Cidade quente, cidade cinza: onde está a nossa sombra?
Entenda porque o planejamento verde, a homologação da Mata do Batalhão e o projeto da Lagoa do Babilônia são urgências econômicas e de saúde pública em Bom Despacho.
SAULO LELES COSTA – Basta caminhar pelas ruas de Bom Despacho no início da tarde para sentir na pele uma realidade incontestável: nossa cidade é quente e está cada vez mais árida. Enquanto municípios vizinhos como Itaúna e Divinópolis registram médias mais amenas no verão, nossos termômetros frequentemente ultrapassam a marca dos 34°C.
Em um estado que recentemente figurou como o mais quente do Brasil segundo o INMET, a sensação térmica local é agravada por uma escolha urbanística que priorizou o asfalto e esqueceu a árvore.
[ASSISTA AQUI ao vídeo feito por Saulo Leles sobre este tema]
O fenômeno das ilhas de calor urbanas não é teoria abstrata. O pavimento escuro e o concreto absorvem a radiação solar ao longo do dia e a irradiam à noite, impedindo o resfriamento natural da cidade. Dados do CREA-MG comprovam que a cobertura vegetal arrefece a temperatura ambiente em até vários graus, além de filtrar o ar e regular a umidade. Contudo, dados do MapBiomas alertam que apenas 6,9% das áreas urbanas brasileiras possuem vegetação consolidada. Em 2026, o Ministério do Meio Ambiente disponibilizou R$ 19 milhões através do Programa ArborizaCidades, e a Assembleia Legislativa de Minas Gerais aprovou a Política Estadual de Arborização Urbana (PL 503/23). As ferramentas financeiras e legais existem; falta transformá-las em política pública local.
Mata do Batalhão e o Babilônia: dois tesouros parados
Bom Despacho tem o privilégio de abrigar a Mata do Batalhão, um fragmento de mata nativa com 34 hectares encravado dentro do perímetro urbano — patrimônio ecológico que metrópoles globais despenderiam fortunas para possuir. O processo para constituição do Parque Natural Municipal Mata do Batalhão teve início formal em abril de 2022 e avançou com o Decreto nº 10.223/2024. No entanto, após seguidos anúncios do poder público, a homologação definitiva ainda não se consolidou. O espaço dispõe de trilhas consolidadas, mas carece de infraestrutura elementar: não há sanitários, iluminação, parque infantil, controle de acesso, estacionamento planejado ou segurança contínua.
Paralelamente, a baixada do Bairro Babilônia guarda condições topográficas e hídricas propícias para a implantação de uma lagoa urbana. A estruturação de uma orla com pista de caminhada, quiosques, arborização nativa e iluminação pública moderna funcionaria como um indutor de desenvolvimento econômico.
Conforme debatemos nas semanas anteriores sobre a hiperconcentração central e a crise de estacionamento, descentralizar os polos de convívio e comércio para bairros populosos desafoga o centro e gera novos eixos de valorização imobiliária e geração de renda.
Casos de sucesso: a solução na prática
A experiência de outros centros urbanos demonstra que o investimento em infraestrutura verde entrega retorno econômico direto. A recuperação do Parque da Lagoinha, em Belo Horizonte, transformou um passivo ambiental degradado em referência de lazer comunitário. Estudos imobiliários em capitais como São Paulo e Cuiabá indicam que a proximidade imediata de parques estruturados promove uma valorização imobiliária de até 30% no entorno, atraindo empreendimentos comerciais, gastronomia e serviços.
No campo da saúde coletiva, as evidências científicas são categóricas. Pesquisas publicadas pela USP e pela plataforma SciELO apontam que o acesso regular a refúgios verdes reduz a incidência de distúrbios cardiovasculares e alivia sintomas de ansiedade e estresse. Em recente manual sobre saúde ambiental, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) destacou que o contato direto de crianças e adolescentes com a natureza combate os impactos do confinamento digital e melhora expressivamente o desenvolvimento motor e cognitivo. Áreas verdes não representam despesa orçamentária supérflua, mas investimento preventivo em bem-estar e saúde pública.
O que precisamos fazer?
Para que Bom Despacho deixe de ser uma cidade cinza e torne-se um ambiente climaticamente equilibrado, proponho as seguintes ações integradas:
Poder Legislativo: Aprovar a Lei Municipal de Arborização Urbana, em consonância com as diretrizes do PL 503/23 da ALMG; instituir dotação orçamentária impositiva para a manutenção do Parque Mata do Batalhão; declarar de utilidade pública a área destinada à Lagoa do Babilônia; e tornar obrigatório o plantio de espécimes arbóreos nativos nas calçadas de novos loteamentos.
Poder Executivo: Concluir de imediato a homologação jurídica do Parque Natural Municipal Mata do Batalhão, aparelhando-o com portaria, sanitários, segurança patrimonial e áreas de recreação; submeter projetos executivos para captação dos recursos do Programa ArborizaCidades do MMA; iniciar os estudos de viabilidade técnica da Lagoa do Babilônia; e executar um plano contínuo de plantio de árvores nas avenidas estruturantes e praças dos bairros.
Comunidade e Sociedade Civil: Participar ativamente dos conselhos municipais de meio ambiente; exigir a entrega efetiva dos espaços públicos de preservação; engajar-se em ações coletivas de arborização de calçadas; e ocupar as áreas verdes da cidade com responsabilidade e zelo comunitário.
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“Árvore no meio urbano não é mero adorno paisagístico. É infraestrutura básica de saúde, sombra para quem trabalha e alicerce de uma cidade verdadeiramente humana.” (iBOM / Saulo Leles Costa é biólogo, cientista ambiental, gestor público e servidor federal do TRT / Foto: Luiz Main).

