A esposa do herói também é uma heroína
Pi morreu porque, literalmente, seu coração ficou grande demais.
LÚCIO EMÍLIO JÚNIOR – A história do capitão Maurício está no documentário Doze Dias, que está para sair. A história de sua mulher, Maria Aparecida dos Santos, a Pi, não. Ela não foi ouvida.
Pi era minha amiga e vizinha de minha mãe. Quando o capitão Maurício se ofereceu para substituir uma refém durante um sequestro e perdeu a vida, o filho dos dois, Mauricinho, ainda era um bebê.
Pi me contou que lutou para impedir que as imagens do marido morto fossem exibidas na televisão. Mas, em meio ao noticiário, reconheceu uma bota: “Essa bota é do Maurício”.
Foi o primeiro e dolorido indício de sua morte.
Há uma história inteira nessa bota. E outra, muito maior, na mulher que precisou continuar vivendo depois de reconhecê-la.
O gesto de Maurício entrou para a história. Pi passou a vida tentando compreender a tragédia, criar o filho e honrar a memória do marido. Sua história também merece ser contada.
Pi morreu porque, literalmente, seu coração ficou grande demais.
Penso nela quando me lembro de outras mulheres que fizeram da coragem uma espécie de segunda natureza. Professoras, sobretudo. Mulheres que, diante de situações extremas, não tiveram tempo de calcular o risco.
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Em outubro de 2017, na cidade de Janaúba, no Norte de Minas, a professora Helley de Abreu Silva Batista enfrentou um incêndio criminoso na creche Gente Inocente. Tinha 43 anos. Quando o vigia ateou fogo ao local, Helley começou a retirar as crianças pelas janelas. Enfrentou fisicamente o agressor, tentando impedir que ele continuasse o ataque. Sofreu queimaduras em quase 90% do corpo e morreu. Seu gesto ajudou a salvar diversas crianças.
A tragédia matou dez crianças, duas profissionais da creche e o próprio agressor. Helley não foi a única a agir para proteger os pequenos, mas seu nome se tornou um símbolo da coragem dos educadores diante do horror. A creche hoje leva seu nome.
Há também Yvonne Bezerra de Mello, artista e educadora que trabalhava com crianças em situação de rua no Rio de Janeiro. Em julho de 1993, depois da chacina da Candelária, foi procurada por sobreviventes e permaneceu junto deles. Oito jovens e crianças foram assassinados naquela noite. Yvonne já conhecia muitos daqueles meninos e continuou seu trabalho com crianças pobres, mesmo depois de se tornar uma figura pública associada à denúncia da violência.
Sandro, o rapaz do ônibus 174, chamou por ela. “Chama a tia Yvonne!”
A frase me emociona porque, naquele momento, mesmo armado e cercado, ele se lembrou de alguém que havia sido boa para ele. A televisão mostrava um sequestrador. Sandro lembrava-se de uma professora.
Yvonne não estava lá. Nem sequer soube, naquele momento, que ele a chamava. Só descobriria depois. Ficou com a pergunta dolorosa sobre o que poderia ter acontecido se tivesse sabido.
Mas há algo que nem o desfecho trágico consegue apagar: quando o mundo inteiro parecia ter medo de Sandro, ele ainda se lembrava de alguém em quem confiava.
Talvez seja isso que uma professora possa deixar na vida de uma criança: a lembrança de que, em algum lugar, existe alguém a quem ela pode chamar de tia.
Três mulheres. Três histórias diferentes. Não quero igualar suas dores, nem transformar suas vidas em santinhos de calendário.
Helley enfrentou o fogo para salvar seus alunos. Yvonne fez da proteção das crianças uma luta continuada. Pi precisou aprender a viver com a ausência do homem que amava, criar o filho e preservar a memória de um gesto que o transformou em herói.
O heroísmo de Maurício foi um acontecimento. O de Pi foi também uma duração.
Talvez seja isso que a memória pública tenha dificuldade de reconhecer. Sabemos erguer monumentos para os que morrem em atos extraordinários. Temos mais dificuldade para enxergar aqueles que continuam vivendo depois da tragédia.
O documentário Doze Dias contará a história do capitão Maurício. Mas quem contará a história de Pi? A mulher que reconheceu o marido morto por uma bota na televisão, que lutou para preservar sua imagem, que passou a vida tentando compreender o que acontecera e que honrou sua memória?
Pi não precisava ser a viúva do capitão Maurício para merecer nossa admiração. Era uma mulher inteira, com suas dúvidas, sua inteligência, sua insistência em compreender o incompreensível. Foi minha amiga. Foi vizinha de minha mãe. Fazia parte da vida, antes de fazer parte de uma história que um documentário poderá contar.
A esposa do herói também é uma heroína. Não porque precise reproduzir o gesto do marido, nem porque seja obrigada a suportar tudo sem reclamar. Mas porque sua história não termina no momento em que a dele termina.
Pi, Helley, Yvonne. Mulheres que, cada uma à sua maneira, cuidaram de outras vidas.
Às vezes, o heroísmo é entrar numa sala em chamas. Às vezes, é permanecer ao lado de crianças que o mundo abandonou. E às vezes é acordar no dia seguinte, com um bebê nos braços, quando o homem com quem você dividia a vida não vai voltar.
Pi fez parte da vida de minha família. É por isso que escrevo sobre ela. Não quero apenas lembrar a mulher que perdeu um herói. Quero lembrar a mulher que ela própria foi. (iBom / Lúcio Emíiio Júnior é filósofo, professor e escritor / Foto: arquivo da família).

