O time do Divininho no Ipê Campestre
DILERMANDO CARDOSO – Na década de noventa, a diretoria do Ipê Campestre resolveu criar uma escolinha de futebol infantil. Era preciso oferecer atividade sadia para aquele bando de adolescentes que passava o tempo aprontando pelas dependências do clube. Como técnico foi escolhido um rapaz de modos tranquilos e gestos moderados, que costumava andar por Bom Despacho pedalando sua bicicleta. Embora de boa estatura, ele atendia por Divininho!
Toda novidade provoca comentários favoráveis ou contrários, é a lei. Sem demora, apareceram palpiteiros dizendo que o técnico até podia entender de bicicleta, mas não de futebol. Exageros à parte, na verdade o Divininho tinha dois “probleminhas” para a função: era míope e gaguejava quando as peraltices dos seus pupilos deixavam ele nervoso durante os treinos e jogos. Convenhamos que técnico enxergando pouco e ainda por cima gago não é muito animador… Mas logo se constatou que o moço era bom nos fundamentos e táticas! Divididos por idade — os de até dez anos, e os acima de dez —, formaram-se dois esquadrões.
Os primeiros jogos-testes foram contra equipes mirins aqui da cidade. Definidos os titulares e reservas, então o time do Ipê passou a excursionar em torneios pela região, daí enfrentando equipes de Dores, Lagoa da Prata, Moema, Martinho Campos… Nas vitórias e derrotas estas viagens eram festejadas igualmente, ficando combinado um rodízio entre os pais dos atletas que transportavam os craques repartidos em seus carros.
Para auxiliar-técnico o Divininho convidou seu amigo Iôla — um negrão com quase dois metros de altura, parrudo, de pouca conversa e cara fechada, porém o coração doce como mel de abelha jataí. Também ficou acertado que nas excursões para disputar jogos em cidades vizinhas, o Iôla iria trabalhar como segurança dos times: algum adversário era besta de dar butinada nos meninos do Ipê, vendo a figura daquele sujeito grandalhão, passeando atento, pra lá e pra cá, na beira do campo? É ruim que fosse!
Pai quase ausente — do tipo que nunca dava notícia por onde andariam os cartões de vacina dos filhos, mas que nos treinos e jogos se ajeitava na beira do capo com uma caixa de isopor cheia de cervejas —, cometi a temeridade de comprar uma perua Caravan usada (que os garotos apelidaram de “navio”), e nela transportava equipes inteiras de jogadores!
Hoje, enquanto disfarço o ócio da bendita terceira-idade em caminhadas pelas ruas de Bom Despacho, frequentemente encontro alguns daqueles meninos bagunceiros, agora adultos e respeitáveis profissionais liberais, empresários, doutores, funcionários públicos, militares que cumprindo novo ciclo da vida levam seus filhos para jogar futebol no Ipê Campestre… De certa maneira, a história se repete com novos personagens… (Dilermando Cardoso é escritor e bancário aposentado).