Nó no peito da cidade: o desafio da mobilidade em BD

 

SAULO LELES COSTA – Quem vive em Bom Despacho e precisa atravessar o centro ou as principais avenidas nos horários de pico já sentiu na pele: nossa cidade parece ter crescido mais rápido do que nossas ruas conseguem suportar. O que antes era um trajeto de cinco minutos agora exige a paciência típica de uma metrópole. Mas será que esse “sentimento de capital” é apenas impressão ou os números confirmam essa realidade?

Frota de gente grande

A realidade estatística de Bom Despacho é impressionante e ajuda a explicar o caos. Com uma população estimada em cerca de 54.400 habitantes, a cidade ostenta uma das maiores proporções de veículos por habitante da região, ultrapassando a marca de 35 mil veículos registrados. Siga @jornaldenegocios no Instagram e veja mais conteúdos.

Para se ter uma ideia da magnitude: em Bom Despacho, temos aproximadamente 1 veículo para cada 1,5 habitante. Proporcionalmente, nossa densidade veicular supera a de Belo Horizonte, onde a média histórica gira em torno de 1 carro para cada 1,7 pessoa. Operamos sob a lógica da “cidade pequena”, onde cada deslocamento é feito de carro, mas com um volume de tráfego que já exige soluções de cidade grande.

Exemplo de fora

Não precisamos inventar a roda. Cidades como Ponte Nova (MG) e Canoas (RS) enfrentaram gargalos semelhantes e adotaram medidas eficazes:
• Binários Estruturantes: Transformar ruas paralelas em mãos únicas, eliminando conflitos de cruzamento e aumentando a fluidez.
• Ciclovias Seguras: Onde o relevo permite, a criação de faixas exclusivas para bikes retira carros das ruas em trajetos curtos.
• Tecnologia Semafórica: Semáforos inteligentes que ajustam o tempo de verde conforme o fluxo real, evitando filas ociosas.

Papel do Legislativo

Para que a mudança seja institucional e não apenas paliativa, a Câmara de Vereadores pode atuar diretamente com projetos de lei focados em resultados:
1. Lei das Calçadas Acessíveis: Incentivos fiscais (como descontos no IPTU) para proprietários que adequarem suas calçadas. Se a caminhada é segura, o cidadão deixa o carro em casa para ir à padaria ou ao banco.
2. Regulamentação de Carga e Descarga: Estabelecer horários rigorosos e zonas específicas para caminhões pesados, impedindo que manobras de descarga travem o fluxo no hipercentro em horários críticos.
3. Plano Diretor de Ciclovias: Determinar por lei que qualquer nova pavimentação de avenidas principais inclua obrigatoriamente infraestrutura para ciclistas.

Caminhos para o futuro

Bom Despacho está numa encruzilhada. Podemos continuar tentando espremer cada vez mais carros em ruas projetadas para outra época, ou podemos repensar como nos movemos.

A solução exige um pacto: a Prefeitura modernizando a engenharia de tráfego, os vereadores criando leis que priorizem o coletivo e, nós, cidadãos, repensando o uso do automóvel. O progresso de uma cidade não se mede pela quantidade de carros parados no sinal, mas pela liberdade e fluidez com que sua gente consegue circular.

Você sabia?

Grande parte do gargalo em Bom Despacho ocorre porque somos um polo regional. Além dos nossos 35 mil veículos, recebemos diariamente centenas de motoristas de cidades vizinhas que buscam nosso comércio e serviços. Por isso, a gestão das vagas de estacionamento e a fluidez das vias centrais são vitais para a nossa economia. (Portal iBOM / Saulo Leles, biólogo, gestor público e servidor federal do TRT14)

 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *