Reinado: quando os tambores anunciam a fé

 

ROBERTA GONTIJO TEIXEIRA – A Festa do Reinado começou em Bom Despacho (MG). E eu já ouço os tambores. Ouço de longe, enquanto a vida segue apressada entre o trabalho, os cuidados com a família e outros projetos que, neste momento, ocupam meus dias. Ainda assim, basta uma batida mais forte, uma cantiga que chega pela janela, uma bandeira que passa pela rua, para que eu me lembre: é tempo de Reinado.

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Também passo muitas vezes pela pracinha do Rosário, apenas para contemplar. E este ano ela está particularmente bonita. Talvez porque, quando não conseguimos viver alguma coisa por inteiro, aprendemos a enxergá-la ainda com mais atenção.

Não tenho, neste momento, o tempo necessário para participar da festa como gostaria. Mas isso não diminui minha fé, minha admiração nem meu respeito por essa tradição que atravessa gerações e que, por alguns dias, parece transformar a cidade inteira. Quero muito estar lá para assistir de perto à descida dos mastros.

Porque a Festa do Rosário é uma bênção que passa por Bom Despacho. E, quando passa, deixa a cidade mais festiva, mais alegre, mais devota e mais profundamente ligada à sua história e às suas tradições. Por alguns dias, a vida parece parar.

Os tambores disparam. As caminhadas, as orações e as cantigas se espalham pela cidade. Os cortes percorrem ruas, visitam casas, chegam às igrejas, levam as bandeiras, Nossa Senhora, os santos, os cantos e, sobretudo, a fé. Cada corte visita inúmeras famílias. Há café, almoço, acolhida, conversa, dança e oração.

Mas há também algo que não se vê, embora se sinta: a esperança. Esperança de cura, de renovação, de saúde, de dias melhores. E cada casa que recebe um corte parece devolver, em forma de gratidão, um pouco dessa bênção.

As visitas são lindas. As danças, emocionantes. Os tambores e os demais instrumentos parecem tocar não apenas os ouvidos, mas alguma coisa mais profunda. Tocam a alma. E, nesses dias, a vida cotidiana parece mesmo suspensa para que Nossa Senhora do Rosário passe. Passe Santa Ifigênia, Nossa Senhora das Mercês e meu querido São Benedito.

Minha experiência de outrora, dançando o Reinado, foi mágica. Transcendente. Talvez por isso eu compreenda que participar dessas celebrações exige tempo, presença e dedicação. Não os tenho agora. Mas continuo pertencendo, de alguma maneira, a esse universo de fé e beleza. Escuto cada batida com alegria no coração. Vejo, admirada, a passagem de cada corte. E penso especialmente na minha Capitã Holdry e em seu corte: lindos, fortes, devotos, encantadores. Há algo neles que me faz pensar em portadores de bênçãos. Talvez seja justamente isso que acontece durante o Reinado.

Nesses dias de festa, parece que cada corte recebe de Deus a autorização para carregar bênçãos. E elas são conduzidas pelas mãos dos capitães, pelas vozes dos cantadores, pelos passos dos dançadores e pelo ritmo dos tambores.

As bênçãos chegam às casas. Passam pelas ruas. Entram nas igrejas. Invadem a cidade. E, de algum modo, também entram em nós. Por alguns dias, ficamos mais espiritualizados. Mais atentos ao sagrado. Mais próximos de Deus e uns dos outros. É bonito perceber que uma tradição tão antiga continua capaz de produzir esse efeito: reunir pessoas, despertar memórias, renovar a fé e fazer uma cidade inteira pulsar no compasso dos tambores.

Eu, que neste ano talvez esteja mais espectadora do que participante, continuo recebendo a festa. Recebo-a pelo som que chega de longe. Pelas bandeiras que vejo passar. Pela beleza dos cortes. Pelas lembranças das danças. Pela emoção de saber que, mais uma vez, Bom Despacho se veste de fé. E agradeço. Salve Maria, os congadeiros e o Reinado de Bom Despacho. Salve São Benedito, Nossa Senhora das Mercês, Santa Ifigênia e Nossa Senhora do Rosário. Salve os fiéis, os festeiros, os capitães, cantadores e dançadores.

E salve esta festa tão bonita, em que Bom Despacho reencontra sua história, sua fé e sua alma ao som dos tambores. (Portal iBOM / Roberta Gontijo Teixeira / Fotos: Cecília Couto / iBom TV).

 

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