A sinfonia agridoce de André Durock
Outro dia, nostálgico dos tempos dos blogs — fazendo uma espécie de arqueologia digital — revisitei o blog do meu amigo André Durock. Foi como abrir uma cápsula do tempo. Entre textos sobre música, memórias dispersas e referências a velhas batalhas culturais da cidade, reencontrei não apenas um escritor de rock, mas uma forma de olhar o mundo.
Não dá para transformar André em mito sem escutá-lo primeiro como homem.
E o que aparece ali é justamente isso: um sujeito que escreve como quem ainda está com a guitarra no colo, entre um acorde e outro, tentando explicar por que certas músicas nunca nos deixam. Siga @jornaldenegocios no Instagram e veja mais conteúdos.
Lá encontrei até referências ao meu antigo blog Revista Cidade Sol, numa matéria intitulada “Outubro Vermelho em Bom Despacho”, sobre a morte do adolescente José Paulo e os protestos que se seguiram. Quantas lutas lutamos.
André é, mais do que um dos mais importantes artistas da cidade, um ativista social, publicitário, funcionário público exemplar e conselheiro tutelar, encarregado de ajudar nossos “adolescentes fluorescentes”.
Mas reduzir André às funções que desempenhou seria perder o essencial.
Porque algumas pessoas ocupam cargos.
Outras ocupam paisagens.
E André pertence a essa segunda categoria.
O mundo descoberto pela música
No Durock Superrock, ele não fala apenas de bandas. Volta sempre ao mesmo gesto fundador: o de descobrir o mundo pela música.
Antes do blog, veio a guitarra.
Antes da reflexão, veio o som.
Ele teve uma banda em homenagem a Raul Seixas, a Vabso. O nome remetia à velha questão da verdade absoluta, tema recorrente na obra de Raul. Encontrei até o antigo MySpace da banda, ainda sobrevivendo em algum canto remoto da internet.
Também foi emocionante encontrar no YouTube uma parceria da banda Amerikana com o professor Roberto Ângelo — outro mito local, referência em educação, cultura e na luta pela conquista da pista de skate da cidade.
Por isso o rock de André nunca foi importado.
Não é pose.
Não é decalque de capa de disco estrangeiro.
Há nele alguma coisa de procissão elétrica — uma mistura estranha de fé e distorção, como se cada riff carregasse também um eco de tambor antigo.
Como se a guitarra fosse outro tipo de reza.
E talvez seja justamente por isso que sua relação com a música pareça diferente.
Para alguns, o rock foi entretenimento.
Para outros, identidade.
Para André, parece ter sido uma forma de habitar o mundo.
O grito e o mito
Quando fundou a Amerikana, André parecia compreender algo que muitos músicos jamais entendem: o rock é um idioma estrangeiro que só se torna verdadeiro quando encontra um corpo local para habitá-lo.
Não se trata de copiar o som.
Trata-se de traduzir a alma.
A maioria aprende acordes.
Poucos aprendem escuta.
Há algo do rock nele — mas não do rock domesticado, transformado em nostalgia de vitrine ou estampa de camiseta.
Não. Há algo do grito e do mito.
Do grito que se recusa a aceitar o silêncio.
E do mito que permanece quando o ruído termina.
Porque todo verdadeiro encontro com a música tem um pouco de abismo.
E talvez seja por isso que alguns homens passem a vida inteira afinando instrumentos quando, na verdade, estão tentando afinar o mundo.
André é um desses.
E não sei se ele percebe.
Mas, enquanto escreve, enquanto toca, enquanto insiste, vai deixando pequenas brechas na realidade, como quem abre janelas em quartos fechados há décadas.
Para que o ar volte.
Para que o som volte.
Para que a vida, ainda que desafinada, continue.
Há homens que parecem escritos pela música
Há homens que escrevem sobre música.
E há aqueles que parecem ter sido escritos por ela.
André Durock pertence a essa segunda categoria.
Ao entrar em seu universo, a sensação não é a de ler um blog.
É a de escutar um eco.
Um eco vindo de um porão antigo onde a guitarra ainda não pediu licença para existir.
Ali, cada texto carrega a reverência de quem não apenas ouviu o rock, mas o atravessou.
Ele escreve como quem monta um riff: direto, sem ornamentos desnecessários, mas com aquela precisão que só nasce de anos de insistência.
Quando fala de bandas, não fala como crítico.
Fala como sobrevivente.
Como alguém que sabe que certas canções não passam.
Apenas mudam de significado conforme envelhecemos.
Há uma juventude que envelhece.
E há outra que apenas se aprofunda.
André pertence à segunda.
Seus textos sobre gigantes do rock, como Arctic Monkeys, The Verve e tantos outros, não são apenas comentários musicais.
São testemunhos.
Ele não enumera discos.
Reconstrói atmosferas.
Lembra que aquelas bandas foram mais do que som.
Foram linguagem.
Foram ruptura.
Foram uma maneira de existir no mundo.
Rock e Reinado
Mas talvez a chave para compreendê-lo esteja em outro lugar.
No Reinado.
Porque há influências que são estéticas.
E há influências que são espirituais.
Dizem que André começou ali, inspirado por uma tradição que mistura fé, corpo e ritmo.
Como se o primeiro compasso não tivesse sido aprendido, mas recebido.
Como se cada acorde ainda guardasse algo de ritual, algo de chão batido, algo de cortejo.
Talvez por isso sua trajetória pareça unir elementos que muitos imaginariam incompatíveis.
O rock e a tradição.
A guitarra e o tambor.
A distorção e a devoção.
Mas não existe contradição.
Existe continuidade.
O rock, nele, nunca foi estrangeiro.
Foi apenas outra forma de devoção.
A permanência
É por isso que seus textos não envelhecem.
Porque não são feitos de opinião.
São feitos de permanência.
Ele escreve como quem sabe que algumas coisas não passam.
Apenas mudam de volume.
No fundo, André Durock não escreve sobre música.
Escreve para que essa sinfonia agridoce que carrega dentro de si não desapareça.
E talvez alguns homens sejam assim.
Tocam baixo.
Escrevem alto.
E impedem que o silêncio vença.
Porque há homens que escrevem sobre música.
E há aqueles que parecem ter sido escritos por ela.
“Eu nunca rezei, mas esta noite estou de joelhos, sim.”
(Portal iBOM / Lúcio Emílio Júnior é filósofo, professor e escritor).

