Do vitral quebrado da igreja às telas de cinema
LÚCIO EMÍLIO JÚNIOR – No início dos anos 60, uma mulher foi impedida de entrar morta na igreja de sua própria cidade.
Berenice — costureira, conhecida por confeccionar calças femininas estilo pantalona — foi vítima de feminicídio em Bom Despacho. À época, segundo relatos e memória popular, o padre teria se recusado a realizar a encomendação do corpo, alegando que ela representava mau exemplo moral. O gesto, considerado por muitos como injusto e cruel, provocou revolta.
O caixão foi colocado diante da igreja fechada. O calor da tarde aumentava a tensão. Aos poucos, a praça se encheu. Ninguém entendia exatamente o que acontecia — até que a notícia se espalhou: o corpo não poderia entrar.
A indignação cresceu. Houve gritos. A porta foi arrombada. Em meio à fúria coletiva, imagens sacras foram quebradas, documentos queimados, o altar tomado. A cidade viveu um de seus dias mais turbulentos. A revolta não era apenas contra um padre; era contra o peso de uma moral que recaía, quase sempre, sobre os ombros das mulheres.
Anos depois, meu pai transformaria esse episódio no romance Maldição da Lua, ainda inédito, mas fruto de longa pesquisa histórica, ao consultar inclusive registros judiciais da época. Na ficção, Berenice recebe outro nome, mas permanece reconhecível. A literatura tornou-se, assim, uma forma de justiça simbólica. Siga @jornaldenegocios no Instagram e veja muito mais conteúdos.
Há quem diga que sua alma é milagrosa. Que graças foram alcançadas por sua intercessão. A única fotografia que consegui dela — obtida com a ajuda de um amigo — revela um rosto comum, sereno. É nela que penso neste mês da Mulher.
Porque Berenice não está sozinha.
Recentemente revi produções de mulheres de nossa cidade que também desafiam silêncios e narrativas estabelecidas. Documentários que revisitam o antigo Cine Regina, como fez Roberta Teixeira; animações que recontam histórias esquecidas como a do antropólogo Curt Nimuendajú, de Tânia Anaya; um novo livro de Denise Coimbra que traz à tona mulheres como Maura Lopes Cançado, hoje publicada pela Companhia das Letras, mas durante muito tempo incompreendida.
O cinema, aliás, nos ensina sobre resistência. Na célebre cena de Spartacus, quando os escravos se recusam a entregar seu líder e assumem coletivamente sua identidade, todos pagam o preço da coragem. A imagem das crucificações à beira da estrada permanece como metáfora da repressão aos que ousam desafiar a ordem.
Em nossa pequena escala, também tivemos nossas estradas simbólicas. Mulheres artistas, escritoras, comunicadoras e tantas outras enfrentaram — e ainda enfrentam — julgamentos severos, expectativas estreitas, moralismos persistentes. Algumas resistem pela arte. Outras resistiram com a própria vida.
Talvez toda cidade precise de suas santas. Não necessariamente as santas de altar, mas as santas da memória — aquelas que pagaram o preço por desafiar seu tempo.
Berenice talvez já seja uma delas.
E lembrar seu nome, hoje, é também reconhecer essas mulheres maravilhosas: Tânia, Denise, Roberta, Berenice, que continuam, cada uma à sua maneira, abrindo portas que um dia tentaram manter fechadas. (iBOM / Lúcio Emílio Júnior / Imagem de arquivo).

