Tributo a Fernando Humberto dos Santos

 

FERNANDO CABRAL – Fernando Humberto nos deixou na tarde desta sexta-feira, 12 de junho. Fiquei triste. Deixou para trás boas lembranças e um histórico de lutas pela cidadania e pela justiça.

Como profissional, era dedicado, estudioso, sério e fiel aos princípios de fraternidade e equidade que prezava acima de tudo.

Como amigo, sua lhanura, respeito e disposição para ouvir, ponderar e tolerar nossas falhas causavam admiração e impunham reverência.

Como o marido e pai, eu gostava de ouvi-lo falar, com orgulho, da sua família; da companheira de tantas décadas, dos filhos e filha, dos netos.

Enfim, era um homem caseiro e simples que gostava de receber e celebrar as coisas boas da vida, os amigos, os bons livros, os bons vinhos.

Em 2014, numa entrevista ao Jornal de Negócios, Fernando Humberto falou sobre a prisão de pessoas e dos fatos que se sucederam durante o golpe de 1964.

Conheci Fernando Humberto ainda menino. Ele era, então, estudante do Ginásio (hoje, Escola Miguel Gontijo). Pelo seu espírito combativo e argúcia, sobressaiu-se como líder estudantil. Naquela época, meu pai era porteiro e gerente no Cine Regina, o mais importante local de encontro dos jovens e das famílias de Bom Despacho.

Havia o Clube Social, mas este era elitista e fechado. Já o Cine Regina recebia todos sem discriminação. Durante a semana, havia filmes à noite. Nos finais de semana, havia as matinês. A cidade inteira se reunia no cinema.

No movimento estudantil, Fernando Humberto vinha afiando e afilando suas habilidades de luta na resistência contra a ditadura e preparando-se para a vida profissional. Tornou-se líder entre tantos líderes que despontavam na época. Foi quando o custo do ingresso no Cine Regina teve um aumento. Os estudantes se recusaram a pagar mais caro. Fernando Humberto e seus colegas à frente, o protesto começou.

Não houve violência, barulho ou gritaria. Só inteligência para demonstrar insatisfação.

Havia duas bilheterias no Cine Regina, uma de cada lado da portaria. Quando elas se abriram para iniciar as vendas, os estudantes formaram as filas costumeiras. O primeiro da fila chegava ao guichê e perguntava quanto era o ingresso. A bilheteira respondia, o estudante agradecia sem comprar, e voltava para o final da fila.

Assim seguiam as duas filas: longas, movimentadas, e nenhuma venda.

Portaria aberta para o filme da noite, não havia clientes. Ninguém havia comprado ingresso.

Analisando a situação, meu pai trancou a portaria, chamou as bilheteiras, mandou apagar todas as luzes, e todos bateram em retirada pela saída lateral do cinema.

O impasse estava vencido. Não adiantava manter o cinema aberto, pois não havia clientes. Mas, tampouco fazia sentido manter as filas bobas, porque o cinema estava fechado e não havia mais ninguém para afrontar.

Naquela noite deu empate. Fernando Humberto e seus colegas impediram o funcionamento do cinema, mas meu pai fez o protesto cessar por perda de objeto. Siga @jornaldenegocios no Instagram e veja mais conteúdos.

Eu, ainda menino, ouvi pela primeira vez o nome Fernando Humberto. Era meu pai contando o ocorrido para minha mãe. Ele estava preocupado com as possíveis consequências do protesto, mas estava também se divertindo, pensando na cara dos estudantes que ficaram sem ninguém para afrontar na porta do cinema.

Fernando Humberto tornou-se amigo da minha família. Meu pai sempre o admirou e respeitou. Vez por outra ele se lembrava deste episódio e ria. Eu, minha irmã Diva, tivemos um convívio mais próximo dele por muitas décadas.

Minha mulher, quando o conheceu, também passou a ter por ele enorme admiração.

Como profissional, Fernando Humberto honrou e engrandeceu a toga que envergou por muitas décadas. Mas, para mim, foi mais um amigo generoso, um conselheiro gentil, uma presença sempre alegre, positiva e leve.

A passagem de Fernando Humberto é uma presença que se apaga, mas, a luz que emanou, esta continuará vívida futuro afora.

Descanse em paz, querido amigo. Sua partida deixou o mundo mais pobre, mas sua memória continuará nos trazendo bons momentos. Seu brilho não se apagará e suas contribuições não serão esquecidas. (Portal iBOM / Fernando Cabral / Foto: Arquivo JN).

 

One thought on “Tributo a Fernando Humberto dos Santos

  • 13 de junho de 2026 em 09:05
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    Tive a honra de conhecer Fetnando Humberto dos Santos em 2074. Trabalhei com ele por 03 anos .
    Pessoa fantástica .
    Dotado na época de um conhecimento geral impressionante.
    Foi patrão, amigo e conselheiro.
    Aprendi muito com ele.
    Sua sensatez marcou muito a minha vida e com certeza de outras pessoas.
    Sua inteligência acima da média.
    Sou eternamente grato a ele.

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