Crescimento não se mede só pelo barulho das fábricas

 

SAULO LELES COSTA – “Bom Despacho não quer crescer.” Esta frase tornou-se uma espécie de lamento urbano, recorrente em nossas rodas de conversa. O espelho dessa frustração costuma ser a industrialização acelerada de cidades vizinhas. No entanto, quando cruzamos os dados oficiais com a realidade das ruas, percebemos que o desenvolvimento de um município é um conceito muito mais complexo do que o simples inchaço populacional ou a multiplicação de galpões industriais.

Para entender o nosso momento, precisamos olhar para os números. Ao analisarmos o PIB per capita — uma métrica que indica a riqueza produzida por habitante —, Bom Despacho demonstra uma saúde econômica robusta, situando-se na casa dos R$ 42 mil. Esse patamar nos coloca em posição competitiva e estável no Centro-Oeste mineiro, superando centros que, embora mais industrializados, enfrentam desafios sociais severos.

[Assista AQUI ao vídeo de Saulo Leles falando sobre este tema]

Cidades que optaram pela industrialização de baixa complexidade muitas vezes ostentam um PIB per capita significativamente menor — como Nova Serrana, que gira em torno de R$ 24 mil, ou Santo Antônio do Monte, na casa dos R$ 34 mil. O fenômeno é claro: em muitos desses locais, o crescimento industrial acelerado gerou pressão demográfica, sobrecarregou a infraestrutura pública e, paradoxalmente, resultou em menor riqueza por habitante.

Essa resiliência de Bom Despacho reflete-se diretamente no nosso IDH (Índice de Desenvolvimento Humano Municipal). Com um índice de 0,750, estamos entre as cidades com melhor qualidade de vida da nossa região, posicionando-nos muito bem no ranking do estado de Minas Gerais. Cidades que focaram exclusivamente no “boom” industrial, frequentemente, patinam na faixa de 0,715, sofrendo com os custos sociais que esse modelo impõe à saúde, à segurança e à educação.

A nossa eficiência não é um defeito; é a nossa maior vantagem competitiva. No entanto, eficiência não basta para quem quer ser protagonista. O nosso desafio hoje não é repetir o modelo fabril do século passado, mas sim integrar tecnologia à nossa economia.

O próximo passo: a construção de um Parque Industrial Tecnológico

Se já provamos ser eficientes na gestão do básico, chegou a hora de sermos ambiciosos na inovação. O futuro de Bom Despacho não reside em copiar o passado, mas em abraçar a economia do conhecimento. Proponho a criação de um Parque Industrial Tecnológico (PIT) voltado ao nosso maior ativo: o Agronegócio. Siga @jornaldenegocios no Instagram e acompanhe novos conteúdos.

Um PIT não é apenas um prédio; é um ecossistema que conecta nosso campo à era digital. O caminho para isso exige um pacto entre o poder público e a sociedade:

1. O Papel da Câmara Municipal:

• Lei Municipal de Inovação: É preciso criar o arcabouço jurídico necessário, oferecendo incentivos fiscais (como a redução de alíquotas para empresas de base tecnológica) e definindo zonas de incentivo urbano exclusivas para inovação. O Legislativo tem o poder de tornar Bom Despacho um “porto seguro” para o capital intelectual.

2. O Papel da Prefeitura:

• Infraestrutura e Parcerias: A prefeitura pode viabilizar terrenos em comodato ou Parcerias Público-Privadas (PPPs) para centros de co-working e incubadoras. Além disso, tratar a conectividade de altíssima velocidade como infraestrutura básica, tal qual o saneamento, é o que atrairá as empresas que lideram a revolução das AgTechs.

Onde isso deu certo? Não precisamos reinventar a roda. O modelo de Santa Rita do Sapucaí (MG), o “Vale da Eletrônica”, provou que uma cidade de médio porte pode se tornar um polo tecnológico mundial com incentivos corretos. Iniciativas como o Vale dos Ipês (Lavras) e o UberHub (Uberlândia) mostram que cidades que criam comunidades de inovação conseguem reter seus jovens talentos, que, de outra forma, partiriam para grandes capitais.

Bom Despacho não precisa escolher entre o campo e a tecnologia. Nós temos a base agropecuária ideal para desenvolver soluções de automação e biotecnologia. O crescimento que tanto buscamos não virá de chaminés tradicionais, mas da nossa capacidade de ser o “cérebro” do agronegócio regional.

Chegou a hora de parar de olhar para o retrovisor da industrialização pesada. Podemos ser uma cidade próspera, tecnológica e, acima de tudo, um lugar onde nossos filhos queiram ficar para construir suas vidas. Crescer é, antes de tudo, uma decisão estratégica. (Portal iBOM / Saulo Leles, biólogo, gestor público e servidor federal do TRT14).

 

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