Eleições em Coqueiros, município de Samonte
LÚCIO EMÍLIO JÚNIOR – Fui buscar no livro Coqueiros e Outras Histórias, de meu avô Mário Morais, algumas histórias de eleições antigas. Não encontrei propriamente uma eleição em Coqueiros. Encontrei coisa melhor: encontrei um país.
Mário começa de longe. Fala da origem do voto, dos partidos, da República Velha, do PRP e do PRM, da política do Café com Leite. Mas logo chega àquilo que interessa. “As eleições continuavam uma farsa”. É uma frase de meu avô.
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Na década de 1920, escreve ele, as oligarquias rurais dominavam a política. O poder era exercido pelos “coronéis”, que controlavam o voto dos parentes e agregados e os vigiavam no momento da votação. Depois vem a lembrança dos currais eleitorais: “aprisionavam os eleitores até a escolta à sessão eleitoral”. A palavra é maravilhosa: curral. Não porque seja bonita, evidentemente. Mas porque explica quase tudo. O eleitor podia até ir votar. Só não era exatamente necessário perguntar-lhe em quem.
Meu avô nasceu em Coqueiros, no município de Santo Antônio do Monte (MG), quando essa política ainda estava viva. A República tinha chegado ao interior, mas não havia chegado sozinha. Levava consigo o coronel, o padre, o compadre, o favor, o medo e a obrigação de agradecer. A urna era moderna. O mundo ao redor dela, nem tanto.
Mário lembra ainda que as eleições de 1930 foram “fraudadas por ambas as partes” e que o resultado foi o estopim da revolução que derrubou Washington Luís e levou Getúlio Vargas ao poder. É difícil imaginar uma fórmula mais brasileira: duas partes fraudam a eleição e depois uma revolução resolve a discussão. Depois veio Getúlio. Depois veio o Estado Novo. E vieram dias em que nem era preciso controlar o eleitor. Bastava dispensar a eleição.
Meu avô conta também, em O Getulista Apaixonado, a atmosfera política de 1945. Terminada a guerra, ele escreve que se vivia uma “efervescência política”. Getúlio havia marcado eleições para dezembro, havia o queremismo, havia a expectativa de redemocratização. Em outubro, um golpe militar o derrubou. Depois vieram os governadores e prefeitos nomeados.
Em Bom Despacho (MG), um prefeito chegou a exercer o cargo por apenas dois dias. Dois dias. Talvez tenha sido o mandato mais curto da história da administração pública. Ou apenas o mais honesto: não deu tempo de prometer muita coisa.
Tudo isso está em Coqueiros e Outras Histórias, livro que meu avô dizia não ter pretendido escrever como livro. Para ele, eram “divagações de alguém que, em certa fase da vida, procurou fugir de si mesmo”. É justamente por isso que gosto dele. Porque Mário não escreve a história política do Brasil. Ele escreve suas lembranças. E, sem perceber, deixa passar por elas a história política do Brasil. A grande história aparece de lado. A República aparece entre uma lembrança e outra. Os coronéis aparecem no meio da vida cotidiana. E o voto aparece cercado.
Fico pensando nisso porque Coqueiros não era o centro de nada. Era uma fazenda, um lugar pequeno, distante dos discursos da capital. Mas a política chegava lá. Chegava pelo coronel. Chegava pelo partido. Chegava pelo padre. Chegava pelo jornal. Chegava pela conversa. E chegava à urna.
Talvez seja esse o encanto involuntário do livro de meu avô: ele conta a história de um lugar que parecia estar fora da História e mostra que não estava. O Brasil também se fazia em Coqueiros, município de Santo Antônio do Monte, aqui do lado. Às vezes, dentro de um curral. E, às vezes, diante de uma urna. A urna era pequena. O curral, enorme. (iBom / Lúcio Emílio Júnior / Foto de arquivo).

