Ana Horta: quem foi essa artista nascida em BD?
Nascida em 1957, Ana Horta teve trajetória meteórica e faleceu prematuramente com apenas 30 anos, mas ocupou lugar de destaque na geração 80.
VANDER ANDRÉ – Quem visitou a comentada exposição de arte no Centro Cultural Banco do Brasil – CCBB, o centro cultural mais visitado da América Latina, em Belo Horizonte, “Fullgás – Artes Visuais e anos 1980 no Brasil”, deparou-se com uma obra da artista plástica bom-despachense Ana Horta. A exposição ficou aberta ao público até 10/11/2025.
Agora, podemos nos orgulhar porque, além da presença um tanto sisuda do busto em homenagem a outro ilustre cidadão da terra, o político e governador de Minas Gerais nos anos 1930, Olegário Dias Maciel, que adorna uma das salas nobres de exposição permanente daquele imponente edifício na Praça da Liberdade, em Belo Horizonte, temos também o nome de Bom Despacho associado a uma mostra de grande relevância no contexto artístico nacional.
Olegário, que governou o Estado no fim da chamada República Velha, segundo noticiou um jornal daquela época, “morreu solteiro e deixou diversos irmãos e sobrinhos”, aos 78 anos. Pois bem, no andar superior, durante a exposição, tivemos o orgulho de encontrar exposta a obra “Branco” (1984), pertencente à Coleção Branca Horta, acompanhada da placa de identificação com o nome da artista e de sua cidade natal: Bom Despacho (MG).
Mas, afinal, quem foi Ana Horta?
Assim que tomei conhecimento da presença da sua obra na exposição, procurei informações na internet e recorri a amigos na cidade. Aos poucos, fui descobrindo a história dessa jovem bom-despachense, que nos deixou tão precocemente, aos 30 anos. Agradeço, por oportuno, à Vera Cardoso Couto pelo apoio nas pesquisas junto a seu grupo de amigos, especialmente ao senhor José Hamdan, que chegou a mencionar conhecer dois dos irmãos de Ana, o médico Ronan Horta e o engenheiro Mauro Horta.
Ana Maria Horta de Almeida nasceu em Bom Despacho em 1957, filha de Célia Horta de Almeida e de Aldemar Gomes de Almeida, então gerente do Banco de Minas Gerais na cidade. Viveu até um ano de idade em Bom Despacho, quando a família se mudou para Santos Dumont (MG) e, em 1967, para Belo Horizonte. Foi casada com o fotógrafo Israel Abrantes.
Segundo informações no site da AM Galeria, em Belo Horizonte, Ana estudou desenho e pintura com Frederico Bracher Júnior em 1972. Em 1975, estudou composição e desenho com Nilza Borgeth; em 1977, desenho com João Quaglia; e, em 1978, com José Alberto Nemer, no contexto do Festival de Inverno de Ouro Preto. Ingressou na Escola de Belas Artes da UFMG em 1978, especializando-se em gravura. Em 1979, frequentou curso de verão na Escola Guignard e também o ateliê do artista Luiz Paulo Baravelli. Veja muito mais conteúdos seguindo @jornaldenegocios no Instagram.
Conforme o catálogo da exposição no CCBB, “Ana Horta lecionou arte na educação infantil nos anos 1980 e, nesse período, integrou uma geração de artistas que enfatizou a reabilitação da pintura. Participou da histórica mostra ‘Como vai você, Geração 80?’, no Parque Lage, no Rio de Janeiro. Suas pinturas revelam um estudo cromático matizado, com pinceladas livres e formas abstratas.”
A artista faleceu em 26 de março de 1987, em Belo Horizonte, vítima de um acidente de carro, aos 30 anos de idade.
O professor Rodrigo Vivas, doutor em História da Arte pela Escola de Belas Artes da UFMG, comentou comigo sobre a trajetória meteórica da artista e mencionou que uma das salas do Centro Cultural UFMG, localizado no centro da capital mineira, leva o nome de Ana Horta: “Durante minha gestão como diretor do Centro Cultural UFMG, um detalhe sempre me despertou curiosidade: o nome de uma de nossas salas de exposição. Como a maioria, eu conhecia pouco da trajetória de Ana Horta. Na época, aquela artista tão jovem foi alçada à condição de grande esperança de renovação da arte brasileira, no movimento conhecido como ‘retorno à pintura’. Sua obra, de uma força visceral, tinha uma intensidade que ecoou, de forma trágica, em sua partida precoce. Uma perda que deixou um vazio incontestável e interrompeu o que prometia ser uma das trajetórias mais significativas da arte no país.”
Pela relevância de Ana Horta na história cultural de Bom Despacho e pelo nosso ainda limitado conhecimento sobre sua trajetória, cresce a minha expectativa de que possa ocorrer uma articulação entre o poder público e os proprietários de suas obras para que, ao menos uma delas, passe a integrar o acervo do Museu da Cidade de Bom Despacho.
Sobre Ana Horta
A AM Galeria de Arte de Belo Horizonte, onde podem ser encontradas obras de Ana Horta, informou ao ser contatada que a artista mineira, natural de Bom Despacho, ocupa lugar de destaque no cenário nacional, especialmente no contexto da chamada Geração 80. A galeria ressalta a importância de valorizar trajetórias como a dela, fundamentais para o desenvolvimento das artes plásticas no Brasil, e indica como referência bibliográfica o livro Ana Horta (Belo Horizonte: C/Arte, 2008), de Walter Sebastião e José Israel Abrantes.
Veja mais sobre Ana Horta clicando aqui: ItaúCultural e AMGaleria.
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Sobre o espaço museológico em Bom Despacho, a Secretaria de Cultura me informou que o Museu da Cidade ainda não tem previsão para a sua reabertura. Segundo o órgão, o acervo já passou por um processo de gestão realizado por uma museóloga contratada, e, neste momento, a equipe analisa um imóvel que poderá abrigar tanto o armazenamento quanto a futura reabertura do espaço. Após a definição do local, será elaborado um projeto museológico e museográfico, nos mesmos moldes do que foi desenvolvido para o Museu Ferroviário, atualmente em funcionamento na Praça da Estação (que, diga-se de passagem, se chama Praça Olegário Maciel). (iBOM / Vander André Araújo é advogado, filósofo e escritor / Foto: AM Galeria de Arte).

