Quando havia quintais em Bom Despacho
Dois quintais em Bom Despacho estarão sempre na minha memória: o da sinhá Mariazinha, no Jardim-sem-flor, medindo um quarteirão, repleto de gostosuras, e o da sá Rita, próximo ao Larguinho, onde hoje edifícios crescem, mas não dão frutos
DILERMANDO CARDOSO – As frutas nos seduzem através dos sentidos. A mais famosa é a maçã! Com ela, espertalhona, a serpente fez Eva pecar. Tinha que ser muito bobinha, para acreditar numa cobra que falava! Adão, pegando carona, também comeu. Depois, se desculparia dizendo ao Senhor que fora enganado pela mulher…
Este papo do padre perguntar, na hora do casamento, se é “na alegria e na tristeza”, veio daí. Reclamam muitos: que culpa cabe a nós, pelo vacilo dos nossos primeiros pais, para sermos deixados neste vale de lágrimas? Outros comemoram. Afinal, se não fosse como foi, ainda hoje estaríamos presos no Paraíso. A ideia de passar a eternidade cantando hinos religiosos e repetindo orações devotas, nunca me empolgou. Enfim, se foi pecado, foi saboroso!
Voltando às frutas, das quais falava antes de enveredar-me por atalhos que realçam minha cretinice, não existe fórmula mágica para resistir a elas. É impossível esquecer o gostinho do caju. Não apreciar o sabor da laranja. Furtar-se ao prazer de chupar jabuticabas maduras, subido no pé! E abacaxi? Por fora, espinhento, assustando aos medíocres; descascado, já em fatias, recorda o mel do primeiro amor! É pena, que pouco tenha restado das frutas do cerrado: araticum, bacupari, gabiroba… Siga @jornaldenegocios no Instagram e veja sempre mais.
Do que me recordo, somente de uma fruta nunca fiz questão de experimentar: a horrível jaca! Furta-cor, obesa, fedorenta e do tamanho de uma melancia; amadurece dependurada pelo talo, na ponta das galhas… Caso despenque e acerte a cabeça de algum infeliz, que por acaso passe embaixo da jaqueira, um tempo depois a viúva mete a mão na grana do seguro de vida, e se arranja com namorado novo!
Pela variedade dos seus frutos, dois quintais em Bom Despacho estarão sempre na minha memória: o da sinhá Mariazinha, no Jardim-sem-flor, medindo um quarteirão, repleto de gostosuras, é o primeiro. Com outros moleques, fiz lá deliciosas colheitas! Certa vez, em que lá apanhávamos mangas, tendo percebido a invasão do seu pomar, a dona Maria nos surpreendeu, empunhando uma lamparina acesa. Todavia, ao lusco-fusco, vistas enfraquecidas, a boa senhora não reconheceu nenhum dos assaltantes. Então, com um bambu comprido, ela começou a estucar a bunda de quem estivesse nos galhos mais baixos… Não demorou nada, o Pacau arrancou para fora da braguilha seu membro de urinar, e apagou a lamparina. Foi o suficiente para que nos escafedêssemos todos, quintal afora, incógnitos até a próxima safra!
O outro quintal, visitado às escondidas, era o da sá Rita, próximo ao Larguinho, onde hoje edifícios crescem, mas não dão frutos. A vida em apartamento é tediosa: sem quintal, pés de frutas, terra para se enlamear… Ali, antigamente, havia muitas das nossas tentações! Dona Ritinha não precisava de bambu para expulsar os intrusos: seu pomar era vigiado por um cachorrão que botava medo! Porém, não o bastante para impedir que nossa turma afanasse suas frutas. É que antes, astucioso, alguém cuidava em passar no Açougue do Pequé, dali surripiando ossos e muxibas para distrair a fera! (Portal iBOM / Dilermando Cardoso / Imagem ilustrativa iBOM por IA)


Que recordação linda, a gente ainda sente um cheirinho de infância com esses quintais!