Onde estão as bancas de revista?
A formação dos bons profissionais — e das boas lideranças — começa na disciplina silenciosa da leitura.
Foto do alto: este colunista na banca de jornais da Praça da Inconfidência do Sr. Alberto, em Bom Despacho (MG)
ÍTALO COUTINHO – Escrevo para o Jornal de Negócios, de Bom Despacho/MG, há mais de 27 anos. Nem sempre consigo enviar meu texto semanal — minha escrita navega entre engenharia, negócios, cotidiano, tecnologia e opinião — mas a conexão permanece viva.
Sempre que reencontro meus conterrâneos bom-despachenses, a pergunta vem quase automática: “Você ainda escreve para o jornal?” Essa pergunta toca fundo. Há algo ali entre vaidade, amizade e um certo sentimento de ausência por não estar semanalmente com meus poucos — porém fiéis — leitores.
A leitura sempre esteve presente em minha formação. Guardo profunda gratidão à professora Geralda Pontes (in memoriam), que nos incentivava, nos últimos anos no Colégio Tiradentes, a ir semanalmente à banca do Peninha comprar jornais para trabalharmos nas hemerotecas.
Produzíamos textos curtos, escritos em cadernos de caligrafia (sobretudo para os menos caprichosos). O ganho era imenso: cultura, visão de mundo, senso crítico, leitura geopolítica e uma base intelectual que ajudou a formar não apenas profissionais, mas cidadãos.
E então volto à pergunta que insiste: onde estão as bancas de revista?

No dia 5 de fevereiro, reencontrei, na Academia de Polícia Militar, em Belo Horizonte, o colega Adhynan — que foi entregador do Jornal de Negócios. Ao relembrar aquela fase, talvez seu primeiro trabalho, ele destacou o quanto a experiência foi formadora. Hoje, tenente-coronel da PMMG e subcomandante da APM, carrega consigo valores construídos também ali, na rotina simples e disciplinada de vender jornal. Estavam conosco também os bom-despachenses tenente-coronel Brunno Marques e Bruno Carazza — todos ex-alunos do Colégio Tiradentes.
Mas a pergunta permanece: onde andam as bancas? Por que os jornais e revistas — que nos alimentavam intelectualmente — parecem cada vez mais raros?
Banca da Praça da Inconfidência
Recentemente estive na banca da Praça da Inconfidência, em Bom Despacho. Fui muito bem recebido pelo Sr. Alberto. Mas é visível que, para sobreviver, a banca precisou diversificar produtos. Adaptar-se. O mundo mudou. O digital ganhou espaço. A atenção fragmentou-se. Talvez estejamos lendo menos profundamente. Talvez estejamos desaprendendo a sustentar o olhar por mais de uma página.
O Jornal de Negócios continua gratuito, com distribuição física e presença ativa no Instagram, no site e em outras plataformas digitais. Os formatos mudam. Os meios evoluem. A tecnologia avança.
Mas uma coisa permanece inegociável: leitura e busca por conhecimento precisam ser constantes. Sem isso, abrimos espaço para superficialidades, discursos vazios e pseudoespecialistas que falam muito e estudam pouco.
A formação dos bons profissionais — e das boas lideranças — começa na disciplina silenciosa da leitura.
E talvez, no fundo, a pergunta não seja apenas sobre as bancas de revista.
Seja sobre o tipo de sociedade que queremos continuar formando. (iBOM / Ítalo Coutinho, engenheiro e escritor).


Sua história meu transportou há pelo menos 50 anos atrás!
Meu primeiro “emprego” foi como entregador de jornal – Estado de Minas – em 1973 – tinha 9 anos – naquela época podia trabalhar, hoje é crime colocar os filhos para trabalhar cedo – fui moldado em meu caráter trabalhando desde novo – “Sr. Zé do Correio” me empregou, fiquei la até os 14 anos, onde assinei pela primeira vez minha carteira de trabalho. Lembro até hoje meu itinerário. Esperava o ônibus da Santa Maria, na antiga rodoviária, na rua Dr. José Gonçalves, “encadernava” os jornais, ali mesmo no banco da rodoviária, pois eles vinham por sessões. Aí saía entregando para os “assinantes”.
Dr. Roberto, Moacir “Chicó”, Nicolau Leite, Dona Prosperina, Sr. Neves “Gerente do Bemge”, Mário Quirino, Casa Paroquial, Casa Assunção, Dr. João Xavier Rabelo, José Fulvio, Célio Lobato, Sindicato Rural, Dr. Juca, Banco do Brasil, Hugo Leite, Dona Geni, Hotel Letícia, Paulo Guerra, Sid. União, “Burro Tê”, Quinzinho e Mário Moraes.
Fico feliz em trazer essas recordações. Como diz um amigo “re-cordar é trazer de volta ao coração”.