versos da canção do início, já que ainda conseguimos transitar livremente a pé, sem necessidade de comprar o talão do rotativo e a primavera está chegando de forma exuberante à cidade, embelezando a Praça, cheia de carros estacionados, com ipês das mais belas cores, rosa e amarelo:
“No inverno, te proteger
No verão, sair pra pescar
No outono, te conhecer
Primavera, poder gostar”
(Portal iBOM / Vander André Araújo é advogado, filósofo e escritor / Foto: iBom / Cecília Couto).

