Renato Fragoso: o voo final do Bruxo
Morreu na noite 20/3, aos 70 anos, o ex-jogador, jornalista e colunista Renato Fragoso
ALEXANDRE BORGES COELHO – Renato Fragoso – conhecido como Bruxo – era um intelectual com estilo próprio. Tinha conversa macia e articulada. Gostava de contar ‘causos’ e de filosofar. Adorava futebol, esporte em que se destacou como jogador talentoso na juventude, especialmente vestindo a camisa do Associação de Bom Despacho-MG.
Miúdo no tamanho e gigante no intelecto, chegava sempre de mansinho, com um sorriso maroto, nas muitas rodas que frequentava.
Fragoso manteve uma coluna semanal no Jornal de Negócios de 2006 a 2011. Num dos primeiros textos, disse que gostava de contar histórias “repletas de personagens e magia, umas verdadeiras, outras inventadas, e mais algumas reminiscências, pitadas boas lembranças”. Referia-se a Bom Despacho e sua gente que ele tanto amava.
Através das reflexões do seu personagem Possidônio – um caipira esperto e atento ao mundo – Fragoso destilava reflexões amparadas na simplicidade e sabedoria do matuto. Possidônio era seu alter ego mal disfarçado.
De alma inquieta, olhar sensível, humor fino e elaborado, Renato Fragoso escreveu sobre temas variados no Jornal de Negócios. Às vezes falava de assuntos sérios e profundos que desassossegam o ser humano. Outras vezes, fazia crônicas sobre pessoas, costumes e histórias de Bom Despacho. Nas mais de 200 colunas que publicou por quase 5 anos, Fragoso registrou a alma, os valores, o talento e as inquietudes da gente de Bom Despacho.
Uma crônica que demonstra bem esse espírito foi publicada na edição de 1° de julho de 2007. Com o título “Pérolas do bom humor bom-despachense“, Fragoso conta seu périplo quando, trabalhando fora, vinha a Bom Despacho. Veja abaixo a reprodução da crônica.
Renato nos deixou de repente, sem dar adeus aos milhares de amigos que cultivou na sua vida intensa e breve. Mas as palavras inspiradas do Bruxo deixaram sua marca na história de Bom Despacho. (Portal iBOM / Alexandre Borges é advogado, jornalista e editor / Foto: Renato Fragoso com a esposa Irene na festa comemorativa da edição 1.000 do Jornal de Negócios, no antigo Sesc, em 05.07.2008).
Pérolas do bom humor bom-despachense
COLUNA PUBLICADA EM 01.07.2007
RENATO FRAGOSO – Em minhas estadas em Bom Despacho, cumpro um ritual que chega a ser quase uma peregrinação. Passo no bar do “Dé” para saber das últimas novidades. Ele, todo orgulhoso, me mostra a TV de 29’ que acabou de comprar. Sua alegria dura pouco. Logo o Pierre, só para atazanar o Dé, reclama: “Porque você não comprou uma TV de plasma de 42”?
No trajeto até a Praça da Matriz, passo pela Praça da Estação. Lá estão o Leitão, o Nêgo, o Carlito, o Tomé, o Agenor, o Dão, o Tãozico e outros. O Nêgo conta casos de pescarias e caçadas. Conta que tinha um cachorro caçador de tatu chamado Brinquinho. Brinquinho era tão bom caçador, mas tão bom, que quando não encontrava a caça, ele mesmo, com suas patas, juntava um punhado de folha seca e terra, urinava sobre elas, mexia e remexia, e dali brotava um tatu. Só ouvi: “Truuco”!
Subo até a praça da Matriz, mas antes, tomo a benção do “Timar”. “A sua benção, Timar”. Ele: “É a primeira mão honesta que pego hoje!” Respondo: “Você, eu não sei, mas eu, certamente que sim”. Despeço-me e ele insiste: “Vai não! Fica mais”. “Não, depois eu passo por aqui para trocar umas idéias com você.” E ele: É ruim, hein? Trocar idéia? Até nisso, você me passa a manta!” Já ganhei meu dia!
O Dalmo que me conta mais uma do Mandruvá. O José Maria, pai do Dalmo e dono da sinuca de onde o Mandruvá era freguês de carteirinha, estava reformando a sua casa quando recebeu a visita inesperada do Mandruvá. Ele entrou e ficou observando a obra. Colocou a mão no queixo e, com ar pensativo, vociferou: “Agora eu sei para onde está indo o meu dinheiro!”
Caminho pela Praça da Matriz. Encontro o Paulinho do Agripino, sempre bem humorado, e ele me sai com essa: “O Nelson Pé-frio foi datilografar um documento na Siderúrgica e de repente virou-se para o Nicomedes (aquele saudoso intelectual e escritor) e reclamou: “Uai, essa máquina de datilografia veio com defeito! Preciso datilografar uma palavra com dois “esses” e ela só tem um!” O Nicomedes, com sua verve irônica, sem hesitar, dá a explicação: “Você tem razão, Pé-frio, para você datilografar os dois “esses” você retira o papel e o coloca ali naquela outra máquina, digita o “s” que falta e depois volta com o papel para a primeira. Não é que o Pé-frio assim o fez!
No futebol dos veteranos no campo do Batalhão, às quintas-feiras, sempre que posso vou matar a saudade da bola e dos amigos. Impressiona-me a disposição do Júlio (Brito), mesmo com todas as seqüelas que lhe impingiram os truculentos zagueiros, ainda lhe sobra habilidade e inteligência. E o sargento Geraldo (Caveirinha)? Quanta genialidade, meu Deus! O tempo salta pra trás e relembro as homéricas partidas entre Associação e Batalhão. Mas, outro dia, em pleno andamento da “pelada”, qual não foi minha surpresa ao ouvir as instruções do Guimarães: “Entra de turma! Entra de turma neles!” Ah, se o Dunga descobre essa nova tática de futebol coletivo!
É… Como diz um ditado muito propalado pelos autóctones da Cidade Sorriso: “Se cercar, vira hospício. Se cobrir, vira circo”. (Bom Despacho-MG, 28.06.2007).