Entre a memória, a verdade e as histórias que contamos

 

VANDER ANDRÉ ARAÚJO – Após um sábado (11.04) com programação intensa na Virada Cultural, realizada com recursos do Governo Federal, por meio da Lei Aldir Blanc, com o apoio da Prefeitura, Bom Despacho (MG) se prepara para mais um encontro com a literatura e com aquilo que nos torna mais humanos: as histórias que nos contam e as que contamos. No próximo sábado, dia 18 de abril, a cidade recebe a 5ª Feira Literária de Bom Despacho (FLIBD), realizada pela Secretaria de Cultura e Turismo e pela Biblioteca Pública Municipal, na Praça da Matriz, das 9h às 12h.

É mais um convite aberto a escritores, leitores e curiosos da cidade e região para celebrar a palavra, o encontro entre as pessoas e para darmos asas à imaginação. Um dia muito especial com a presença dos escritores da cidade, contação de histórias, exposição de artes, premiação de leitor(a) destaque da Biblioteca Pública em 2025, música e teatro!

[Assista ao vídeo de Vander Araújo falando sobre a FLIBD]

Já confirmaram presença na FLIBD os escritores Andreia las Casas, Benício Cabral, Denise Coimbra, Gísila Couto, Lúcio Emílio, Luísa Garbazza, Pedro Ramos, Poliana Barbosa, Sara Campos, Wagner Cruz e William Mello. A minha irmã, a professora Samira Araújo, também escritora, me representará no dia. Os autores estarão com os seus livros disponíveis para o público e promoverão momentos de interação, com dedicatórias e diálogo com os leitores.

Aceitar esse convite para participar como escritor bom-despachense é também revisitar meus caminhos trilhados na Literatura. Houve um tempo, durante minha graduação em Filosofia, em que passei horas mergulhado na disciplina da lógica, na chamada “tabela da verdade”. Entre combinações de verdadeiro e falso, eu buscava compreender como se constroem argumentos válidos, verdadeiros. Mas bastava levantar os olhos para a TV e o celular para perceber que, fora dos livros, o mundo parecia operar por outras regras.

Há pouco mais de cinco anos, vivíamos em um período em que notícias falsas, boatos e discursos distorcidos se espalhavam com rapidez assustadora. Em meio a uma pandemia da COVID, quando a ciência deveria ser o nosso ponto de apoio coletivo, o que se via muitas vezes era o contrário: desinformação, descrédito e interesses particulares se sobrepondo ao bem comum. Uma pena que, pelo visto, nós não aprendemos a lição e isso ainda continua acontecendo em nossa sociedade. Siga @jornaldenegocios no Instagram e veja mais conteúdos.

Foi nesse contexto que surgiu uma inquietação que ainda me acompanha: como as crianças estão absorvendo tudo isso? Que referências estão moldando seu olhar sobre o mundo? E que futuro podem construir quando o presente se apresenta tão instável?

Essas perguntas atravessam minha escrita, especialmente quando me propus a falar com as crianças. Não como quem oferece respostas prontas e o gabarito, mas como quem convida as pessoas curiosas ao questionamento, à dúvida. A literatura, afinal, talvez seja um dos poucos espaços onde ainda podemos duvidar com liberdade.

Ao longo da minha trajetória de escritor, escrevi sobre diversos temas densos: a marginalização pela loucura (Roupa Suja de Inconfidente, 2020), trabalhadores invisibilizados (Pode durar o tempo de uma música, 2022), vulnerabilidade social, racismo, afetos que desafiam normas e a língua da Tabatinga (Sobre mim uma sentença, 2024). Talvez por isso, escrever para crianças tenha se tornado um desafio ainda maior, não pela simplicidade, mas pela necessidade de dizer muito com pouco texto, cuidado com o vocabulário, de alcançar um leitor em formação, ainda aberto, ainda não endurecido pelos preconceitos e pelas certezas fáceis.

E é com esse espírito que meu livro infantil Pinoquiabo, 2024, ao lado dos meus outros cinco títulos, incluindo o recém-lançado Radiografias em tempos nublados, 2026, que além dos textos publicados aqui no Jornal de Negócios em 2025, traz crônicas escritas em Hamburgo, com o meu olhar de estrangeiro e Retratos Guardados – Memórias de uma cidade que tem Drummond na parede, 2025 estará disponível para venda durante a feira.

Embora eu esteja vivendo atualmente na Alemanha e não possa estar presente fisicamente, estarei muito bem representado pela professora Samira Araújo, minha irmã, que escreveu o prefácio do meu último livro e que, curiosamente, foi também uma das responsáveis por me ensinar a ler e a desenvolver o gosto pela escrita e pela leitura.

Nesse percurso até agora, percebo algo importante: não são apenas as grandes mentiras que nos afastam da realidade. Pequenos gestos cotidianos, desculpas inventadas, verdades omitidas, atitudes que parecem inofensivas também constroem um ambiente de distorção. A diferença entre essas pequenas mentiras e as chamadas fake news está na escala, mas não na essência.

E, curiosamente, é na memória que encontro algum equilíbrio. Muito do que escrevo nasce da minha infância e adolescência em Bom Despacho: da cozinha de casa, do fogão a lenha, do ateliê de costura das tias, das brincadeiras nas ruas Capivari e Cruz do Monte, das histórias contadas por minha mãe, professora rural e grande narradora de causos, sempre entrelaçando crenças, mitos e afetos.

Lembro-me, por exemplo, das brincadeiras com quiabo fresco, colado no rosto em risadas despreocupadas, muito antes de qualquer referência literária, daí surgindo o personagem Pinoquiabo! Só mais tarde fui descobrir as múltiplas concepções do legume: presente em culturas e religiões antigas, carregado de simbolismos (quem come quiabo, não pega feitiço!), cercado de histórias.

Recentemente, um amigo aqui na Alemanha me indicou um livro que ainda não li, mas que já me provoca e entrou na minha lista de próximas leituras: A polícia da memória, de Yoko Ogawa. Pelo enredo, que já pesquisei, vi que a história envolve o desaparecimento gradual das coisas e das lembranças. Imagino que encontrarei ali ecos dessas mesmas inquietações, sobre o que esquecemos, o que escolhemos lembrar e quem, agindo como polícia, controla essas narrativas. Torço para que os livros contribuam para a permanência das coisas em nossa memória tão frágil.

Talvez seja isso que a literatura faz: transforma o cotidiano em algo maior, dá novos significados ao que parecia simples e nos convida a olhar de novo, com mais cuidado, mais curiosidade e, quem sabe, mais verdade.

A FLIBD será, sem dúvida, mais uma oportunidade para esse exercício coletivo. De escuta, de troca e de reconstrução, palavra por palavra, daquilo que queremos preservar: a memória, a imaginação e a capacidade de pensar criticamente o mundo e, é claro, a cidade em que vivemos e a que queremos viver. Reforço o convite: vá na Praça da Matriz no sábado dia 18, prestigie a Feira Literária e dê vivas para os livros e os diversos escritores de Bom Despacho que lá estarão! (iBOM / Vander André Araújo / Foto: FLIBD 2025 / Crédito: Prefeitura BD).

 

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