As eleições que vivi em Bom Despacho
VANDER ANDRÉ ARAÚJO – Pela primeira vez nos meus 37 anos de eleitor, não votei na cidade de Bom Despacho. O que, para mim, é uma pena, pois sempre gostei muito do movimento da cidade em dia de eleição. Transferi provisoriamente meu domicílio eleitoral e exerci meu direito de cidadão brasileiro em Hamburgo, na Alemanha, onde sou residente.
Pelas regras da Justiça Eleitoral, no dia 4 de outubro votei somente para Presidente do Brasil e seu vice. Tive, inclusive, uma pequena vantagem sobre meus conterrâneos: por causa do fuso horário. Cinco horas antes de a votação começar no Brasil eu já estava lá na fila, às 8 horas da manhã daqui. Como sempre gostei de votar cedo, segui com satisfação para a minha seção eleitoral em um endereço de nome Neustädterstrasse. Cheguei rapidamente, utilizando o transporte público. Siga @jornaldenegocios no Instagram e veja mais conteúdos.
Comícios em BD
Quando me tornei eleitor, nos anos 1990, eu achava o máximo os comícios que antecediam o dia da votação durante o processo eleitoral em Bom Despacho, principalmente quando um candidato a algum cargo estadual ou federal se dignava a aparecer. Esses eventos lotavam as praças da cidade e atraíam um público que nem sempre era adepto de suas ideologias, mas que apreciava, assim como eu, o movimento de gente nas ruas, a festa que fazíamos com os shows de músicos e aqueles primeiros suspiros da recém-retornada democracia brasileira, após anos de ditadura militar. Era a possibilidade de voltar a votar diretamente e escolher nossos representantes que nos alegrava e, de certa forma, nos empoderava como sujeitos políticos em desenvolvimento.
Havia ainda o excesso de papéis: os santinhos dos candidatos jogados pelo chão e desovados no dia da votação, uma vez que já não serviriam para mais nada, talvez para a reciclagem; as camisetas que ganhávamos dos candidatos, com seu número e nome, para que pudéssemos escrever sem erro no papel; e os jingles que viravam chiclete e que a gente saía cantando sem perceber.
Trabalho de mesário
Por muitos anos, fui mesário, convocado pela Justiça Eleitoral, chegando até a presidência de seção. Isso ainda me enche de orgulho, por ter contribuído para que o processo transcorresse, em vários pleitos, de forma legítima. E, de quebra, eu ainda ganhava folga no serviço por ter trabalhado naqueles dias.
Foram várias eleições das quais participei como mesário, inclusive algumas ainda no tempo do voto em papel. As cédulas eram introduzidas com muito zelo naquelas urnas de tecido grosso, que ficavam entre as mesas que colocávamos na entrada do Clube Social de Bom Despacho. Foi ali que votei até o recadastramento e a mudança da minha seção para o Colégio Miguel Gontijo, já com as moderníssimas urnas eletrônicas, utilizadas pela primeira vez nas eleições municipais de 1996.
E que avanço!
Apurações no Clube Bom Despacho
Só quem trabalhou na apuração, naquelas tardes e noites encaloradas e acaloradas no Clube Social, com ventilador de teto capenga, onde eram realizadas as contagens manuais, poderá dizer o quanto a evolução para a urna eletrônica representou um avanço e facilitou a vida de todos nós, eleitores e trabalhadores envolvidos no processo eleitoral, além de garantir maior confiabilidade no processo.
Eu, que também acompanhava paralelamente a chegada dos primeiros computadores ao Banco do Brasil, ainda na década de 1990, e era multiplicador de conhecimentos de microinformática para os demais funcionários, que andavam ressabiados com a novidade, sabia muito bem que a inovação eletrônica viria para ficar também no processo eleitoral.
E veio, tornando-se uma tecnologia reconhecida e admirada em todo o mundo, um grande motivo de orgulho para todos nós, brasileiros.
E eis que estamos novamente exercendo o voto, que é secreto, mas que muitos gostam de professar, demonstrar apoio, fazer campanha, sabe-se lá por quais motivos: se apenas financeiros, se pela promessa de um futuro melhor ou, simplesmente, por convicção política.
O que importa é que todos somos sujeitos políticos e no Brasil, a partir dos 16 anos, já podemos votar, homens e mulheres! Vivemos em uma sociedade, uma polis, marcada por diferenças, desigualdades e interesses que nem sempre convergem, com facilidade, para aquilo que diz respeito à coletividade.
Que o nosso voto seja – tanto no primeiro quanto no segundo turno -, portanto, mais do que uma manifestação de preferências pessoais. Que seja um exercício de consciência, responsabilidade e esperança em um mundo melhor. Afinal, a democracia não se constrói apenas no dia da eleição; ela se fortalece a cada escolha que fazemos e a cada vez que nos dispomos a pensar, para além de nós mesmos, na cidade, no estado e país onde queremos morar e, juntos, construir. (iBom / Vander André Araújo / Imagem criada com IA).

