A mãe e o terraplanista
Nas palavras de Coelho Neto,
Ser mãe é andar chorando num sorriso!
Ser mãe é ter um mundo e não ter nada!
Ser mãe é padecer num paraíso!
FERNANDO CABRAL – O que Coelho Neto nunca imaginou, foi o sofrimento da mãe que tem um filho terraplanista.
No princípio, a Terra não era plana nem redonda. Este assunto não fazia parte das indagações do homem. Era só terra, e pronto. Afinal, o pessoal da tribo só enxergava até o outro lado do rio. O que estivesse além, não era da conta da tribo.
Naqueles confins, de dia o homem se preocupava em caçar a comida da família, e de noite cuidava de se livrar das feras que queriam transformar o caçador em caça.
As mulheres cuidavam dos rebentos. Alimentavam-nos, limpavam sua remela, embalavam-nos nos braços e os punham a dormir em berços rústicos. Era o mister das mães. Nada de especular se a Terra era redonda ou quadrada, grande ou pequena. A tribo vivia no seu mundinho, sem se preocupar com o além do rio.
Naquela época, ninguém queria saber onde o sol se escondia à noite. Muito menos, onde as estrelas se ocultavam durante o dia.
Contudo, mais cedo ou mais tarde, toda mãe descobre um fato inevitável: o bebê cresce. O corpo ganha pernas, a imaginação ganha asas. Aí, é como diz o poeta, no seu panegírico: ser mãe é ser anseio, é ser temeridade, é ser receio.
O filhote não quer mais regaço, não quer mais o pedestal do seio, onde a vida, onde o amor, cantando, vibra. Ele quer cruzar o rio; quer descobrir onde o sol se põe, onde as estrelas se escondem, onde o arco-íris bebe água. Assim começa a jornada.
De caminhada em caminhada, o homem avançou rumo ao poente e ao nascente. Desbravou mares, matos e montanhas. Depois de milhares e milhares de luas, inventou a matemática, o calendário, a navegação. Mapeou os céus, os planetas, a Terra, sua casa.
Em tudo, e sempre, as mães, nutrindo, incentivando, acompanhando. A alegria delas, como também disse o poeta, sempre foi o bem do filho, espelho em que se mira afortunada, luz que lhe põe nos olhos, novo brilho!
Até que finalmente, o homem se perguntou: o mundo tem fim? Como o sol morre de lá, e nasce outra vez de cá? Como as estrelas giram? Como o sol passa pelas constelações, Áries, Touro, Leão, e depois de doze meses volta?
Será o mundo uma bola?
Eis que, senão quando, os navios singram os mares, em busca de novas terras, novo mundo. Novo mundo que, nas palavras do poeta lusitano, se mais mundo houvera, lá chegara! Eram os desbravadores e conquistadores.
Mas, estou me adiantando em dois mil anos. Recuemos à Grécia Antiga, ao tempo de Erastótenes. Este é aquele que toda criança conheceu no primário. Foi quando tentaram lhe ensinar o que são números primos e o crivo de Eratóstenes.
Cabia à mãe explicar para o filho os números primos são diferentes dos priminhos. Sim! Disto o poeta não falou, mas também cabe à mãe a missão impossível de ensinar para um filho de nove anos o que é um número primo.
Mas, bem, na época de Eratóstenes, os filósofos gregos queriam entender tudo. Eram iguais crianças perguntando para mãe: por que isto? Por que aquilo? Mas por quê? Eram porquês sem fim. Platão e Aristóteles, dois filósofos que viveram antes de Eratóstenes, desconfiavam que a Terra era redonda. Mas, estavam preocupados com outras coisas, e não fizeram o dever de casa nesta área. Ficaram só na desconfiança.
Aí, um belo dia, Eratóstenes ficou sabendo que, no solstício de verão no hemisfério norte (21 de junho), o sol ficava a pino na cidade de Siena. Tão a pino, que ele iluminava certinho o fundo de uma cisterna. Ora, ele morava em Alexandria. Perto da sua casa, um obelisco deixava uma sombra comprida. Imaginoso, ele concluiu que, se o sol estava a pino numa cidade, mas estava mais baixo em outra, isto só seria possível porque a Terra era redonda. Se não fosse, as duas sombras deveriam ser iguais. Mas não eram!
Pronto. Com esta ideia na cabeça, a ajuda de um bematista, e alguns cálculos trigonométricos, Eratóstenes confirmou que a Terra era redonda e calculou o seu tamanho.
Mas, agora, a mãe pergunta: e se meu filho quiser saber o que é um bematista? Afinal, mãe tem que saber tudo, mesmo se não souber. Então, fica a dica: bematistas eram profissionais gregos especializados em medir distâncias contando passos. Eratóstenes contratou um para medir a distância entre Siena e Alexandria. Esta medida era o que faltava para ele calcular o tamanho da Terra.
Pronto! Calculou e acertou.
Mas, desde aquele dia até hoje, a Terra girou 827.090 vezes. Todos os sábios, todos os cientistas, confirmaram: o mundo é uma bola.
Depois de 1.500 os marinheiros portugueses e espanhóis também confirmaram: o mundo é uma bola. E lá foram eles, dar a volta ao mundo. Foram muito além do horizonte.
As mães, nos cais de Portugal, abanavam ao vento seus lenços molhados em lágrimas, enquanto seus sumiam ao longe, nas caravelas. Choravam, porque não sabiam se um dia seus filhos voltariam. Ali postadas, viam como o navio, ao se afastar, ia sumindo de baixo para cima: o caso, o convés, o mastro.
Enquanto choravam e davam adeus, as mães comprovavam que a Terra era redonda. Os navios sumiam atrás da sua curvatura. Mas aprender que a Terra era redonda não aliviava os corações de mãe, tangidos pela dor. Por isto dizia o poeta que ser mãe é desdobrar fibra por fibra o coração!
Dois mil duzentos e vinte e seis anos depois de Eratóstenes ter demonstrado que a Terra é redonda; quinhentos anos depois de as mães portuguesas terem visto as naus dos seus filhos sumirem na curva do oceano, surge um tipo novo de filho: o terraplanista, educado pelas redes sociais.
O filho terraplanista é aquele que não se importa com o sofrimento da mãe. Não se importa com as aulas de ciência. Ele cismou que a terra é plana. Para alimentar esta visão maluca do planeta, inventa todo tipo de explicação que não explica nada.
A mãe, com paciência, explica as cento e vinte provas de que a Terra é redonda, e gira em torno do Sol. Mas, para sua tristeza, o filho rebate, declamando sua poesia predileta:
Era meia-noite. O sol brilhava no horizonte. Um homem nu, com as mãos no bolso, lia um jornal sem letras que dizia: O mundo é uma bola quadrada, que gira parada em torno do sol.
Para ele, isto prova que o mundo é plano. E basta.
É por coisas assim que o poeta insiste: Ser mãe é padecer num paraíso!
Mas, mãe é mãe, e só tem uma. Ela ainda ama o filho, e embala a esperança de que, um dia, ele também aprenda como qualquer pessoa normal: a Terra é redonda!
Enquanto isto, vamos mostrar nosso respeito e carinho pela dedicação e amor que ela tem pelo filho, mesmo que um empedernido terraplanista, deseducado pelas redes sociais. Afinal, para os terraplanistas, livros, professores e cientistas não são confiáveis. Confiáveis são os malucos da Internet. (Portal iBOM / Fernando Cabral / Foto ilustrativa criada por IA).

