Vaga difícil, talão invisível: o caos do estacionamento

 

Quando você finalmente encontra uma vaga no centro de Bom Despacho (MG), começa a verdadeira jornada: onde comprar o talão do rotativo?

SAULO LELES – Imagine a cena: você tem um compromisso urgente na região da Praça da Matriz ou precisa de atendimento em uma das clínicas próximas à Santa Casa. Você circula, gasta combustível, contribui para o congestionamento e, após longos minutos, finalmente encontra uma vaga. O alívio, porém, dura pouco. Começa a segunda jornada: onde comprar o talão do rotativo?

Em Bom Despacho, o sistema de estacionamento rotativo, instituído pela Lei nº 2.389/2014, tornou-se um labirinto de incertezas. Não há placas indicativas, sinalização clara ou pontos de venda oficiais da Prefeitura. O cidadão fica à mercê da sorte para encontrar um vendedor autônomo que, entre um jogo de Lotofácil e uma Mega Sena, comercializa os talões de papel por `R$ 2,00`. O resultado é uma injustiça institucionalizada: motoristas são multados não por má-fé, mas por absoluta falta de informação e acesso ao serviço.

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Como discutimos no artigo da semana passada sobre a hiperconcentração central, o excesso de veículos e a falta de vagas travam o desenvolvimento. Hoje, o sistema rotativo é ineficiente: há relatos frequentes de carros que ocupam a mesma vaga o dia inteiro com um único talão, desrespeitando o limite de tempo e derrotando o propósito de democratizar o espaço público. A fiscalização manual, dependente de um servidor que circula verificando para-brisas, é incapaz de cobrir a demanda, gerando um sentimento de impunidade para uns e punição indevida para outros.

História e causas

O rotativo nasceu em 2014 com o objetivo nobre de rotatividade e fluidez. Em 2018, foi ampliado para vias importantes como a Rua Coronel Tininho. Contudo, o sistema parou no tempo. Enquanto o mundo avançou, Bom Despacho permaneceu presa ao anacronismo do papelão no para-brisa. Em pleno 2026, onde resolvemos quase tudo pelo celular, depender de um processo informal e analógico é um entrave à modernização da cidade.

A ausência de tecnologia é a raiz do problema. Sem um sistema digital, a Prefeitura não possui dados reais sobre a ocupação das vagas, o que impede um planejamento urbano eficiente. A falta de sinalização oficial sobre os pontos de venda cria um ambiente de amadorismo administrativo que afasta o consumidor do centro e prejudica o comércio local, que já sofre com os altos custos que debatemos anteriormente.

Casos de sucesso

A solução está na palma das mãos; basta olhar para quem já resolveu o problema com inteligência. Belo Horizonte e Contagem já operam com sistemas de Rotativo Digital, onde o motorista ativa a vaga via aplicativo, garantindo transparência e facilidade. No Rio de Janeiro, o app Jaé eliminou as cobranças irregulares, enquanto cidades como Cuiabá e Ouro Preto utilizam plataformas como o Digipare ou Zul+.
Nesses modelos, a fiscalização é feita pela consulta da placa no sistema. O motorista recebe alertas no celular quando o tempo está expirando, podendo renovar ou liberar a vaga com um clique. É a tecnologia a serviço da justiça social e da fluidez urbana.

O que precisamos fazer?

Para modernizarmos nossa mobilidade, proponho uma ação conjunta em três frentes:

Câmara de Vereadores: É urgente a revisão da Lei 2.389/2014 para instituir o Sistema de Estacionamento Rotativo Digital. Precisamos de legislação que obrigue a Prefeitura a oferecer o serviço via aplicativo e que exija sinalização rigorosa em todas as vias afetadas, garantindo o direito à informação do cidadão.

Prefeitura: Deve-se licitar imediatamente uma plataforma digital (como Digipare ou Estapar) e extinguir definitivamente os talões de papel. É necessário instalar placas com QR Codes para download do app e capacitar os fiscais para monitoramento digital. Uma campanha de comunicação ampla é essencial para que ninguém seja pego de surpresa.

Cidadãos: Cabe a nós cobrar essa modernização e adotar as novas ferramentas. O rotativo digital não é apenas uma facilidade tecnológica; é a garantia de que o centro de Bom Despacho será um lugar acessível, organizado e justo para todos. (iBOM / Saulo Leles Costa é biólogo, gestor público e servidor federal do TRT / Foto iBOM).

 

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