Entre o pleno emprego e o desafio da qualificação
SAULO LELES COSTA – Passado o mês de maio – Mês do Trabalhador – fica uma questão importante para ser discutida: Bom Despacho tem motivos para celebrar, mas também para refletir profundamente sobre os rumos de sua força de trabalho.
Diferente de muitas regiões do país que ainda lutam contra o desemprego de massa, nossa “Cidade Sorriso” respira um ar de otimismo econômico. Com uma taxa de desocupação que flutua em torno de 4% — o que economistas chamam de pleno emprego — o desafio do trabalhador bom-despachense hoje não é apenas encontrar um posto de trabalho, mas sim encontrar a valorização e a formação necessárias para ocupar as vagas de elite que o novo mercado oferece.
Um panorama de oportunidades
Nossa economia se sustenta em um tripé robusto. O setor de “Serviços e Comércio” continua sendo o maior empregador, respondendo por quase 60% da nossa movimentação econômica. No entanto, é no Agronegócio Tecnológico e na Construção Civil que vemos os maiores paradoxos. Enquanto sobram vagas para operadores de máquinas complexas e mestres de obras qualificados, faltam braços preparados. O setor público e militar, pilar histórico de nossa estabilidade, continua a injetar confiança no consumo local, garantindo que o comércio não pare de girar [] / Veja o de Saulo Leles no site … Link na Bio

As suspeitas do desestímulo e o “apagão” de mão de obra
É comum ouvirmos em rodas de conversa que benefícios sociais desestimulam o trabalho. No entanto, dados de 2026 mostram um cenário adverso: no Brasil, cerca de 13,4 milhões de beneficiários do Bolsa Família já estão trabalhando formal ou informalmente. O que vivemos em Bom Despacho é um “apagão” de qualificação, não de vontade. Com o desemprego em 4%, quase todos os profissionais preparados estão ocupados.
A defasagem em áreas técnicas indica que o salário base já não é suficiente. Setores que oferecem benefícios como planos de saúde e participação nos lucros — comuns em nossas agroindústrias — retêm melhor seus talentos. O desenvolvimento da cidade depende da transição do trabalho braçal para o técnico.
Fato econômico: O auxílio social garante a segurança alimentar mínima para que o cidadão tenha saúde e estabilidade para buscar emprego, além de ser injetado diretamente no comércio local, sustentando as vendas dos próprios empresários.
O contraponto
Ainda que os números oficiais demonstrem que os benefícios sociais como bolsa família, pé de meia, luz para todos, auxílio-gás, dentre outros programas de assistência social dos entes federativos, o que mais vemos em nossas fábricas e comércios são vagas abertas para contratação. O que certamente levanta suspeitas da população quanto a fidedignidade dos dados na prática.
Em conversas com diversos empresários de Bom Despacho, em especial com meu amigo Lucas Simões, economista e sócio proprietário da Meta Calçados, uma empresa que já empregou mais de 6 (seis mil) funcionários em Bom Despacho, a realidade é diferente dos números oficiais. Isso porque, segundo relatos, muitos beneficiários dos programas assistenciais, por receio de perderem o benefício do governo, acabam optando por não trabalhar formalmente, preferindo fazer os chamados “bicos”, onde a pessoa mantém seu benefício e trabalha em outras frentes como profissionais autônomos (freelancers), o que dá a sensação de estarem tendo maior receita no seu orçamento mensal.
Infelizmente, isso acaba gerando diversos problemas futuros, pois esse mesmo beneficiário poderia estar protegido por leis trabalhistas, com em casos de acidentes e afastamentos temporários que os impedem de fazerem os próprios “bicos”, reduzindo drasticamente sua renda.
Porém, esse é assunto em nível nacional, que foge ao nosso propósito neste momento, que é resolver isso no município.
Então vamos ao que interessa? Onde podemos tentar melhorar nossa economia em Bom Despacho, sem entrar em questões de competência do Congresso Nacional, mas focando na nossa Câmara Vereadores e na Prefeitura de Bom Despacho?
Propostas para o poder público (Prefeitura e Câmara)
Para que o cenário fique melhor, é urgente que o Executivo e o Legislativo municipal atuem:
• Criação do Centro Municipal de Qualificação Tecnológica: Foco em mecânica diesel, operação de GPS agrícola e construção moderna.
• Incentivo Fiscal “Emprego Qualificado”: Redução de impostos para empresas que investirem em saúde e educação de funcionários.
• Fortalecimento do Apoio ao Trabalhador: Mais vagas em creches de tempo integral e melhoria do transporte público.
Bom Despacho é terra de gente trabalhadora por natureza. Que as celebrações do último Dia do Trabalho sirvam para lembrarmos que o desenvolvimento não se mede apenas por prédios erguidos ou safras colhidas, mas pela dignidade, pelo salário justo e pela qualidade de vida de quem faz a cidade acontecer todos os dias.
Fomentar nossas empresas é consequência de maior atratividade para o trabalhador, de modo que ele possa receber melhores salários e subsídios, bem como tenha oportunidade de evoluir profissionalmente, sem o medo de perder os benefícios sociais e ficar preso nos míseros repasses estaduais e federais, que sequer dão pra manter a vida com dignidade.
A tríade poder público, iniciativa privada e cidadão é um bloco indissociável para o avanço e desenvolvimento de nossa cidade (Portal iBOM / Saulo Rodrigues Leles Costa é biólogo, gestor público e servidor federal do TRT / Imagem de googlerankfaster do Pixabay).

