O branco da neve e as lembranças da infância
Jamais, contudo, nesta vida e neste mundo, podemos dizer nunca. Imagine só: após mais de cinquenta anos, acordei de um sonho
VANDER ANDRÉ ARAÚJO – Ainda menino, naqueles dias em que a gente se encantava com a decoração de Natal, e o desejo de ganhar presentes tomava o corpo e a mente, eu costumava rir das árvores nada naturais que via em algumas casas de Bom Despacho. Nos anos 1980, ainda não havia tantos pinheiros verdes na cidade. Nossas árvores tinham folhas branquinhas ou prateadas, além das bolinhas de isopor que caíam sobre elas, forçando uma neve improvisada sob aquele calor que bem sabemos chega e chega gostoso todo final de ano.
Aquilo sempre me intrigou. A gente assistia, nos desenhos da TV e nos filmes ambientados no Polo Norte ou adjacências, a cenas de personagens brincando naquela brancura de causar inveja: o chão onde trenós derrapavam, esquis deslizavam numa velocidade impressionante. Da sensação térmica, porém, não fazíamos a menor ideia. O mínimo que suportávamos com nossos paletós de flanela eram os quinze graus nas noites friorentas de junho, quando a gente fazia fogueira pra São João. Talvez imaginássemos um pouco do desconforto daquelas pessoas diante da tela, cobertas como astronautas, em agasalhos capazes de suportar até muito mais que os dez graus negativos, assim garantiam.
Mas nós somos gente dos trópicos, do sol escaldante, das tempestades de verão. Espantamo-nos com as pedras de granizo que caem nos finais de tarde, quando já não aguentamos mais ventilar a dor ou nos esconder em repartições privilegiadas, dotadas de ar-condicionado, mas aquelas pedrinhas geladas caem sobre o solo aquecido e se liquefazem quase que instantaneamente. Siga @jornaldenegocios no Instagram e veja mais conteúdos.
Jamais, contudo, nesta vida e neste mundo, podemos dizer nunca. Imagine só: após mais de cinquenta anos, acordei de um sonho, – numa dessas noites em que a nostalgia aperta o peito ao adormecer e a mente viaja para o lugar de origem -, ao olhar pela janela do meu quarto vi a neve cair sem cessar, neste inverno da Alemanha, onde estou agora. Assista AQUI ao vídeo gravado por Vander André Araújo em Hamburgo.
A primeira vez que o branco da neve cobriu meus olhos ainda remelentos de sono, naquela manhã, o espanto foi grande. São aqueles momentos que chamamos, num conceito moderno, de serendipidade: uma surpresa que acontece na vida da gente e a transforma num conto de fadas. Daqueles que líamos na infância, em que príncipes e sapos, bruxas e princesas, como a Branca de Neve, nos fazem esquecer, por instantes, o conto de falhas que está bem à nossa frente, lembrando-nos de que a vida poderia ser melhor e será.
A neve, com sua cor branca, cobriu de forma mágica toda a paisagem em minutos. O cenário era realmente de filme: as fotografias ficaram primorosas, os elogios dos seguidores chegaram aos montes. Tudo é inusitado. O espanto deixa de ser apenas filosófico; está ali, concreto, impondo o desafio de sair, caminhar um pouco pelas ruas como um pinguim, assim me ensinaram, derrapar com cuidado para não cair de bunda na superfície gelada e escorregadia.
Do outro lado do oceano, em imagens da rede social, acompanho uma saga completamente diferente, a dos meus amigos. Alguns se esmeram em praias lotadas, numa areia que um dia também foi branquinha, mas que agora se cobre de guarda-sóis e gente aos montões e exibem a cerveja gelada, coberta de gelo, vestida de noiva. Outros permanecem na cidade natal em sítios, clubes aquáticos ou mesmo em casa e o assunto é um só: que calor é esse?
Assim é a vida: esse show de contrastes, de cores, de temperaturas, de climas distintos; de pessoas que se adaptam e vivem, cada qual, com sua alegria e seu jeito próprio de encarar o sol, ou a falta dele, ou se encantar com o branco da neve.
Corri também para fazer o meu boneco de neve aqui em Hamburgo. Mesmo certo de que ele não duraria muito tempo, bastaria a temperatura sair do zero e logo não estaria mais ali para contar a história. Mas eu ainda estou aqui. E isso bastava para me tornar um agente nada secreto nessas paisagens cinematográficas e escrever sobre essa experiência nada usual para um latino, neste momento de resistir às nevascas e registrar o instante neste texto, diante do branco do papel ou, por que não?, da tela vazia que tanto assusta o escritor. (Portal iBOM / Vander André Araújo / Fotos de Hamburgo, Alemanha, Janeiro 2026, por Vander André).

