Rafaela não morreu sozinha; nós também falhamos

 

ROBERTA GONTIJO TEIXEIRA – Na quarta-feira (15), Ralf Cordeiro foi condenado a 20 anos de prisão pelo feminicídio de Rafaela Ester. A sentença encerra um processo judicial que tramita desde 2022. Mas está longe de encerrar a história (Veja mais detalhes sobre o caso no final deste texto).

Durante muito tempo, vê-lo trabalhando, caminhando pelas ruas e até frequentando cultos religiosos, como tantas pessoas comentavam, causava uma inquietação difícil de explicar. Parecia que a cidade seguia seu curso enquanto uma ausência gritava em silêncio. Como se a vida de uma mulher pudesse ser arquivada na memória coletiva antes mesmo de ser julgada.

A Justiça finalmente falou. Mas há uma pergunta que ela jamais conseguirá responder. Será que nós poderíamos ter feito mais?

Quando Rafaela e Ralf chegaram para morar ao nosso lado, foram nossos vizinhos por algum tempo. Pouco tempo depois nasceu a filha deles. Mas o que deveria ser o início de uma nova família transformou-se em cenário de medo. As discussões eram frequentes. Violentas. A Polícia Militar aparecia repetidas vezes. Conversava. Orientava. Ia embora. Nós, vizinhos, tentávamos ajudar sem invadir. Tentávamos respeitar limites.

Hoje me pergunto se justamente esse cuidado excessivo em “não interferir” não foi, também, uma forma de omissão.

Lembro de uma conversa em que Rafaela contou que havia viajado para outra cidade. Precisava de apoio. Precisava de colo. Mas também não encontrou abrigo. Talvez ela estivesse, naquele momento, apenas procurando alguém que dissesse: “Você não está sozinha”.

Não fomos esse alguém. Estávamos ocupados demais apagando os incêndios da própria vida. Trabalho. Contas. Filhos. Compromissos. A rotina nos anestesia para a dor do outro.

Depois eles se mudaram. Algum tempo mais tarde veio a notícia que ninguém queria receber. Veio a culpa.

Porque o feminicídio não nasce no instante do crime. Ele começa muito antes. Começa no primeiro grito que ninguém leva a sério. Na primeira agressão justificada como “briga de casal”. Na primeira ameaça minimizada. Na primeira vez em que uma mulher pede ajuda e escuta que tudo vai melhorar ou em que um vizinho aumenta o volume da televisão para não ouvir o que acontece ao lado.

Cada silêncio prolonga a violência. Cada omissão fortalece o agressor. E isso não é um peso que pertence apenas às vítimas ou às suas famílias. É um espelho diante de toda a sociedade.

Os números mostram que a violência contra a mulher continua crescendo no Brasil. E isso deveria nos envergonhar profundamente. Enquanto mulheres conquistam autonomia, ocupam espaços de poder, estudam mais, empreendem mais e decidem sobre a própria vida, cresce também, em muitos casos, a reação violenta de quem não aceita perder privilégios construídos sobre séculos de desigualdade.

O feminicídio não nasce do amor. Nasce do controle. Do sentimento de posse. Da incapacidade de aceitar que uma mulher é livre para decidir sua própria história.

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Hoje, curiosamente, acordei com uma mensagem enviada por minha filha, Dayane, sobre a situação das mulheres no Afeganistão. Lá, muitas já não podem falar em público. Não podem conversar entre si em determinados espaços. Não podem rezar em voz alta. Não podem dirigir a palavra ao vendedor na padaria ou no mercado. Enfrentam dificuldades até para buscar atendimento médico.

À primeira vista parece uma realidade distante. Mas talvez a pergunta seja outra. Qual é o medo que tantas sociedades ainda têm das mulheres? Que ameaça representa uma voz feminina? Que perigo existe na igualdade? Em graus diferentes, culturas diferentes tentam controlar a mesma coisa: a liberdade feminina. É uma violência que muda de roupa conforme o país. Em alguns lugares ela usa leis. Em outros, usa socos. Em outros, usa humilhações, dependência financeira, chantagem emocional ou discursos religiosos distorcidos para justificar a submissão.

O objetivo, porém, continua sendo o mesmo: silenciar.

Não escrevo estas linhas para apontar dedos. A condenação de Ralf já pertence ao Poder Judiciário. Escrevo porque nenhuma sentença impedirá o próximo feminicídio se continuarmos acreditando que basta prender depois que uma mulher morre. Precisamos chegar antes. Muito antes.

Precisamos de educação emocional nas escolas. Precisamos ensinar meninos que amor não combina com domínio. Precisamos ensinar meninas que pedir ajuda nunca é motivo de vergonha.

Precisamos de campanhas permanentes, não apenas no mês de agosto.

Precisamos de igrejas que preguem acolhimento em vez de submissão.

Precisamos de políticas públicas que protejam de verdade.

Precisamos de homens que confrontem outros homens quando perceberem comportamentos abusivos.

Precisamos de vizinhos que batam à porta.

Precisamos de famílias que acolham e de uma sociedade que entenda que violência doméstica nunca é um problema privado. É um problema de todos.

Quanto à Rafaela, resta a tristeza e a culpa. Quanto ao Ralf, desejo que a prisão não seja apenas um espaço de punição, mas também de reconstrução. Que um dia consiga compreender a dimensão irreparável do que fez. Que descubra que masculinidade não é força sobre alguém, mas responsabilidade sobre si mesmo.

Punir é necessário. Mas educar continua sendo indispensável. Porque nenhuma condenação devolverá uma mãe à filha. Nenhuma sentença apagará o vazio de uma família. Nenhuma pena reconstruirá os aniversários que nunca mais acontecerão.

A única verdadeira vitória será o dia em que deixarmos de escrever textos como este. O dia em que nenhuma mulher precise viver com medo dentro da própria casa. O dia em que uma vizinha não precise pedir socorro em silêncio. O dia em que homens e mulheres compreendam que igualdade não ameaça ninguém. Ela apenas devolve humanidade a todos nós.

Que a memória de Rafaela não permaneça apenas nos autos de um processo. Que ela sobreviva como um chamado. Para enxergarmos. Para acolhermos. Para agirmos.

Porque a próxima vida ainda pode ser salva. E isso depende de todos nós. (Portal iBOM / Roberta Gontijo Teixeira / Imagem ilustrativa)

ENTENDA O CASO

Homem é condenado a 20 anos por feminicídio em Bom Despacho

Na quarta-feira (15), o Tribunal do Júri de Bom Despacho (MG) condenou Ralf Cordeiro, de 41 anos, a 20 anos e nove meses de prisão pelo feminicídio da ex-companheira Rafaela Ester, de 23 anos. O crime ocorreu na madrugada do dia 2/2/2022, na residência do casal, que mantinha união estável e tinha uma filha de um ano e cinco meses.

Segundo a denúncia do Ministério Público (MP), uma discussão iniciada na noite anterior se estendeu até a madrugada, quando o homem asfixiou a vítima. A necropsia confirmou a asfixia como causa da morte.

Os policiais militares encontraram a mulher já sem vida no local. O corpo estava enrolado em uma colcha verde. O autor fugiu antes de se apresentar à polícia, após o fim do período de flagrante. A filha do casal dormia em outro cômodo durante o crime.

De acordo com o MP, o relacionamento do casal era marcado por agressões.

Além da pena, a juíza determinou a perda do poder familiar do réu sobre a filha e o pagamento de R$ 20 mil de indenização à família. O acusado, que respondia em liberdade, saiu do Fórum preso no final do julgamento. (Portal iBOM c/ informações do Ministério Público de Minas Gerais).

 

One thought on “Rafaela não morreu sozinha; nós também falhamos

  • 16 de julho de 2026 em 20:21
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    SARKIS, Stephanie Moulton. O fenômeno gaslighting: Saiba como funciona a estratégia de pessoas manipuladoras para distorcer a verdade e manter você sob controle. Tradução de Denise de Carvalho Rocha. 1.ed. São Paulo/SP: Editora Cultrix, 2019.

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