Pablo Lobato leva a Folia de Reis de Bom Despacho a SP

 

VANDER ANDRÉ ARAÚJO – Não é de hoje que o artista bom-despachense Pablo Lobato, filho de Zuca e Maria Angélica Lobato, projeta o nome da cidade no cenário nacional e internacional. Desta vez, ele não apenas leva o nome de Bom Despacho: leva também uma de suas mais importantes manifestações culturais e religiosas. Na exposição “Profanações”, em cartaz em São Paulo, a Folia de Reis de Bom Despacho é um dos três trabalhos que compõem a obra, apresentada em uma única videoinstalação.

A exposição está em cartaz no Instituto Tomie Ohtake, na capital paulista, entre 19 de março e 24 de maio de 2026, com entrada gratuita. A mostra ocupa uma das grandes salas do icônico edifício localizado no bairro de Pinheiros. O prédio é um dos edifícios contemporâneos mais reconhecíveis da capital paulista. Projetado pelo arquiteto Ruy Ohtake, filho da artista Tomie Ohtake, a quem o instituto homenageia, o edifício foi inaugurado em 2001. Suas formas curvas e as fachadas de vidro espelhado em tons de rosa, roxo e lilás o transformaram em um marco visual do bairro.

Concebida como uma videoinstalação, Profanações reúne três filmes realizados por Pablo Lobato entre 2011 e 2015 — Bronze revirado, Folia e Corda. Apresentadas em conjunto, as obras formam um único trabalho que articula imagem, som e arquitetura.

[Assista trechos dos vídeos CLICANDO AQUI].

O texto curatorial é assinado pelo recifense Moacir dos Anjos, um dos principais curadores e críticos da arte contemporânea brasileira, conhecido por conectar arte, política e questões sociais no contexto do Brasil e da América Latina.

À primeira vista, o título da exposição pode sugerir desrespeito ou irreverência com o sagrado. No entanto, a proposta segue justamente na direção oposta. O artista cria um ambiente imersivo no qual o público é convidado a retirar os sapatos antes de entrar no espaço expositivo. O percurso inclui um corredor e uma antessala que funcionam como zonas de transição. Marcado por penumbra, curvas, variações de luz e estímulos táteis, o trajeto desacelera o corpo e prepara a percepção para a experiência que se constrói no interior da sala.

“A ideia do título da exposição, Profanações, vem das reflexões do filósofo italiano Giorgio Agamben, de trazer para o mundo comum algo que o sagrado tomou para si”, explica Pablo. Na Roma antiga, “profanar” não significava apenas desrespeitar o sagrado, mas retirar algo do espaço sacralizado e devolvê-lo ao uso comum das pessoas. Agamben retoma esse sentido ao afirmar que profanar é justamente devolver ao uso coletivo aquilo que foi separado como intocável. Segundo ele, a sociedade moderna também cria elementos “sagrados”, mesmo fora da religião, como certas instituições, leis e formas de poder. Quando algo se torna intocável, profanar passa a significar devolvê-lo ao uso das pessoas.

Os três filmes apresentados na exposição foram realizados em contextos distintos e têm em comum a presença de práticas e rituais religiosos. O mais antigo é Bronze revirado (2011). Nele, o artista apresenta a imagem vertical do campanário de uma igreja barroca em São João del-Rei e do sino ali instalado. Ao transformar um rito religioso em jogo ou gesto lúdico, os movimentos dos jovens mestres sineiros colocam em questão a associação exclusiva do toque do sino à esfera do sagrado colonial.

Em Folia (2012/2015), segundo filme da mostra, Pablo Lobato registra e edita cenas da Folia de Reis em Bom Despacho (MG). A celebração integra o calendário religioso católico e relembra, por meio de encenações, músicas e cantos, a jornada dos Três Reis Magos até o nascimento de Jesus.

A exposição se completa com Corda (2014), filmado em Belém durante o Círio de Nazaré, uma das maiores festas religiosas do Brasil. O título faz referência à extensa corda de sisal, com cerca de oitocentos metros, que acompanha a procissão conduzida pela berlinda com a imagem de Nossa Senhora de Nazaré.

“Sem subtrair dos três filmes sua integridade ou autonomia, Profanações os reconfigura a partir de um território concebido para acolhê-los e, assim, transformá-los em partes de uma obra distinta. Um trabalho que evidencia como, em situações diversas, borram-se os limites entre o religioso e o mundano. Trata-se de um ambiente poroso, de onde brotam, em gestos e vozes de tantas gentes, memórias das violências, resistências e crenças que marcaram — e ainda marcam — a história do Brasil”, afirma Moacir dos Anjos no texto curatorial.

Pablo Lobato (1976, Bom Despacho, MG) apresenta uma pesquisa que não se restringe a uma linguagem ou meio, e se desenvolve de forma colaborativa, em relação a cada material, situação ou contexto. Lobato vive e trabalha em Nova Lima (MG). É graduado pela Faculdade de Comunicação e Artes da PUC Minas, com especialização em cinema (PUC Minas/UFMG), e estudou fotografia na Escola Guignard. Foi também um dos criadores da Teia – Centro de Pesquisa Audiovisual, em Belo Horizonte.

Em Bom Despacho, a tradição da Folia de Reis também ganhou registro recente no audiovisual. Em 18 de março de 2024, o comunicador Dênis Pereira e o diretor Clécio de Paulo lançaram o documentário “Oh, Ya – Folia de Reis cantada e falada em Bom Despacho das Minas Gerais” (assista AQUI) realizado com recursos da Lei Paulo Gustavo, que incentiva produções culturais locais e fortalece o audiovisual brasileiro. (iBOM / Vander André / Foto do alto: Pablo Lobato / Divulgação).

 

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