Além da chaminé: o futuro respirável da nossa cidade
Após o fim das emissões industriais que marcaram a cidade de Bom Despacho (MG), o debate se volta para o papel da Câmara Municipal na criação de leis que garantam uma economia forte e sem poluição.
SAULO LELES – Durante anos, o cotidiano de muitos moradores de Bom Despacho (MG) foi marcado por um convidado indesejado: a fuligem. Aquele pó fino, escuro e persistente, expelidos pelas chaminés das siderúrgicas, que invadia frestas de janelas e se acumulava nos quintais, não era apenas um problema de limpeza; era o símbolo visível de um modelo industrial que parou no tempo.
Recentemente, com o encerramento temporário das atividades de siderúrgicas locais, a cidade se viu em uma encruzilhada. O silêncio das fábricas traz um ar mais limpo, mas ao mesmo tempo gera um problema estrutural grave: a desindustrialização e a perda de força econômica.
Agora, siderúrgicas anunciam a volta das atividades em Bom Despacho.
[Assista AQUI ao vídeo gravado por Saulo Leles]
Segundo o Censo de 2022, Bom Despacho esteve estagnado, registrando 51.737 habitantes. Em contrapartida, Nova Serrana, que fomentou agressivamente seu setor industrial, ultrapassou os 105.500 habitantes no mesmo período. E como desenvolver sustentavelmente?
A resposta não está apenas na tecnologia, mas na política. A Câmara Municipal de Bom Despacho tem um papel fundamental nessa transição. Para que a cidade não dependa de indústrias obsoletas, os vereadores precisam liderar a criação de um Plano Diretor Sustentável.
Isso significa legislar sobre o zoneamento industrial, impedindo que fábricas poluentes se instalem próximas a áreas residenciais, e criar leis de “IPTU Verde” ou incentivos para empresas que comprovem o uso de tecnologias de filtragem de última geração.
Para o médio e longo prazo, o Legislativo pode contribuir com três frentes principais:
1. Monitoramento Independente: Criar leis que obriguem a instalação de sensores de qualidade do ar em pontos estratégicos, com dados abertos à população em tempo real.
2. Incentivo ao Aço Verde: Propor parcerias público-privadas para atrair indústrias que utilizem hidrogênio ou fornos elétricos, que são silenciosos e emitem apenas vapor d’água.
3. Fundo de Recuperação Ambiental: Destinar parte das taxas industriais para um fundo específico de reflorestamento e saúde pública nos bairros mais afetados pela antiga fuligem.
Lições para o amanhã
O fechamento temporário das siderúrgicas em Bom Despacho é uma oportunidade de recomeço. O progresso não pode ser medido apenas por toneladas de ferro, mas pela qualidade do ar que a próxima geração vai respirar.
A tecnologia para unir produção e saúde já existe. O desafio agora é que o Legislativo tenha a coragem de criar as regras do jogo para uma economia que respeite o cidadão.
A limpeza das janelas em nossa cidade hoje é um símbolo de um novo tempo. Que este seja o ponto de partida para uma Bom Despacho que não precise escolher entre o emprego e o pulmão de sua gente. (Portal iBOM / Saulo Leles é biólogo, gestor público e servidor federal do TRT14 / Foto: iBOM TV).

