Entre sombras, lembranças e arquitetura: o Edifício Dr. Juca
VANDER ANDRÉ ARAÚJO – Antes que a praça da Matriz fosse cercada por esses arranha-céus que hoje obstruem a visão dos pedestres e turistas da imponente igreja católica em estilo neogótico – embora ofereçam aos seus moradores uma vista privilegiada -, eu caminhava por ali procurando sombra, em mais um daqueles dias ensolarados de verão em que o trabalho parecia não ter fim. Tudo o que eu mais desejava era escapar por um instante para tomar um sorvete na Bola de Neve. Ela ficava exatamente onde hoje está o Frango & Cia, local em que você pode encontrar, além do exemplar impresso deste Jornal, a coxinha de casca mais crocante e saborosa do mundo, preparada pelo famoso Romeu.
Entre uma marquise e outra, eu seguia meu trajeto do Banco do Brasil até os Correios para buscar, diariamente, as correspondências. Sim, uma das minhas obrigações como office-boy era ir à agência dos Correios, que funciona até hoje naquele antigo prédio da Rua Vigário Nicolau, 151, abrir a caixa postal 12 do Banco do Brasil, sempre cuidando para não perder a chave, e recolher aquele monte de cartas: algumas devolvidas por endereço incorreto ou pelo temido “mudou-se”, outras destinadas aos funcionários do BB, em grande volume no período do Natal…
No caminho de volta, eu sempre parava no Xuá, a tradicional lanchonete do Sr. Mozart. Atraído pelo cheiro de pastel frito e pelo pão de queijo que saía do forno pontualmente às três da tarde e que eu precisava levar para os colegas, junto com alguns gramas de presunto e mussarela. Tudo isso ainda me vem à memória com bastante nitidez. São lembranças de um tempo em que caminhava tranquilamente pelas ruas do centro da cidade, vestindo meu bem-passado uniforme de tergal azul.
Antes de abrigar o prédio do Xuá, a elegante esquina da Praça da Matriz com a Rua Faustino Teixeira era ocupada por várias lojas, dentre elas, a loja de calçados Cinderela. Veja na foto do alto, cedida pelo Zé Pedro.
De uma lembrança e outra, hoje quero falar sobre o prédio icônico que foi construído ali há mais de cinco décadas, ainda abrigando o Xuá no seu andar térreo (onde você também pode pegar gratuitamente o seu exemplar impresso do Jornal de Negócios há mais de 35 anos…)
Trata-se de um edifício que se tornou referência arquitetônica na cidade: o famoso Edifício Doutor Juca. O prédio leva o nome do médico bom-despachense, que construiu o imóvel nos anos 1970. Além de médico, Doutor Juca foi prefeito e vereador em Bom Despacho, ergueu o Hotel Letícia e o Cine Regina (cuja entrada ainda se podia ver na foto acima). Faleceu em 11 de outubro de 1982, em um acidente automobilístico no Rio de Janeiro. Hoje, uma das principais avenidas da cidade (que, diga-se de passagem, com o perdão do trocadilho, leva ao tão esperado Anel Rodoviário) tem o seu nome. Veja mais informações sobre Dr. Juca clicando AQUI.

Uma das moradoras de longa data do edifício, Beth Gontijo, viveu ali entre 1981 e 2007. Ao ser entrevistada sobre o período em que residiu no local, ela recorda com satisfação seus ótimos vizinhos: Dona Bita e Sr. Bento, Sueli e Ratinho, Nise e Márcio Jardim, Iolanda e Dr. Tonani e até o Dr. Juca, que, segundo ela, também morou alguns meses no prédio enquanto reformava sua casa. Além deles, lembra-se ainda de sua tia Darci e de Rafael Campos, de Sílvio, filho do Dr. Juca, e Aparecida, de Renato Queiroz e Lucina, e de João Zueira e Ziquito. Ela também se recorda do nome do arquiteto, Cid Horta, que, segundo ela me conta, foi também o responsável pelo projeto da casa de Ricardo Nogueira, no Arraial (São José).
Pesquisando sobre o arquiteto Cid Horta, encontrei na página do Sylvio Emrich de Podestá valiosas informações. Veja clicando AQUI.
Cid Horta formou-se pela Escola de Arquitetura da UFMG em 1965. Participou da Bienal de Arte de São Paulo, Seção de Arquitetura (1968), Prêmio Prefeitura de São Paulo para lojas (1969). Realizou vários trabalhos em Portugal (1973). Teve experiência profissional em projetos de edifícios comerciais e residenciais de grande porte, clubes, lojas e várias residências, Projetos publicados em diversas revistas nacionais e internacionais. Dentre eles, destaco o edifício sede do Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG), na rua da Bahia em Belo Horizonte, que foi projetada em 1969 por vários arquitetos, dentre eles, Cid Horta e que é tombado pelo patrimônio histórico. O arquiteto veio a falecer na primeira década dos anos 2000. Confira clicando AQUI.
Também se destacam a Casa A. Ziller, no Belvedere, em Belo Horizonte e o Edifício Izabella, também na capital. Veja obras aqui:
Obras em Belo Horizonte: veja AQUI.
Conversei com Sylvio de Podestá, arquiteto amigo e contemporâneo de Cid Horta, autor de projetos emblemáticos na capital mineira, entre eles a “Rainha da Sucata” (Ed. Tancredo Neves), na Praça da Liberdade, construído em 1980 e inaugurado em 1990. Ele me contou que já esteve em Bom Despacho algumas vezes, inclusive visitando a casa na Praça da Matriz onde hoje funciona a Caixa Econômica, projetada por Freusa Zechmeister, a renomada arquiteta de Belo Horizonte falecida em dezembro de 2024. Ela era conhecida tanto por seu trabalho como figurinista do Grupo Corpo e outros arquitetônicos na capital, quanto pelo projeto da própria Praça da Matriz de Bom Despacho.
Sobre o prédio Dr. Juca, Sylvio comentou que sua iluminação estava bastante precarizada no projeto inicial e que Cid realizou algumas intervenções, pequenos recortes triangulares nas divisas laterais, que ajudaram a amenizar essas falhas. Chamou-lhe a atenção no moderno projeto especialmente a fachada do edifício, marcada pelos arcos das janelas.
Eu gosto também do prédio e do que ele representa para o cenário de Bom Despacho. Fiz tanta questão de valorizá-lo que pedi ao Carlos Carminha, ilustrador do meu livro infantil, Pinoquiabo, que o incluísse na primeira aquarela do livro, acrescentando ao enredo um toque das minhas memórias pessoais, guardadas nas sombras da minha infância. Aquarela por Carlos Caminha. (iBOM / Vander André).


Que artigo lindo! Adorei como você trouxe a história do edifício e a atmosfera da região, parece tão fascinante.
Que bom que gostou, Rafael! Obrigado pela sua leitura e comentário!
A arquitetura trazendo lembranças…quando adolescente amava passear nesse passeio do edificio Dr Juca, para lá e para cá, cheia de sonhos. Esse seu olhar cuidadoso sobre o tempo e o espaço de sua terra Natal faz um bem enorme para mim. Em tudo empresta sua atenção e valoriza cada detalhe, cada lugar, cada pessoa.