É tempo de pequi, o ouro do Cerrado
ÍTALO COUTINHO – Não é preciso ir longe da cidade para encontrar os primeiros pés carregados de pequi. É uma árvore frutífera comum em quase todo o estado de Minas Gerais e em grande parte do Cerrado brasileiro.
Na nossa cultura, o pequi aparece com frequência na cozinha: na panela com galinha caipira, no arroz bem temperado, em licores e doces. Quem cresceu com o fruto sabe também do aviso recorrente: ao roer a polpa, cuidado com os espinhos. Eles são finos, difíceis de enxergar e, se entram na língua ou garganta, dão um trabalho enorme para tirar.
Entre os povos indígenas do Cerrado, a lenda do pequi costuma ligar o fruto às forças da natureza e a uma perda dolorosa: a história de uma jovem mãe que tem o filho levado pelos espíritos da mata, e cujo luto se transforma no nascimento do pequi, com cor intensa, perfume marcante e espinhos escondidos como lembrança do sofrimento. O fruto passa a representar, ao mesmo tempo, proteção, memória e fertilidade da terra.
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Menos gente conhece o que está dentro do caroço. Com o corte certo, transversal, é possível retirar uma castanha saborosa, lembrando a castanha-do-pará, rica em óleos e nutrientes. Ou seja, o mesmo fruto que exige respeito pelo risco dos espinhos guarda, bem protegido, algo de alto valor.
A vida, os projetos e a própria engenharia se parecem com o pequi. Por fora, cheios de novidades, ideias, oportunidades. No meio do caminho, riscos que podem machucar quem não observa com atenção. Para quem encara o processo com método, paciência e técnica, existe uma recompensa menos óbvia: o aprendizado, a experiência, a “castanha” que fica para o próximo ciclo. (iBOM / Ítalo Coutinho é engenheiro e escritor).

