Entre a bola que nasce e a história que resiste

 

ROBERTA GONTIJO TEIXEIRA – Nos últimos tempos, vi muitas publicações na Internet sobre o novo time de futebol de Bom Despacho, o BEC – Bom Despacho Esporte Clube, que contou com apoio do Legislativo e da administração municipal. Cresceu rápido e ganhou projeção para além dos limites da cidade. O vice-campeonato na Copa Itatiaia, logo em sua primeira participação, é motivo legítimo de orgulho para todos nós. É, sem dúvida, emocionante, ver um novo projeto florescer. É alentador perceber que o esporte ainda mobiliza paixões, sonhos e identidades coletivas. Bom Despacho merece celebrar o BEC.

Mas, em meio a esse entusiasmo, uma outra reflexão se impõe.

Um vídeo recente da Paré trouxe à tona uma cobrança necessária: o olhar público precisa alcançar também os muitos outros times da cidade. Longe dos holofotes, eles resistem há décadas com trabalho sério, voluntário e persistente de muita gente.

Moro no bairro Esplanada e essa realidade me atravessa diretamente. O time do bairro acabou. O campo foi abandonado. A quadra, que ficava no fim do bairro e que foi promessa de restauração, hoje está entregue ao esquecimento. Ali, o esporte ficou pelo caminho.

No final do ano passado, como faz há muitos anos, Chico convidou meu pai para a festa do Famorine, e eu fui junto. O que encontrei ali foi encantamento: um campo bem cuidado, uma festa organizada, estrutura e histórias pulsando em cada canto. Não era apenas um time. Era memória viva.

Resolvi conhecer melhor essa história. Conversei com fundadores, ouvi relatos. Meu amigo Paulo “Maiado”, um dos membros do clube, me apresentou ao senhor Teodoro. Num dia chuvoso, sentados nas arquibancadas do campo, tivemos um dedo de prosa que me marcou profundamente. Agora era colocar no papel.

O Famorine foi fundado em 1977, num tempo em que não havia Internet e Bom Despacho oferecia poucas opções de esporte e lazer. Um grupo de amigos (Libério Café, Valdir, Gervick, Paulinho, Carlos e Teodoro) reunidos no Bar do Chico Lopes, no bairro de Fátima, decidiu formar um time. O jogo de estreia já estava marcado, no Vilaça. O caminhão, pronto para levar os atletas. Faltava um nome.

[Veja este e outros conteúdos seguindo @jornaldenegocios no Instagram]

Inspirados por um caminhão de óleo da Havoline, deram asas à criatividade e criaram um acróstico que dizia muito sobre seus ideais: (Força, AMor, ORganização, Integração, Nação e Esperança). Assim nascia o Famorine, idealizado por amigos do bairro de Fátima e sustentado por valores que atravessam o tempo.

De lá para cá, a história só cresceu. Vieram conquistas, campeonatos, personagens inesquecíveis. Em 1978, convidados por Dr. Paulinho, disputaram a Copa Bom Despacho e chegaram à final contra o time da Skol. Os treinos aconteciam no meio da Mata do batalhão, na divisa com o bairro de Fátima, local improvisado e sem infraestrutura.

A primeira diretoria teve Dias, fotógrafo, como presidente, e José Quirino como tesoureiro. Gustavo Lopes foi quem viabilizou o primeiro empréstimo para iniciar a construção das estruturas do clube, que, ano após ano, foram sendo ampliadas com o esforço coletivo.

Pedro Cintico (à direita da foto) recebe homenagem do Famorine

Segundo Teodoro, impossível contar essa história sem mencionar Pedro Síndico, Pedro Lino da Costa, que chegou ao clube em 1982/1983 e foi responsável por transformações profundas: alambrado, gramado, abertura do espaço com máquinas. Permaneceu quase 20 anos na diretoria e hoje dá nome ao estádio construído onde antes havia apenas um campinho na mata.

Ao longo dos anos, foram muitos os campeonatos, os atletas e as histórias vividas ali. O clube impulsionou, inclusive, o crescimento do bairro de Fátima.

Mas há um ponto que precisa ser destacado com letras garrafais: o trabalho de base. Estima-se que mais de 10 mil crianças e adolescentes já tenham passado pelo Famorine ao longo de sua história.
Hoje, são 253 atletas infantojuvenis treinando às segundas e sextas-feiras à noite. Quem pode contribui com uma mensalidade de R$ 85,00 para ajudar nas despesas, incluindo preparadores físicos. Os demais são bolsistas, mantidos graças ao apoio de comerciantes da cidade, diretores e torcedores do clube.

Por isso, meus cumprimentos ao BEC. Que continue escrevendo uma bela trajetória e levando o nome de Bom Despacho adiante. Mas que as instituições, os vereadores e a administração local ampliem o olhar. Que enxerguem também aqueles que há décadas escrevem a história do esporte na cidade, muitas vezes no silêncio, muitas vezes com poucos recursos, mas sempre com compromisso, amor e esperança.

Obrigada, Chico, pelo convite feito ao meu pai. Obrigada, Teodoro, pela trajetória e narrativa, Obrigada, Paulo, por intermediar as conversas. Obrigada, Paré, Pedro e tantos outros atletas, diretores e torcedores que escrevem a história do Famorine. (iBOM / Roberta Gontijo Teixeira / Foto do alto: o time do Famorine em 1977 / Imagens: Arquivo Famorine).

 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *