Silêncio em Bom Despacho, em São Paulo e no Brasil
“O futebol não é uma questão de vida ou morte, é muito mais importante do que isso”.
ALEXANDRE MAGALHÃES – A frase acima é de Bill Shankly, técnico escocês de futebol. Para muitas pessoas, o futebol é quase uma religião e acaba impactando toda a vida, todos os anos, todos os dias.
Em época de Copa do Mundo, a sociedade brasileira acaba assumindo esta frase como verdadeira. Lembro-me de uma pesquisa de alguns anos atrás, a qual indicava que após uma vitória do Brasil em uma Copa do Mundo, a compra de ações na Bolsa de Valores (e podemos ampliar isso para vários produtos) crescia cerca de 30%. Para quem não entendeu corretamente a relação entre futebol e ações, refraseio: a alegria após uma vitória brasileira em uma Copa do Mundo faz que os investidores comprem 30% mais ações. Incrível, não?
O contrário também é verdadeiro. Uma derrota do Brasil na Copa deixa as pessoas muito mais tristes. Tenho uma história pessoal sobre isso: meu tio Hilário, irmão de meu pai, morreu de infarto após a derrota do Brasil para a Itália na Copa do Mundo de 1982, disputada na Espanha. Seu filho Edson, meu primo, estava na Espanha acompanhando a Copa do Mundo e a família decidiu não o avisar sobre a morte de seu pai, pois era a primeira viagem internacional dele e ele não conseguiria chegar a tempo para o enterro. Meu primo só ficou sabendo da morte do pai ao voltar ao Brasil semanas depois…
A convocação da Seleção brasileira já começou torta…
O futebol brasileiro é uma farra da incompetência. Muita corrupção, bagunça eterna e isso transforma um produto maravilhoso em um fracasso de vendas de nosso futebol para outros países do mundo. O valor do Campeonato Inglês para uma TV brasileira exibi-lo é muito mais caro do que o valor do Campeonato Brasileiro para uma TV inglesa mostrá-lo lá na Inglaterra. Tudo, fruto dessa incompetência da gerência de nosso futebol
Para melhorar isso, a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) decidiu contratar um técnico não-brasileiro, no caso, um italiano chamado Carlo Ancelotti. Técnico renomado na Europa, ganhador de grandes campeonatos pelo mundo todo, esperávamos que Ancelotti limpasse nosso futebol, pelo menos melhorasse a Seleção Brasileira.
Para os não muito próximos do mundo do futebol, uma das principais decisões que esperávamos de Carlo Ancelotti era levar uma Seleção sem figurões e velhos craques, especialmente, Neymar, que para os amantes do futebol que acompanham o dia a dia dos times, é um ex-craque em atividade, ou seja, parou de jogar em grande estilo há pelo menos cinco anos.
Ancelotti dizia que só levaria jogadores em plena forma física, ou seja, Neymar não seria convocado.
Por conta da pressão das empresas de apostas, as chamadas bets, e dos patrocinadores em geral, Ancelotti cede e acaba chamando Neymar, o que deixou feliz as crianças e os que não acompanham o futebol diariamente, mas deixou inconformados os torcedores mais experimentados.
Brigas entre comentaristas, alguns defendendo ao Neymar, caso do Tiago Leifert, enquanto outros indicavam o grave erro de chamar esse jogador, caso do ex-jogador e hoje comentarista, o Walter Casagrande.
Quando terminou a ridícula festa feita para chamar os convocados, a maior entre todas as 48 seleções classificadas para o evento, especialmente pela convocação do Neymar, eu ouvi apenas as crianças do bairro Esplanada, aqui em Bom Despacho (MG), gritando “Neymar, Neymar, Neymar”. As crianças ainda acreditam em Papai Noel e em velhos craques sem condições de continuar a jogar… eu já fui assim, também.
Os jogos do Brasil nesta Copa
A seleção brasileira não empolgou nos três primeiros jogos, na chamada Fase de Grupos. Jogou contra Marrocos (empate), Haiti (goleada para o Brasil) e Escócia (ganhou bem), mas nunca empolgou muito e Neymar quase não entrou, pois estava na reserva. Ancelotti, nas entrevistas, dizia que só aproveitaria Neymar em caso de extrema necessidade ou quando o jogo estivesse fácil para o Brasil.
Na segunda fase, ganhamos do Japão no último minuto de jogo. Ufa!
Na terceira fase, a última que jogamos nesta Copa, jogamos contra a Noruega, um time médio, com dois ou três jogadores bons. Ancelotti optou por deixar a bola com a Noruega, coisa que o Brasil jamais fez em sua história nas Copas do Mundo anteriores. Não poderia ter dado certo.
O jogo estava ainda 0 a 0 e o Brasil perdeu um pênalti, pois Ancelotti pediu para um jogador sem nenhuma tradição de fazer este tipo de cobrança, o Bruno Guimarães, bater o pênalti. Perdeu, claro! Ainda 0 a 0, Ancelotti decidiu colocar Neymar no campo, contra todas as suas falas anteriores. Ao colocar Neymar, sem condições físicas e técnicas ideiais, mudou alguns jogadores de posição, pois nosso craque não tem o hábito de marcar aos adversários. O time se desestruturou e a Noruega engoliu o Brasil!
Silêncio, silêncio, silêncio…
Ainda fizemos um gol de pênalti no último minuto, com Neymar. Ao invés de cobrar rápido e ainda tentar um empate (Marrocos ganhava de 2 a 0 neste momento), nosso craque preferiu arrumar confusão com o goleiro norueguês e perdeu muito tempo nisso, acabando com a chance brasileira nesta Copa.
Após nossa derrota, o silêncio ficou palpável em Bom Despacho. Nem um mísero som eu consegui ouvir. Nada… tristeza pesada nesta cidade… na segunda-feira pela manhã, após a eliminação, ouvi crianças desalentadas comentando sobre a frustração da eliminação…
É o maior período sem ganharmos uma Copa do Mundo desde 1930, quando disputamos a primeira edição deste torneio.
No dia seguinte ao jogo, eu fui a São Paulo (já voltei na própria noite de terça-feira a Bom Despacho) de ônibus. Ouvi vários passageiros reclamando sobre suas tristezas com a saída da Copa. Um casal reclamava que não teriam mais a chance de beber loucamente e culpar a Copa do Mundo pela ressaca… comportamento bem brasileiro durante este evento.
Minha terra natal também estava de ressaca e muito triste. Ainda cheia de bandeiras brasileiras nas ruas, nos prédios, nos carros… todos muito tristes.
Ancelotti nos traiu?
Nada do que esperávamos de Carlo Ancelotti se cumpriu. O jogo da Seleção Brasileira sempre foi para frente, sem medo de ser feliz. O técnico italiano montou uma retranca, testou vários jogadores e mudou tudo a cada jogo, parecendo não saber o que estava fazendo.
Prometeu não convocar jogadores sem condições de jogo e chamou nosso ex-craque e ex-jogador em atividade. Mentiu ou não teve coragem de bancar suas decisões? Nunca saberemos…
Despedidas dignas e indignas
Alguns jogadores importantes estão fazendo sua última Copa do Mundo, pois já estão perto da aposentadoria. Foi lindo, e ainda está sendo para alguns jogadores, ver as últimas danças de craques de futebol, atletas que marcaram uma ou duas gerações com suas jogadas.
O hermano Lionel Messi (39 anos), atual campeão do mundo continua a nos emocionar. Também foi lindo ver o português Cristiano Ronaldo (41 anos) na TV, assim como o croata Luka Modric (40 anos). O eterno goleiro mexicano Guillermo Ochoa (também de 40 anos) parece que vai parar desta vez, junto com o outro goleiro, o alemão Manuel Neuer. O cracasso Kevin De Bruyne da Bélgica e seu compatriota Romelu Lukaku, que imitou o Donald Trump ao fazer o quarto gol no jogo que eliminou aos Estados Unidos desta Copa, entre tantos outros, emocionaram aos fãs do mundo todo e estão se aposentando…
Nosso craque Neymar, que realmente foi genial há dez anos, mas que fez a opção por viver a vida de bom vivant e não mais de atleta, foi a grande decepção do torneio, infelizmente para nós…
2030 está logo aí…
Como o brasileiro é um sujeito de fé, já começamos nossa torcida para a próxima Copa do Mundo em 2030, que será disputada na Espanha, Portugal e Marrocos, enquanto Uruguai, Argentina e Paraguai receberão três jogos inaugurais para celebrar o centenário do torneio.
Desta Copa de 2026, guardarei a imagem que vi dias antes do início do torneio, quando observei vários trabalhadores e voluntários estendendo panos verdes e amarelos na Avenida do Rosário, em Bom Despacho, bloqueando o tráfego por algumas horas para esta tarefa. Era uma ação que mostrava a esperança de ser brasileiro e a crença de que o hexacampeonato era possível…
Pena! Agora, é escolher uma outra seleção para torcer ou fingir que o torneio nunca existiu e esperar por melhor sorte em 2030! Se priorizarmos o futebol e menos em agradar aos patrocinadores, teremos melhores chances! Vai, Brasil! (Portal iBOM / Alexandre Sanches Magalhães / Foto: Carla Caniel)

