Dar livros antes de armas, perspectivas antes de medo
Que juntos possamos instituir um projeto de lei não que defenda o dia do caçador, mas que cuida da caça, dos bichos, das árvores, das pessoas, da pacificação, do verde, da educação … do planeta.
ROBERTA GONTIJO TEIXEIRA – Na sexta sessão ordinária de 2026 da Câmara dos Vereadores de Bom Despacho (MG), foi apresentado pelo vereador João Eduardo o Projeto de Lei 22/2026, que institui o Dia do CAC.
O que isso significa? Bom não sei quanto a cada um de vocês, mas eu fiquei pasma, triste e pensando, deve ser fake.
O que o PL quer instituir é o dia do Caçador, do Atirador e do Colecionador. Fui pesquisar. Era verdade. Veja o projeto AQUI.
Em tempos com tantas guerras e violência urbana, em que a sociedade clama por paz, soa quase como um grito fora de tom, ou pior, um eco de descaso, quando uma Câmara de Vereadores de uma cidade do interior decide voltar seus esforços não para políticas públicas que acolham, protejam e desenvolvam sua população, mas para a criação de datas simbólicas que exaltam práticas associadas à violência.
É impossível não questionar: que prioridades são essas?
As famílias vêm enfrentando o medo cotidiano, as guerras estão para todos os lados, os jovens carecem de oportunidades e comunidades inteiras pedem por educação, saúde e segurança. Não acho nem razoável que representantes eleitos dediquem seu tempo e energia para instituir o “Dia do Caçador, Atirador e Colecionador”.
Ainda que vivêssemos épocas de calmaria, um projeto de lei desse não deveria ter lugar.
Não se trata de demonizar indivíduos que pratiquem a atividade com responsabilidade, disciplina e respeito às leis – posto que a atividade é legalmente reconhecida -, mas de refletir sobre o simbolismo e o impacto de projetos como esse.
Em um cenário já fragilizado pela violência, que mensagem é transmitida ao legitimar e celebrar instrumentos que, tantas vezes, são associados ao conflito e à dor?
A política, em sua essência mais nobre, deveria ser ferramenta de pacificação. Um instrumento capaz de construir pontes onde hoje existem abismos, de oferecer caminhos onde reina o abandono. No entanto, quando o foco se perde, o que resta é a sensação de desalinho entre o que o povo precisa e o que seus representantes entregam.
Pacificar não é apenas conter a violência é também cultivar uma cultura de diálogo, investir em educação, promover inclusão social e criar oportunidades reais de crescimento. É olhar para a juventude e oferecer livros antes de armas, perspectivas antes de medo. É legislar com sensibilidade, entendendo que cada projeto aprovado carrega um peso simbólico e prático na vida da população, no dia a dia de cada bom-despachense. Siga @jornaldenegocios no Instagram e veja mais conteúdos.
Há urgência em resgatar o verdadeiro papel do legislador municipal. Políticas bem pensadas podem transformar realidades de forma concreta e rápida. Cada projeto deveria ser uma semente de futuro e não um incentivo ou um altar à violência.
Celebrar aquilo que remete à violência, ainda que de forma indireta é traçar um caminho na contramão do futuro.
O que esperamos e necessitamos das políticas públicas são iniciativas que fortaleçam a convivência, que reduzam desigualdades e que ofereçam segurança não apenas pela força, mas pela justiça social.
Em tempos de tensão, legislar pela paz não é apenas uma escolha sensata. É um dever moral. Porque, no fim, o verdadeiro legado de uma Câmara não está nas datas que cria, mas em vidas que podem ser transformadas, com educação, cultura, pacificação e solidariedade.
Amo morar em Bom Despacho, os acessos, os amigos, meus lugares favoritos, a quietude da vida, a qualidade do dia a dia que a cidade oferece. Me sinto na obrigação de levantar bandeiras quanto ao que discordo veementemente e falar sobre os também grandes desafios de morar nessa cidade interiorana e conservadora (de um jeito pejorativo).
Queria ir para a Matriz, levantar uma bandeira branca e captar adeptos para a minha causa. Pedir que se juntem a mim e que possamos ir à Câmara Municipal lutar pela não aprovação desse projeto e implorar por políticas e leis que, de fato, atendam à população.
Queria fazer uma campanha séria, ir de porta em porta e clamar à população para que me ajude a transformar esse projeto de lei numa luta contra a violência.
Mas o dia a dia me atropela, a realidade consome o tempo e me faltam horas no dia pra convocar e realizar mobilizações. Então, lanço mão do que me resta, que é a escrita e imploro à comunidade que abrace essa causa comigo. Que juntos possamos instituir um projeto de lei não que defenda o dia do caçador, mas que cuida da caça, dos bichos, das árvores, das pessoas, da pacificação, do verde, da educação … do planeta.
Vamos nos unir, participar, questionar.
Não vamos deixar que isso passe despercebido.
Vamos transformar esse momento de exaltação à violência em um ponto de partida para algo maior: um compromisso coletivo com uma cidade mais humana, mais justa, mais consciente, mais civilizada, menos violenta e mais amorosa. (iBOM / Foto: Arquivo Câmara Municipal BD).

