Geraldinho: algumas amizades não terminam com a vida
ROBERTA GONTIJO TEIXEIRA – Há algum tempo, quando meu pai ainda dirigia, pegava o carro e sumia. Tomava a rodovia rumo ao Engenho e deixava todo mundo lá em casa em polvorosa. Podíamos saber, tinha ido no Engenho visitar o amigo Geraldinho.
Geraldinho, como bem gosta de falar meu pai, era fazendeiro, empresário, poeta.
Homem de coração grande, caridoso, de personalidade interessante e, além de tudo, um grande escritor. Deixou registrada toda a vida do Engenho do Ribeiro em muitos de seus livros. Narrou pessoas, costumes, paisagens, histórias …
Casado com dona Didi e pai de quatro filhos, ele ocupou lugar cativo no coração do meu pai, pelo papo, pela doçura e, particularmente, pelo laço que os uniu: a escrita.
Nos últimos meses, meu pai já não dirige. E passou a depender de mim para ir à casa do amigo.
Algumas visitas depois, descobri que Geraldinho era avô da Débora, minha amiga e psicóloga. Assim, os laços se tornaram ainda mais estreitos e especiais.
As visitas eram simples, mas cheias de significado. Dona Didi nos recebia com aquele sorriso largo, um cafezinho e uma penca de bananas que meu pai, naturalmente, não se contentava em comer ali. Tinha sempre de arrumar uma “matulinha” e levar algumas para casa.
Os dois conversavam por horas. Confesso que nem sempre eu sabia exatamente sobre o quê. Meu pai falava de literatura. Geraldinho tentava ensinar meu pai a usar o computador. Sem grande sucesso. Eles riam, discutiam, se emocionavam. E, olhando para os dois, às vezes pareciam menos dois amigos e mais dois irmãos que a vida havia colocado em caminhos diferentes e, depois, tratado de aproximar.
Na última quinta-feira (17/9), Geraldinho se despediu de nós. Eu e Débora ainda havíamos combinado uma visita do meu pai ao hospital, para que ele pudesse ver o amigo uma última vez. Mas não houve tempo. Recebemos a notícia com tristeza. E, junto dela, recebemos também uma mensagem que ficará para sempre. Veja mais conteúdos como este seguindo @jornaldenegocios no Instagram.
Nos últimos dias de vida, Geraldinho pediu a Débora que transmitisse ao meu pai a alegria que sentia por ter tido a sua amizade. Meu pai, que não é homem dado a lágrimas, sentou-se e chorou. Disse que aquela havia sido uma das mais bonitas homenagens que poderia receber e que jamais se esqueceria. E falou também, com a serenidade de quem compreende a dor do amigo, que se sentia, de certa forma, aliviado por Geraldinho já não estar sofrendo, preso a uma cama.
Talvez porque, nos últimos tempos, meu pai tenha passado a falar muito sobre a possibilidade de escolher partir quando a vida se transforma em luta, doença e sofrimento.
Eu penso diferente. Acredito que cada vida tem seu tempo, sua razão, seu propósito. E que há uma beleza, até mesmo nessa pesada trajetória final, que nem sempre conseguimos compreender como e porque está sendo escrita.
Mas há uma coisa em que nós dois certamente concordamos: algumas amizades não terminam com a vida. No velório, meu pai fez questão de estar presente. Foi difícil. A locomoção já lhe impõe enormes limitações. Ficar em pé é um esforço. Caminhar é quase uma batalha. Mas ele foi. E quis falar. Diante do amigo, a seu modo, despediu-se. Homenageou. Agradeceu. E, no final, disse:
“Isso não é uma despedida, meu amigo. É um até logo.” Depois, como se aquelas palavras ainda não fossem suficientes, fez questão de voltar. Rodeou o caixão e abraçou Geraldinho.
Na saída, repetia insistentemente: o Engenho do Ribeiro não pode esquecer o Geraldinho. Tem que homenageá-lo. Tem que perpetuar sua história, seus livros, seu legado. Repetia e repetia, como se suas palavras pudessem manter viva a história do amigo e tudo que ele representou.
Talvez, muito além dos livros que Geraldinho escreveu e das histórias que registrou, seu maior legado seja o amor que deixou plantado dentro das pessoas: seus amigos, seus familiares, seus conterrâneos. Porque, no fim, é isso que permanece.
O amor que plantamos no coração de quem cruzou nosso caminho. As conversas que não esquecemos. As risadas. O café servido numa tarde qualquer. A banana levada para casa. Uma tentativa frustrada de ensinar alguém a mexer no computador. Uma estrada percorrida para visitar um amigo. Um abraço. Uma palavra dita no momento certo.
E, também, uma mensagem deixada nos últimos dias de uma vida: “Diga a ele que fui feliz por ter sua amizade.” Talvez seja essa a forma mais bonita de permanecer.
Acho que meu pai não tem com o que seu preocupar. O legado do amigo não será esquecido. Afinal, histórias quando verdadeiramente vividas e contadas, não morrem.
Débora, obrigada por estar aí. Por ser a mensageira desse recado. Por ter levado ao meu pai as últimas palavras do seu avô e, com elas, ter deixado em seu coração uma lembrança que ele guardará para sempre.
E que o Engenho do Ribeiro faça aquilo que meu pai, hoje, pediu tantas vezes. Que não deixe Geraldinho ser esquecido. Que conte suas histórias, leia seus livros, preserve sua memória e perpetue seu legado.
E que Geraldinho siga como viveu: plantando, narrando e colecionando emoções, amores, encontros e histórias.
E como bem disse meu pai, que cada um de seus amores e familiares encontre consolo e amparo, porque na verdade é apenas um até logo. (iBom / Roberta Gontijo Teixeira / Imagens: arquivo da família).

