Além do tapa-buraco: solução efetiva não vem de paliativos
É hora de exigir engenharia de qualidade e leis que protejam o dinheiro do contribuinte bom-despachense.
SAULO LELES – O cenário é recorrente e previsível: basta a temporada de chuvas intensificar para que o asfalto de Bom Despacho comece a ceder. O problema, que se arrasta por décadas, atinge seu ápice em vias de alto fluxo, como a Avenida Dr. Roberto de Melo Queiroz. No entanto, para resolver essa questão crônica, precisamos parar de tratar o sintoma e começar a tratar a causa.
O desafio geológico da Dr. Roberto
A localização da Dr. Roberto é estratégica, mas tecnicamente complexa. Por estar situada em região de várzea, próxima ao Ribeirão dos Machados, o solo possui uma característica mais “pantanosa” e saturada. O asfalto comum, quando aplicado sobre uma base que retém umidade e sofre com a variação do lençol freático, fatalmente irá rachar sob o peso do tráfego constante. O erro histórico não é apenas o buraco, mas a insistência em métodos de reparo que ignoram a hidrodinâmica do local.

Soluções estruturais e investimento inteligente
Para que a prefeitura saia do ciclo vicioso do desperdício de recursos públicos com operações tapa-buraco anuais, são necessárias três frentes de ação:
1. Drenagem Profunda e Macadamização – Em áreas de solo instável, o asfalto precisa de uma base de “pedra sobre pedra” (macadame) e sistemas de drenagem profunda que retirem a água debaixo da via. Sem escoamento subterrâneo, o asfalto sempre “flutuará” e se quebrará.
2. Pavimentação Rígida (Concreto – Em trechos críticos de solo úmido e alto tráfego de carga, o concreto é a solução definitiva. Embora o custo inicial seja maior, a durabilidade ultrapassa 20 anos com manutenção mínima, ao contrário dos 12 meses do asfalto convencional.
3. Modernização da Massa Asfáltica – A utilização de asfalto polímero ou “asfalto borracha”, que possui maior elasticidade e resistência à infiltração de água, é essencial para o clima e o solo mineiro.
Câmara Municipal: leis para fiscalizar e planejar
A Câmara Municipal tem um papel vital na transformação dessa realidade através de novos instrumentos legais:
• Lei de Garantia de Pavimentação – Instituir uma lei municipal que exija das empresas contratadas uma garantia mínima de 5 a 10 anos para obras de pavimentação. Se o asfalto ceder antes, a empresa refaz com custo zero para o município.
• Plano Diretor de Drenagem Urbana – Legislar para que toda nova pavimentação ou recapeamento venha acompanhado de um estudo de impacto hidrológico, proibindo obras que não prevejam o escoamento adequado das águas pluviais.
• Fundo de Manutenção Preventiva – Destinar, via orçamento anual, uma verba específica para a manutenção preventiva antes das chuvas (limpeza de bueiros e selagem de trincas), o que é comprovadamente mais barato que a reconstrução pós-chuva.
Conclusão
Resolver o problema dos buracos em Bom Despacho não é uma questão de falta de asfalto, mas de excesso de paliativos. É hora de exigir engenharia de qualidade e leis que protejam o dinheiro do contribuinte. A avenida Dr. Roberto e tantas outras vias de nossa cidade merecem soluções que durem mais que uma estação. (iBOM / Saulo Leles é biólogo, gestor público e servidor federal do TRT14 / Foto: PMBD 2024).

