É época de Copa do Mundo
ALEXANDRE MAGALHÃES – A Copa do Mundo da FIFA – Fédération Internationale de Football Association (em bom português é a Federação Internacional de Futebol Associado) é o torneio mais importante do futebol mundial e reúne as supostamente melhores seleções nacionais a cada quatro anos. Organizada pela FIFA desde 1930, a competição tornou-se o evento esportivo mais assistido do planeta.
Digo supostamente as melhores, pois as chaves classificatórias são fortes em alguns locais e em outros, têm seleções bem fraquinhas. Isso faz com que haja seleções com grande chance de títulos e times sem nenhuma chance no mesmo torneio.
Origem
A FIFA foi fundada em 1904, mas durante muitos anos o futebol internacional era disputado principalmente nos Jogos Olímpicos. Com o crescimento do esporte, a entidade decidiu criar um campeonato mundial próprio.
A primeira Copa ocorreu em 1930, no Uruguai. De lá para cá, a cada quatro anos vemos o torneio, com exceção feita ao período da Segunda Guerra Mundial (1942) e pós Guerra (1946).
Evolução do torneio
Ao longo das décadas, a Copa cresceu significativamente, passando de treze seleções na primeira disputa e chegando a 48 nesta edição.
Maiores campeões
O Brasil é o maior campeão (1958, 1962, 1970, 1994 e 2002), com cinco taças, seguido por Alemanha (1954, 1974, 1990 e 2014) e Itália (1934, 1938, 1982 e 2006), com quatro cada uma. Nossos hermanos argentinos têm três títulos (1978, 1986 e 2022), França (1998 e 2018) e Uruguai (1930 e 1950) têm dois cada um e, finalmente, Inglaterra (1966) e Espanha (2010) ganharam uma Copa do Mundo cada um.
A Copa do Mundo para um brasileiro
No Brasil ocorre um fenômeno muito interessante: todos assistem aos jogos e torcem para a seleção de nosso país, mesmo aqueles que não entendem nada de futebol, não sabem as regras, não torcem para nenhum time e nem sabem diferenciar a bola e o goleiro. O país se une de quatro em quatro anos.
A Copa do Mundo é para todos no Brasil.
É para todos?
Quando assisto a um jogo da Copa do Mundo de Futebol, sinto uma tristeza, uma sensação de que nosso país deu errado. Por quê? Porque quase todos os torcedores que estão no estádio vestindo nossa amarelinha, símbolo máximo de nossa nacionalidade, são brancos. Fico buscando um negro nas imagens, mas é mais fácil acertar na Megasena da virada do que encontrar um representante afrodescendente brasileiro em um estádio da Copa.
E isso acontece quando vou a um restaurante, a um cinema, a um teatro, a uma livraria, a um aeroporto, a um show de um artista importante, a um estádio de futebol no Brasil, enfim, para quase tudo.
Lembro-me quando minha namorada bom-despachense foi a São Paulo, minha terra natal, pela primeira vez. Levei-a para jantar em um restaurante famoso. Ela estava encantada com o lugar, com a comida, com a vista panorâmica que o local propiciava a todos e só fazia elogios ao local. Eu, então, perguntei a ela quantos negros clientes estavam no local. Foi como jogar um balde de água gelada sobre ela. Ficou em choque, pois nunca havia pensado sobre o assunto. Eram dezenas de mesas ocupadas por famílias brancas. Os negros serviam a estas famílias…
Desde então, todas as vezes que vamos a um lugar diferente, minha namorada bom-despachense olha o ambiente e comenta que o Brasil precisa se recivilizar…
Eu passei nove anos de minha vida fazendo o mestrado e o doutorado na USP-Universidade de São Paulo, considerada em várias listas como a melhor universidade da América Latina. Tenho muito orgulho de ter estudado lá. Recordo-me que eram quatro mil candidatos para três vagas… e eu fui aprovado. Orgulho demais…
Mas, os leitores sabem quantos alunos negros eu encontrei nesses nove anos na FEA – Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP? Repito a pergunta: quantos negros estudantes em NOVE ANOS? NENHUM…
Raros leitores e raras leitoras, sabem quantos professores negros eu encontrei na FEA nestes nove anos? NENHUM…
Por que isso acontece? Por que os negros são menos inteligentes ou capazes? Não, com certeza absoluta essa não é a resposta correta. A desigualdade social faz com que o início da maratona da vida seja diferente para um negro e para um branco.
E se mudássemos o tópico da conversa para as diferenças entre homens e mulheres na sociedade, o resultado seria um pouco melhor do que o panorama que relatei entre brancos e negros, mas ainda assim veríamos diferenças enormes em oportunidades, condições de trabalho, salários, trabalhos domésticos, entre outras muitas diferenças.
Qual é a ironia desta situação na Copa do Mundo?
A ironia é clara: uma torcida toda branca torcendo por um time majoritariamente negro, com seus craques negros: Vinicius Jr., Endrick, Rayan, Luis Henrique e o craque quase aposentado Neymar, o machucado Raphinha, entre outros. Os melhores jogadores da seleção brasileira masculina de futebol são negros.
Algo similar ocorre nos Estados Unidos com o basquete: a torcida é majoritariamente branca e os jogadores são negros em sua quase totalidade.
Temos salvação?
As políticas públicas que obrigam as famílias que recebem algum tipo de auxílio a manter os filhos na escola pode mudar o panorama no longo prazo. As cotas para negros e oriundos de escolas públicas nas universidades federais, também deve ter efeito no longo prazo. Mas, no longo prazo estaremos todos mortos, como disse o economista estadunidense John Maynard Keynes…
As bets no meio deste jogo
De uns poucos anos para cá, as casas de apostas, que nos acostumamos a chamar de “bets” (apostas em inglês) invadiram o Brasil e o mundo. Virou uma doença (literalmente uma doença e não só uma força de expressão) e tem causado endividamentos enormes em milhões de famílias. Relatos de pessoas que suicidam por causa do vicio em apostas, algumas que deixam milhões de reais em dívidas para as famílias, têm aparecido na imprensa.
Claro, o vício afeta a ricos e pobres, mas os mais pobres são os mais prejudicados, pois muitos param de pagar as contas e compras comida para a família para apostar em tigrinhos e jogos de futebol. Triste realidade.
Mais triste ainda é ver nossos ídolos, como Vinicius Jr. e Neymar, além dos já aposentados Ronaldo, Cafú e Rivaldo (entre muitos outros), sem contar Galvão Bueno e que tais que recebem milhões para fazer propaganda destas casas de apostas.
É muito desapontador ver o melhor jogador do Brasil na atualidade, o Vinicius Jr., que tem uma linda luta contra o racismo, influenciando milhões de pobres e negros a viciarem-se em apostas. Como pode a mesma pessoa influenciar milhões em sua justa luta contra o racismo e ao mesmo tempo aceitar falar a favor das bets que levam milhões de pessoas ao desespero. Muito contraditório, infelizmente!
O lado bom da Copa do Mundo
Nestes últimos anos, nos quais o país dividiu-se em dois campos políticos opostos, é alentador ver todos torcendo pelo hexacampeonato brasileiro. Tomara que o título venha, não importando muito quem serão os protagonistas.
Mas, seria lindo ver o Vinicius Jr. ser eleito o melhor da Copa do Mundo! Já que os negros não conseguem pagar o preço dos ingressos e as caras viagens para ir ver o evento “in loco”, que ao menos um negro, de origem muito humilde, seja o herói nacional.
Boa Copa a todos! Vai, Brasil! (Portal iBOM / Alexandre Magalhães / Foto: Nelson Terme / CBF).

