Quando a água leva tudo, resta a solidariedade
Moro em Juiz de Fora há cinco anos e nunca tinha visto algo assim: tão triste mas, ao mesmo tempo, tão cheio de humanidade e solidariedade.
VITÓRIA AUGUSTA – A chuva começou como tantas outras. Primeiro, alguns dias de céu carregado. Depois, a água que não parava de cair. Até que, de repente, ela entrou nas casas, tomou as ruas e mudou a vida de milhares de pessoas. Em Juiz de Fora, bastaram alguns dias para que rotinas inteiras fossem interrompidas. Casas foram invadidas por água e lama, ruas desapareceram sob escombros e famílias tiveram apenas minutos para tentar salvar o que podiam. Às vezes, apenas a própria vida. O que levou anos para ser construído: casas, lojas, ruas, móveis, roupas, fotografias e lembranças, perdeu-se em pouco tempo. Coisas simples, mas que carregavam histórias inteiras.
Nas últimas semanas, quem caminha pela cidade ainda encontra os rastros da enchente: barro seco grudado nas calçadas, pilhas de móveis destruídos nas portas das casas, roupas e objetos espalhados pelas ruas. Algumas famílias perderam apenas bens materiais. Outras perderam o que não se recupera: pessoas queridas.
De acordo com a Defesa Civil, Juiz de Fora, Ubá e Matias Barbosa registraram 61 mortes. Em Juiz de Fora, mais de 8.500 pessoas ficaram desabrigadas e 2.936 ocorrências foram registradas pela Defesa Civil. A cidade tenta voltar ao normal, mas ainda não é o mesmo normal. Há bairros inteiros marcados pela enchente, casas destruídas e memórias vivas, que a água levou embora.
Moro em Juiz de Fora há cinco anos e nunca tinha visto algo assim: tão triste mas, ao mesmo tempo, tão cheio de humanidade e solidariedade. Conhecida como Princesinha de Minas, a cidade de mais de 540 mil habitantes virou notícia em todo o país nas últimas semanas. A tragédia ocupou telejornais, portais de notícias e redes sociais.
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Mas quem esteve nas ruas viu coisas que muitas vezes não aparecem nas reportagens. Desde os primeiros dias depois da enchente, tenho ajudado na limpeza de casas e ruas atingidas. E foi ali, no meio da lama, que vi algo que talvez seja o retrato mais verdadeiro da cidade. Vi pessoas que nunca tinham se encontrado antes trabalhando lado a lado. Vi moradores limpando casas que não eram suas. Vi voluntários chegando de cidades vizinhas, trazendo pás, rodos e disposição. Vi também um estrangeiro, um holandês que mora no Rio de Janeiro, viajar até Juiz de Fora apenas para ajudar. Cada um fazia o que podia. Alguns ajudavam com trabalho; outros com doações, transferências em Pix, alimentos, roupas ou produtos de limpeza. Não faltou comida para os desabrigados nem para os voluntários que passavam horas tirando lama das casas.
A solidariedade aparece de muitas formas. Mas também houve momentos difíceis de ver. Em meio à tragédia, apareceram pessoas espalhando mentiras por motivos políticos. Outras tentaram transformar a dor em palco, buscando visibilidade em um ano eleitoral. É impossível não pensar que, em momentos como esse, não deveria existir lado político ou religioso. Deveria existir apenas humanidade. Um dos dias mais marcantes foi quando ajudamos na limpeza do Abrigo Santa Helena, onde vivem 122 idosos. A lama tinha tomado conta de quase tudo, e caminhões e mais caminhões de lixo precisaram ser retirados. Entre a tristeza de ver tantos objetos perdidos, havia também um alívio silencioso: ali, nenhuma vida havia sido levada.
No total, 20 bairros de Juiz de Fora foram atingidos, sendo três deles os mais críticos, com soterramentos e mortes. Foi vendo tudo isso que surgiu uma ideia. Quando pensei em organizar uma campanha de doações de Bom Despacho para Juiz de Fora. A primeira pessoa a quem liguei foi minha mãe. Como sempre, ela me apoiou. Depois vieram os amigos, os conhecidos e as pessoas que acreditaram na iniciativa.
Quero agradecer ao vereador Rodrigo Chapola, à Paré Advogada e à Andreia Vivian, à Malu e à equipe da Relojoaria Odair, além dos pontos de coleta, da equipe da Pecus e de todos os bom-despachenses que contribuíram.
Cada gesto fez diferença. Nos últimos dias, vi muita tristeza. Vi casas destruídas, objetos perdidos e famílias tentando recomeçar. Mas também vi algo que a enchente não conseguiu levar embora. No meio da lama, entre rodos, baldes e mãos cansadas, apareceu algo que talvez seja a verdadeira força de uma cidade: a solidariedade. (iBOM / Vitória Augusta é acadêmica de Jornalismo e neta do bom-despachense Bené Peão / Fotos: arquivo pessoal Vitória Augusta).

