O 7° Batalhão e a batalha da memória
LUCIO EMÍLIO JÚNIOR – Há batalhas que se vencem nas ruas. Outras são travadas contra o esquecimento. Os 95 anos do 7º Batalhão da Polícia Militar de Minas Gerais também podem ser contados pelas lembranças que ele despertou em gerações de bom-despachenses.
Ítalo Coutinho escreveu que “algumas instituições fazem parte da história de uma cidade não apenas pelos serviços que prestam, mas pelas lembranças que deixam nas pessoas”. Em suas recordações, o Batalhão é a Vila Militar, o Colégio Tiradentes, os professores e policiais inesquecíveis, as festas juninas, os desfiles de Sete de Setembro, a Praça de Esportes e a ansiedade pelo sorteio de uma bicicleta. Um quartel transformado em infância.
Nas memórias de Toninho Saudade, o Batalhão é aventura. É a Mata do Batalhão, a velha bomba d’água, as piscinas do Clube Militar, os piões feitos na aula de Seu Mingau, as caçadas a tesouros, os estilingues e as travessuras que, mais tarde, se transformariam em canções e em amor pela história de Bom Despacho.
Herbert Magalhães guardou outro pedaço desse mesmo universo. Do Chalé 6 da Vila Militar via o carro de bois gemer na estrada, as jardineiras seguirem para Abaeté, Dores e Martinho Campos, o leiteiro “Fidirico” surgir montado em seu burro, as partidas de futebol atrás do muro e a Procissão do Enterro, embalada pelas marchas fúnebres da Banda do Batalhão. Em suas crônicas, a Vila Militar deixa de ser apenas um conjunto de casas para se tornar um patrimônio afetivo da cidade.
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Minha lembrança chega pelas mãos de Liu, meu sogro. Apaixonado por uma câmera Super-8, passou anos filmando Bom Despacho. Pouco antes de sua morte, acompanhei-o até a Vila Militar em busca de um antigo projetor. Talvez fosse um daqueles de que meu pai, Lúcio Emílio do Espírito Santo, escreveu ao recordar o velho cineminha da Vila Militar, que funcionava onde hoje está o auditório do 7º Batalhão. Os projetores já haviam sido descartados pelo circuito comercial; os filmes chegavam riscados, remendados, e os operadores aprendiam na prática. Às vezes a fita era montada ao contrário. Então os cavalos corriam de marcha a ré, o bandido caía antes do tiro, os mortos ressuscitavam para continuar a luta. A plateia, em vez de reclamar, ia ao delírio.
Quando Liu conseguiu projetar alguns de seus velhos filmes, tive a sensação de estar diante do mesmo milagre. Vi a construção da Matriz, estudantes desfilando, pessoas patinando, crianças tomando sorvete. Eram fragmentos de uma Bom Despacho que insistia em sobreviver. Mais tarde, aqueles rolos de Super-8 se perderam. Mas não a memória que carregavam.
Talvez seja justamente essa a missão mais silenciosa do 7º Batalhão. Antes mesmo de ser quartel, ele se tornou cenário da vida de uma cidade. Ali cabem o sacrifício dos que escreveram sua história, como o coronel Fulgêncio, morto na Revolução Constitucionalista de 1932, e também as pequenas histórias de meninos que brincaram na Mata do Batalhão, aprenderam disciplina no Colégio Tiradentes, assistiram ao cineminha da Vila ou tentaram salvar, quadro a quadro, a memória de Bom Despacho.
Há edifícios que ocupam um terreno. O 7º Batalhão ocupa, há 95 anos, um lugar muito mais difícil de conquistar e impossível de demolir: a memória de Bom Despacho. (Portal iBOM / Lúcio Emílio Júnior é filósofo, professor e escritor / Foto: Visita à Igreja de Santa Efigênia na Vila Militar – Arquivo 7° BPM).

