Mãos que transformam cuidado em esperança
Sede em construção da Metástase do Amor é a realização de um projeto que nasceu da união de muitas mãos, especialmente de mulheres
ROBERTA GONTIJO TEIXEIRA – Talvez não haja momento mais simbólico do que este para falar sobre mulheres. Mulheres fortes, belas em sua essência, guerreiras que atravessam o mundo deixando marcas de cuidado, coragem e transformação.
Algumas o fazem no silêncio das rotinas simples, entre as lutas cotidianas da vida. Outras conduzem grandes projetos, empresas e iniciativas. São mães, filhas, amigas, líderes — ou simplesmente presenças femininas que, com sensibilidade e força, ajudam a tornar o mundo mais humano. A todas elas, minha saudação.
Mas hoje volto meu olhar para um projeto que nasceu justamente da união de muitas mãos e, em grande parte, de muitas mulheres. Um projeto que carrega no próprio nome um paradoxo cheio de significado: Metástase do Amor.
[Video mostra estágio atual da construção da sede da Metástase]
Criada em 2015, em Bom Despacho, a ONG surgiu a partir da iniciativa de um grupo de pessoas movidas por um propósito comum: oferecer suporte a pacientes oncológicos e a suas famílias em um dos momentos mais difíceis da vida. No início, como acontece com tantos projetos que nascem do coração, não havia sede, estrutura ou recursos abundantes. As reuniões aconteciam na sede da maçonaria. Telefonemas eram feitos em busca de apoio. Doações eram pedidas de porta em porta. Havia, porém, algo que nunca faltou: a convicção de que ninguém deveria enfrentar o câncer sozinho.

Ao ouvir relatos de pessoas ligadas à instituição e percorrer as histórias compartilhadas em suas redes sociais, fica evidente o impacto silencioso e profundo desse trabalho. Histórias de pacientes que já não têm perspectivas de cura, mas que lá encontram alívio, acolhimento e dignidade.
Pessoas que não possuem rede de apoio familiar e que, sem a instituição, atravessariam a doença em completa solidão. Há também relatos dolorosos de quem se endivida, faz empréstimos e vende o que possui para custear tratamentos e deslocamentos em busca de atendimento.
Pensar que alguém possa enfrentar uma batalha tão dura sem apoio, sem recursos e sem amparo é algo que pesa no coração. É justamente nesse cenário que iniciativas como a Metástase do Amor se revelam indispensáveis. Siga @jornaldenegocios no Instagram e veja outros conteúdos.
De acordo com Cida Cabral, uma das pessoas com quem conversei para compreender melhor a trajetória da ONG, os primeiros tempos foram de muita improvisação. Não havia sequer um lugar para armazenar as doações recebidas. Com o tempo, conseguiram uma casa emprestada no bairro São José, onde deram os primeiros passos de forma mais organizada. Lentos, mas firmes.
Aos poucos, o projeto foi ganhando adeptos e reconhecimento. Veio o contato com a prefeitura, o decreto de utilidade pública e, posteriormente, a possibilidade de alugar uma pequena casa para ampliar as atividades. Um termo de fomento firmado com a Secretaria Municipal de Saúde permitiu a contratação de uma equipe técnica. Hoje atuam na instituição a psicóloga Tatiane Silva, a nutricionista Glória Melo e a assistente social Jéssica Lopes.
Outro marco importante foi o cadastro federal no CEBAS, que abriu portas para a apresentação de projetos e captação de recursos públicos.
Uma história que mobilizou profundamente a cidade e acredito que muitos se lembrem, foi a luta da jovem Camila, da família Leles. Bom Despacho acompanhou comovida a mobilização que arrecadou recursos para que ela pudesse realizar tratamento no exterior. Infelizmente, o tempo foi mais curto que a esperança. Camila partiu, deixando saudade e inspiração. Mas sua história não terminou ali.
Em um gesto de generosidade que atravessa a dor, a família Leles destinou uma quantia significativa à ONG. Foi esse gesto que permitiu iniciar um sonho antigo: a construção da sede própria da Metástase do Amor.
Hoje, esse sonho começa a ganhar forma. A nova sede está sendo construída na Rua Maria Lima, nº 530, no bairro Santo Agostinho, em um terreno de 765 m2. O projeto é ambicioso, amplo e profundamente necessário, um espaço que promete transformar o acolhimento oncológico em Bom Despacho.
O local deverá abrigar oficinas de artesanato, culinária e yoga, além dos atendimentos já oferecidos pela equipe técnica. A expectativa é ampliar os serviços, incluindo novos profissionais, atendimento médico e fisioterapia, conforme novos projetos de captação de recursos forem aprovados.
A estrutura também contará com área administrativa, cozinha semi-industrial, quadra compartilhada e até um salão de eventos, que poderá ser utilizado tanto em atividades com pacientes quanto alugado para ajudar na manutenção financeira da ONG.
Outro avanço importante será a ampliação do bazar solidário — uma das principais fontes de arrecadação da ONG -, além da criação de um espaço adequado para armazenar doações, como fraldas geriátricas e camas hospitalares que são emprestadas a pacientes em tratamento domiciliar.
Talvez não seja coincidência contar essa história justamente no Mês da Mulher. A Metástase do Amor se parece muito com uma grande mãe coletiva: abraça, acolhe e orienta pessoas em um dos momentos mais delicados da existência. E, não por acaso, grande parte de seu voluntariado e de sua diretoria é composta por mulheres que transformaram suas próprias batalhas em força para lutar também pelo outro. Mais do que uma instituição, a ONG representa um gesto comunitário de cuidado. E é justamente por isso que ela precisa e merece o abraço da cidade.
Finalizar a construção da sede, contribuir financeiramente, doar itens para o bazar, oferecer trabalho voluntário ou simplesmente divulgar a causa são formas concretas de fortalecer esse projeto que já transformou tantas vidas.
Falo também de um lugar pessoal. Meu pai realizou tratamento oncológico há alguns anos em Divinópolis e hoje revive esse processo. Naquela época, o acolhimento oferecido pela ACCCOM e pelo Hospital do Câncer foi essencial para nossa família. Ter uma rede de apoio faz toda a diferença quando a vida parece vacilar.
Por isso, ter em Bom Despacho um espaço dedicado ao acolhimento de pacientes oncológicos é mais do que importante. É dignidade. É cuidado. É vida.
A vida, afinal, é uma caixa de surpresas. E, em algum momento, qualquer um de nós pode precisar desse tipo de amparo.
Que possamos, portanto, caminhar ao lado da Metástase do Amor. Ser voluntários, doadores, apoiadores. Ser comunidade, no sentido mais profundo da palavra.
E, março da mulher, deixo também meu abraço a cada mulher que vive sua própria jornada nesta Terra e uma homenagem especial a essa instituição que, como uma grande mulher-mãe, abre os braços para acolher pacientes oncológicos e suas famílias com aquilo que nunca deveria faltar no mundo: amor. (iBOM / Roberta Gontijo Teixeira / Imagens: Metástase do Amor).

